Relicários: santos e marias na literatura


Texto: Lara Matos

No catolicismo há cerca de 10 mil santos (entre ortodoxos, coptas e etc.), e vez ou outras eles aparecem com suas histórias na literatura, porque além de símbolos religiosos, já são elementos intrínsecos à cultura popular e deixam claro que nunca superamos totalmente nosso paganismo politeísta. Tem Santo para tudo: patrono de bêbados (Santo Onofre), de acometidos por furúnculos (Santo Antão), de carecas (São Brás); afinal, todo mundo merece poder fazer uma fezinha de proteção.

Os títulos de Maria (Nossas Senhoras) são as santas mais populares no Brasil, juntamente com Santa Ana, avó de Jesus. O marianismo pode ser visto dentro da igreja católica como um movimento que buscou dar algum status sacralizado às mulheres, embora de modo completamente equivocado, focando a santidade na concepção imaculada, que, segundo alguns teólogos, estende-se até Santa Ana.

Um dos escritores que mais menciona Marias em sua obra é García Márquez, com María dos Prazeres, María de Todos los Angeles, María de Los Remedios e Maria Pilar (Pilar Ternera), cada delas uma realmente tendo um nome simbólico em relação às respectivas narrativas. María de los Prazeres e Pilar Ternera são prostitutas, e tanto o aspecto de trazer alegria como de ser alicerce (profissão mais antiga do mundo, etc.) encontram-se na figura arquetípica da prostituta. Destaca-se também Sofía de la Piedad, que tem a história de vida análoga à da própria Santa Sofia em seus martírios perante a família; como tal, sobrevive à morte de três filhos.

fan art linda ilustrando Sierva María de Todos los Ángeles

Muitas mulheres na literatura nacional também trazem estas referências marianas: Maria da Conceição, de o Quinze, por exemplo, tem seu nome devido à Nossa Senhora da Conceição, relacionada a questões de fertilidade; é Maria após receber a anunciação de que esperava o filho de Deus, alusão à geração de vida em tempos secos e difíceis, assim como o ano de 1915 no sertão do Ceará. O Auto da Compadecida, peça teatral de Ariano Suassuna, não chega a mencionar a qual invocação de Nossa Senhora se refere, mas a figura de Maria como piedosa advogada mãe de todos é muito explorada, como Nossa Senhora d’Ajuda.

Outros santos também aparecem em livros, alguns escondidos e insuspeitos, mas muitíssimo relacionados com a história:

São Gonçalo de Amarante, na Casa dos Budas Ditosos, João Ubaldo Ribeiro: não aparece apenas neste livro de João Ubaldo, que trata do pecado da luxúria; sua menção é recorrente na cultura popular nacional, talvez por ter tido seu culto proibido em 1806 com medidas de “saneamento”. A novela Velho Chico mostrou por duas vezes a celebração da Festa de São Gonçalo, que conta com muita dança, música e um banquete. Originalmente nosso santo casamenteiro (não Santo Antônio), as rodas ou cirandas de São Gonçalo ainda acontecem principalmente no nordeste, e também servem para pedir que a chuva venha, e com ela, a fertilidade da terra.

Sankt Ilya de Morozova, representação fictícia

Santo Ilya de Morozova, Trilogia Grisha, Leigh Bardugo: para criar este personagem, Bardugo provavelmente se inspirou em Ilya Muromentz, beato e herói popular da Rússia, bem como no próprio Santo Elias bíblico, que tinha o poder de invocar luz através de raios para fulminar seus inimigos, algo bem parecido com o que Alina aprende a fazer. Unindo os dois, temos a construção aproximada de Sankt Ilya de Morozova. As menções ao Pássaro de Fogo também vêm do folclore russo, de lendas como Ivan e o Pássaro de Fogo, cristianização do mito grego da fênix.

São Jorge da Capadócia, várias menções: É tanta coisa sobre este santo principalmente na poesia, padroeiro tanto da Inglaterra quanto de Portugal, que fica difícil até pesquisar com precisão. Então falemos de um devoto conhecido de São Jorge, Mario Quintana, que escreveu versos para o Santo quando este teve sua real existência questionada pela Igreja Católica:

Um dia um papa decretou que São Jorge jamais havia existido
Meu Deus! A falta que nos faz um São Jorge
Se ninguém se atrever a montar no seu Cavalo Branco,
O Dragão Negro nos apanhará!

