Quem vive, quem morre, quem conta sua história


Texto: Paulo V. Santana // Arte: Marília Pagotto

Outro dia perguntei a uns amigos se eles tinham aprendido algo sobre Pagu nas aulas de literatura do colégio. Todos eles, de estados e trajetórias diferentes, disseram que, na verdade, nem sabiam de quem eu estava falando. Meses atrás, lendo Parque industrial na faculdade, uma amiga lembrou de já ter visto o nome da autora, Patrícia Galvão, em algo relacionado a feminismo. Outras amigas, essas já veteranas do curso de letras, me disseram: até onde elas chegaram, nada também. É geralmente assim quando falo de Pagu; tem quem conheça por motivos muito específicos (ter uma ideologia próxima ou conhecer bem o modernismo brasileiro), tem quem se lembre vagamente do nome mas nada muito aprofundado, tem quem faça a pergunta: mas quem era ela mesmo?

Pagu, Mara Lobo, Ariel e Solange Sohl são alguns dos nomes que podemos usar para chamar Patrícia Galvão — escritora que vai da prosa à poesia, tradutora de grandes nomes, jornalista, crítica de arte, militante comunista e uma figura cheia de talentos que acabou esvaecendo em meio a seus pares masculinos.

Quando se fala de Pagu, é mais comum que se use o epíteto “musa do modernismo” do que qualquer um dos seus talentos enquanto artista. O que perdurou não foi sua sua obra, mas a sua imagem. Pagu é, desde o principal apelido, essa figura da mulher que carrega sensualidade, mistérios e encantos. É o contraponto feminino aos escritores e artistas homens que fizeram história no início do século XX, é uma das mulheres de Oswald de Andrade, e nada mais.

Foi justamente pelo Oswald que conheci Patrícia; depois de ter me apaixonado pelas aulas de modernismo no Ensino Médio, fui atrás de um livro sobre o escritor e ali, ao longo de algumas páginas, conheci Pagu pela primeira vez. Só a estudei de verdade, porém, meses depois, no livro do Augusto de Campos, Pagu: vida-obra, um dos únicos responsáveis por fazer o nome da escritora resistir, meio cambaleante, algumas décadas depois de sua morte.

A biografia de Patrícia, aliás, é incrível. Aos 23 anos publica Parque industrial, um “romance proletário” sobre um grupo de trabalhadores de São Paulo durante a industrialização, depois de ter sido presa por motivos políticos pela primeira de diversas vezes. Seu já mencionado envolvimento com Oswald foi literariamente muito frutífero, juntos escreveram diários e fizeram parte de jornais. Patrícia Galvão é importante inclusive além das artes, já que foi uma das primeiras pessoas a introduzir a soja no Brasil.

E quantas pessoas a conhecem ou pelo menos ouviram falar no seu nome? Pouquíssimas. Porque toda sua produção foi praticamente ignorada, e o que restou foi um fantasma do que Pagu realmente foi. Outras hipóteses podem justificar o apagamento da autora, como a desconexão com temas literários da época. Mas o que fica de mais forte é que seu primeiro romance é também um panfleto político. Por ser contra-hegemônica ao escrachar a posição subalterna da mulher trabalhadora e ser firme nas convicções política, Pagu é esquecida. Seus desejos e seus ideais foram a borracha da sua própria história. Não digo isso num sentido de culpabilizá-la pelo próprio esquecimento, e sim para mostrar que ter sido ela mesma a impediu de fazer parte do cânone.

A questão aqui não é se a literatura feita por Patrícia Galvão é melhor ou pior que a dos outros modernistas, ou mesmo que a das mulheres que se destacaram nas décadas seguintes. O problema é: sua importância para o Modernismo é inegável, as coisas não teriam sido as mesmas sem ela ali, porém, ainda assim, sua imagem é esquecida. Embora não seja totalmente deletada da história, dificilmente se dá livros inteiro a ela — dá-se um capítulo, alguns parágrafos e, no fim, uma menção basta. Pouco a pouco, à medida em que nos afastamos dos seus anos de vida, a imagem de Pagu fica cada vez mais fraca. Hoje ela é a costela do Oswald, como será amanhã?

É isso que o cânone faz. Dá a glória e reconhece os nomes que representam uma época e que deverão ser lidos no futuro, deliberadamente esquecendo outros. Patrícia Galvão é apenas uma das deixadas para trás, e que escolhi como foco por ter me identificado com seu trabalho. E, além dela, há tantos outros que poderiam ser os autores da obra que realmente faria diferença na minha vida se eu ao menos os conhecesse.

Pagu, em especial, tem a vantagem de ter vivido no século XX. Será que, se nascida cem anos antes, saberíamos alguma coisa sobre ela? Quem vive, quem morre, quem tem sua história contada? Sobre isso, nós, “apenas” leitores, não temos nenhum controle.

 

Obs.: Para não incorrer no mesmo problema de valorizar apenas o trabalho crítico masculino, a Thelma Guedes publicou um livro sobre Parque industrial e a Lúcia Maria Teixeira Furlani tem um trabalho excelente de conservação da memória de Pagu. Vale acrescentar que a Bruna Kalil Othero, também colaboradora da Pólen, já listou Pagu e outras escritoras brasileiras esquecidas.

 

 

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Sobre Paulo V. Santana

Paulo tem 19 anos, cursa Letras na USP e… o resto ele ainda está descobrindo. Enquanto isso, ele canta High School Musical nos karaokês da vida, lê uns livros, reclama da vida na sua newsletter e perde horas e mais horas assistindo coisas no youtube. No Twitter: @paulovsantana

  • Isabela Oliveira Boitar

    Que gostoso ler esse texto justamente agora q tolendo o livro do Augusto de Campos ❤