Representatividade para quem?


Sempre que me deparo com algo que deixe claro a hegemonia americana em detrimento de outras culturas, vem uma fala de Anna e o beijo francês, da Stephanie Perkins, na minha mente. A professora de inglês está dando um curso apenas com romances traduzidos, e ao explicar por que americanos rejeitam a tradução, ela diz que os romances estrangeiros têm menos ação, são mais lentos, com mais camadas, enquanto as pessoas americanas estão interessadas apenas em consumo rápido. Eu sei, é apenas uma professora fictícia dando uma aula fictícia. O que ela diz não é necessariamente a opinião da autora. Mas essa explicação, ao tentar criticar a cultura americana, mostra justamente como ela funciona.

Acreditar que os romances estrangeiros são lentos é ver todo estrangeiro como outro, como se fossem todos iguais. Ao mesmo tempo que supõe que não há romances estrangeiros de consumo rápido – afinal, esse seria, e de fato é, em parte, o papel da cultura americana, dá a ideia de que a profundidade é inerente ao outro. Eu sei que isso não é culpa individual dos americanos, que acontece justamente porque eles precisam exportar cultura para exportar seu modo de vida, mas eu acho triste essa rejeição ao estrangeiro. Chega até a ser engraçado perceber nossas diferenças. Também em Anna e o beijo francês, a protagonista, americana, se diz fã de cinema, mas não sabia da importância do cinema francês. Eu, que nem me considero entendida de cinema, provavelmente conheço mais filmes franceses do que ela, só porque nasci em uma cultura que valoriza mais o estrangeiro do que a si mesma – o que também é um problema.

O projeto #WeNeedDiverseBooks também escancara essas diferenças. As pessoas estão cheias de boas intenções em procurar ler livros diferentes, de outras realidades, e acho isso ótimo. Mas os livros indicados são quase sempre americanos. Não há incentivo de traduções. É algo como: “quer ler algo sobre a China? Leia esse que uma americana escreveu sem nunca ter ido para lá”. Eu não sou contra que escrevam sobre o outro, minoria ou não. O problema é quando isso dificulta que as minorias que escrevem sobre sua própria realidade tenham maior destaque e quando esses livros supostamente representativos são problemáticos para as pessoas retratadas, e mesmo assim são valorizados como livros diversos.

O sucesso de The Summer Prince, da Alaya Dawn Johnson, deixa isso claro. É uma distopia que se passa em um Brasil futurista. Os americanos aplaudiram: é escrito por uma negra americana, tem protagonistas negros, personagens LGBT, é sobre o Brasil. Mas por que ninguém parou para se perguntar se o livro é de fato representativo? Que diversidade é essa, estereotipada e até ofensiva para os brasileiros?

É curioso ler um livro sobre a sua cultura escrito por alguém que claramente não é dela. Estamos acostumados a sermos outros, com personagens caricatos e que falam um português estranho em séries, por exemplo. Mas em The Summer Prince não deveríamos nos ver como outros – é o futuro hipotético da nossa sociedade –, mas é o que acontece. Fica claro que o livro é imaginado por alguém que não é da nossa cultura.

Os nomes dos personagens são uma bagunça: nomes portugueses, ingleses, espanhóis e africanos convivem com naturalidade. Não é que isso não seja possível no futuro, mas o que explica o aumento de nomes estrangeiros? E por que a autora faz questão de dizer que Folade é um nome baiano??? Ela não explica essas questões. Além disso, são usadas várias palavras em português no meio do livro. Primeiro: se está pressuposto que os personagens já falam em português, como se o que a autora escrevesse fosse uma tradução, por que colocar o idioma em algumas palavras? E, em segundo lugar, e mais importante: por que raios essas palavras? A primeira frase do livro é “When I was eight, my papai took me to the park to watch a king die”, e eu sabia que não conseguiria respeitar o livro desde então. Há também palavras como “querido”, “bem-querer” e até um racista “bombril hair” como se fosse algo positivo. Novamente, poderia ter havido uma revalorização dessa palavra, mas como a autora não é brasileira, isso passa por falta de informação. Também há, é claro, menções a “saudades”, porque não se poderia falar na língua portuguesa sem falar em seu maior clichê.

Além disso, os elementos culturais brasileiros que restaram no futuro são justamente os conhecidos pelos gringos: o samba, a capoeira, o carnaval. Há alguns aspectos interessantes na crítica social, como a desigualdade que é a base da cidade Palmares Três e as citações ao nosso passado escravista, mas isso não é desenvolvido o suficiente.

Outras coisas parecem ser fruto da pesquisa da autora, e podem ser novidade para o leitor estrangeiro, como a relação de amizade que o país tem com o Japão e mesmo a mistura religiosa que temos, mas ainda é pouco e parece aleatório. E se a liberdade sexual, com personagens bissexuais e relações poliamorosas, poderia ser vista como ponto positivo pela diversidade vista como algo normal, ela acaba sendo reforçando a ideia do povo brasileiro como promíscuo. De novo, uma explicação de como a sociedade chegou a esse movimento de libertação seria o suficiente para justificá-la, mas a autora prefere deixar isso de lado.

O livro é uma ficção científica e deixa claro que é invenção, mas quando se tem tão pouca representatividade, é importante que o que apareça seja melhor. Quando vejo The Summer Prince em uma lista de livros diversos, fico ofendida, porque é um Brasil artificial que é vendido. Um Brasil para gringo ver. É esse tipo de diversidade que os americanos querem, uma diversidade irreal, potencialmente ofensiva? Eles podem não ver os aspectos que incomodam, mas a gente vê claramente. A gente se incomoda com os estereótipos, mesmo que não sejam necessariamente ofensivos, assim como um americano que lesse esse texto poderia ficar “ei, mas nem todo americano…”.

No final, talvez a professora da Anna tenha razão. Um livro americano sobre o Brasil é de consumo rápido, mas não seriam as várias camadas, que apenas alguém da própria comunidade conseguiria usar a seu favor, mais importantes para a representatividade?

Compartilhe:

Sobre Marília Barros

Marília é paulistana e estuda Letras. Gosta de bibliotecas, de animações e de coelhos. Não é a preguiça da foto, mas bem que gostaria de ser.