Registro de uma caminhada silenciosa


Nesse meu último ano, enquanto fazia mestrado na Irlanda, comecei a me interessar muito por histórias não ditas, pelas coisas simples e frágeis do dia a dia. A sutileza nem sempre percebida, aquilo que está por trás de um véu de cotidiano que nos cega para enxerga as coisas como elas de fato são.

Comecei a notar como a arte é capaz de perceber essa sutileza e representá-la de uma forma que não corrompa seu espírito. Foi aí que eu me toquei que se essa era a arte que eu queria fazer, eu devia começar a ouvir – e sentir – o silêncio.

Silêncio não como a falta-de-som, porque a falta-de-som pode ser tremendamente sonora. Filmes mudos, por exemplo, mesmo sem ter efeitos sincronizados, geram em sua mente a sensação de som, quase como uma onomatopeia visual. Você acaba criando, mentalmente, a sua própria paisagem sonora.

Silêncio é algo além, algo que se sente no corpo, algo que se percebe na alma e que você sente ao se aproximar dele, quase num nível espiritual. Béla Balázs já dizia “Silêncio é quando o zunido de uma mosca numa janela preenche o quarto todo com som, e o tic-toc do relógio quebra o tempo com enormes batidas de um martelo”. Meu interesse não era necessariamente no silêncio como o vazio de som, mas sim como emoção – algo que nasce a partir do som para gerar em você a sensação de silêncio.

Esse sentimento-de-silêncio pode também ser chamado de uma forma de afeto (ou affect theory) criado pelas imagens e paisagem sonora. É o momento da força de encontros. No texto “An inventory of shimmers”, de Melissa Gregg e Gregory Seigmorth, affect é definido como “o nome que se dá à essas forças – viscerais sub, ou até mesmo além do consciente – forças vitais que persistem para além da emoção (…) É muito provável que affect aconteça exatamente entre as mais sutis das intensidades: todos os minúsculos ou moleculares eventos do despercebido.”

Quando uma cena te coloca num “estado mental de silêncio”, você se torna mais sensível e receptivo as imagens, você desenvolve uma percepção mais aguçada para os sons – tanto dentro como fora das telas – e você começa a sentir sua própria presença corporal e sonora no filme. Salomé Voegelin chama isso de “sentir o som” ao invés de ouvi-lo: “Sons são tangíveis nessa densa quietude. Eu sinto pelo meu corpo aglomeramentos de material sensível. Eu percebo cada suspiro, hum ou zumbido. Eu os sinto como fenômeno [de fenomenologia] preenchendo o quarto e a mim, definindo nossos contornos como um, sem saber exatamente quem ou o que somos”.

Não é mera coincidência que esse momento de afeto (affect) aconteça quando uma cena em tela consegue gerar uma sutil sensação de silêncio. Esse silêncio – mesmo quando nascido de som, mesmo quando “alto”; como por exemplo quando Sofia Coppola deixa sua personagem calada no meio de uma cacofonia de conversas, ou como Fellini usa o som de vento para marcar tanto seus silêncios como seus momentos mais místicos – esse silêncio marca o encontro entre o espectador e a imagem, entre entidades que passam e compartilham, naquele momento, um mesmo corpo e uma mesma fisicalidade.

É a experiência física e corporal da tela e da história. É o silêncio, como a sensação mental, emocional e física – e não apenas em suas qualidades de alto e baixo, complexo ou simples – que causa esse encontro e faz o espectador entrar para dentro da tela e se tornar consciente de sua própria existência, bem como perceber, para além da primeira camada (para além do véu de cotidiano), a verdade ali mostrada.

Foi pensando nisso que comecei a criar experimentos cinematográficos para tentar capturar essa sensação de silêncio, entender como poderiam imagens e som contar a história do silêncio – super close-ups? Preto e branco? Planos gerais? Como?

Entre meus muito experimentos nasceu esse filme que compartilho com vocês agora. A ideia inicial era marcar um círculo com raio de 2km a partir da minha casa, no norte de Dublin, e tentar encontrar nesse espaço lugares que gerassem em mim a sensação se silêncio, mesmo se eles fossem sonicamente “altos”. . Essa é a versão completa dessa caminhada, com todos os elementos e lugares encontrados. Esse mesmo filme, porém, acabou sendo reeditado e virou “D7”, um dos filmes que entreguei como parte de meu projeto final de mestrado e que você poderá ver em breve no youtube.

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