São Lázaro, Lady Lazarus, Ariel, Sylvia Plath: Lázaro é o patrono dos pobres, doentes e marginalizados, conhecido por ter sido ressuscitado por Jesus após uma vida miserável de doenças e padecimentos junto de suas irmãs. Muito adequado como alegoria à própria história da poeta, que compôs como modo de enfrentamento às suas tendências suicidas e menciona o milagreiro da ressurreição como seu patrono.

São Marcos Evangelista e Santa Agnes, Garotos Corvos, Maggie Stiefvater: É este o São Marcos do dia 25 de abril citado na saga dos Garotos Corvos, quando Blue vai para o Caminho dos Corpos (linha de ley) na véspera desta data. São Marcos é o patrono dos tradutores e dos videntes em algumas interpretações de devotos, porque era o intérprete e tradutor dos ensinamentos de Pedro, acompanhando-o viagens de pregação, e estendendo a partir daí suas habilidades para além-mundo, eis que para São Marcos foi revelado por Deus o que estava escrito para seu futuro em seu livro da vida, por isso sua associação com a vidência e o sobrenatural. O fato da casa de São Marcos ter sido abrigo para os apóstolos também o situa como receptor de bons espíritos e energias.

Blue vê Gansey no Caminho dos Corpos, na véspera do Dia de São Marcos Evangelista

Há menção a este dia também na Saga Crepúsculo, se celebra a expulsão de vampiros de uma cidade italiana, Volterra. A própria liturgia “o Senhor esteja convosco; Ele está no meio de nós”, proclamação do Evangelho segundo São Marcos, é uma das pouquíssimas invocações espirituais (grosso modo) admitidas pela Igreja Católica, porque chama o Espírito Santo para encarnar em comunhão durante as missas. Já Santa Agnes (Inês), que nomeia a Igreja em que Adam aloja-se com ajuda de Ronan, é a santa da pureza, padroeira das jovens meninas e da inocência. A figura de Ronan tem semelhanças com a história de vida de Santa Agnes.

São Mungo (gaélico, São Kentigern), Harry Potter, J.K. Rowling:  é o nome do hospital para doenças e acidentes mágicos, mas São Mungo realmente existiu e é patrono fundador de Glasgow, na Escócia, estando suas relíquias baseadas em uma catedral de mesmo nome na cidade. Talvez J.K. Rowling tenha utilizado St. Mungo para nomear o hospital porque segundo as datas de sua biografia, ele viveu na mesma época que o fictício Mago Merlin e sua principal atribuição milagreira é a de que as águas da banheira em que ele faleceu têm propriedades curativas.

emblema do St. Mungo’s Hospital, Fanart by RedBubble

Santa Myrope e Santa Hermione de Éfeso, também em Harry Potter, J.K. Rowling: Mérope encontra-se maltratada na casa dos Gaunt, e foge com Tom Riddle no livro. Desiludida, morre após entregar o filho para adoção. A Santa que também leva seu nome também viveu encarcerada em seu seu martírio até ascender aos céus pelas mãos de Santo Isidoro. O nome “Mérope” vem da mitologia grega, que nestas histórias era uma das plêiades, “estrelas que lamentam”.

Outra curiosidade: na mitologia grega, Mérope é tia de Hermes (filho de Maia e Zeus), deus da magia e psicopompo. Hermione, também personagem de J. K. Rowling, tem seu nome derivado deste deus, “consagrada a Hermes”, ou seja, à magia (Mione é nascida trouxa no livro, daí que o nome dela foi profético, né); na hagiologia, Hermione foi filha de São Felipe e médica caridosa (Hermione, nas Relíquias da Morte, sempre carrega a essência de Ditamno consigo, e é quem consegue fazer Ron melhorar quando ele estruncha), em Éfeso, que teve seu nome corruptelado para  português como Hermínia: esta santa, já em forma iluminada, auxiliou Santa Myrope (Mérope) em seu martírio e ascensão aos céus. Legal, né?

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Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.