Quem tem medo de Virginia Woolf?


Texto: Analu Bussular

Pra falar a verdade, eu não tinha. Costumo ter medo de clássicos, mas confesso que nunca tinha pensado tão a fundo em Virginia. Minha história com ela começou, ainda que platonicamente, há 1 ano quando, fuçando na estante da minha amiga encontrei seu exemplar de “A Viagem”. Fiquei dias cismada com ele, não sei direito o porquê até hoje. Brinquei tanto que iria roubá-lo dela que ela foi mais rápida e me deu uma edição só pra mim de presente no amigo secreto, pouco tempo depois. Combinamos que leríamos juntas e, bem, o tempo foi passando, nossas agendas literárias não se coincidiam, até que, mês passado, deu certo. E agora eu vim falar do assunto porque, embora eu tenha lido apenas 1 livro da Virginia, já entendi que seu nome do meio é Intensidade.

Pois é. Intensidade. Curioso que eu decida assim que intensidade seja o nome do meio de uma autora cujo próprio prefacista deixa claro que não tem “nada demais para nos contar”. Ele não diz isso de forma pejorativa, só quer avisar ao leitor, de antemão, que não se deve esperar grandes momentos, clímax e/ou reviravoltas. E é assim mesmo. Se a gente pensar friamente, nada de grandioso acontece no texto de Virginia – o que não quer, nem de longe, dizer que não haja intensidade em sua versão mais pura.

A verdade é que nunca se está sozinho e nunca se está em companhia […] Significando? Ah, alguma coisa sobre bolhas… auras… como é que se chamam? Você não pode ver a minha bolha; eu não posso ver a sua; tudo o que vemos um do outro é uma partícula, como a mecha no centro daquela chama. A chama anda conosco por toda parte; ela não e exatamente nós, mas o que sentimos; o mundo é breve, ou as pessoas principalmente; toda sorte de pessoas.

“A Viagem” é um livro de pouco mais de 500 páginas lotado de diálogos e introspecções. A autora queria nos mostrar a alma dos personagens e não estava nem aí se isso pareceria tedioso. Confesso que no início parecia, mas logo que peguei o ritmo ficou impressionante perceber como ela tinha domínio daquilo que se propunha a fazer. Sua intensidade está nisso: em jogar na cara do leitor, do começo ao fim, o que existe de melhor, de pior, de comum ou de extraordinário em cada uma de suas personas – e tudo isso mudando de foco o tempo todo sem preliminar nenhuma. Estávamos falando de Rachel e de repente estamos na Evelyn e meu Deus já é a Helen agora? Se piscarmos rapidamente ou nos distraírmos pensando na morte da bezerra enquanto lemos um paragrafinho onde possivelmente nada vai acontecer.. bem.. nos perdemos.

A história de Rachel, que funciona meio que como a protagonista do livro, me lembrou demais da Esther de Sylvia Plath: uma menina nova cheia de questionamentos e questões que acabam por consumi-la de uma forma que ela não achava possível. A diferença é que Esther vive já um punhado de anos depois, onde a sociedade estava um pouco mais à frente e ela podia ser uma mulher com maiores conquistas, como estar na universidade. A sociedade retratada por Virginia estava bem atrás disso – mas ela não, não se enganem. Ri sozinha em tantos momentos, com o livro na mão, pensando na coragem que ela teve de registrar seus pensamentos inovadores e colocar em um romance antigo tantos diálogos irônicos retratando o machismo e a vontade das mulheres de serem mais. Virginia sambou tanto na cara tirando farinha com típicas conversas de “homem-branco” que não da para não terminar de ler querendo abraçar essa mulher e comer pipoca com ela debatendo o ridículo da sociedade.

Como eu disse, A Viagem foi meu primeiro livro dela, por enquanto um filho único. Nunca li “Um teto todo seu”, mas sei do que se trata e sei que ela deixou bem claro por ali, nessa obra de não ficção, suas convicções a respeito do que era/é ser mulher – algo que parece antigo, à primeira vista, mas continua extremamente atual, batendo na nossa porta todos os dias. Aqui, por exemplo, segue a fala de uma personagem comentando sobre ter sido agarrada e beijada a força por um homem que havia acabado de rejeitar:

– Eles não têm dignidade, não têm coragem, não tem nada senão suas paixões bestiais e sua força bruta! Alguma mulher teria se portado daquele jeito se um homem tivesse dito que não a quer? Nós temos muita dignidade. Somos muito melhores que eles.

Só consigo pensar, por hora, que QUE BOM que ela teve um teto dela e conseguiu escandalizar um bocado de gente na sua época e consegue socar nossos estômagos até hoje, com tanta classe, sinceridade e, repito, intensidade.

Agora, que já li Virginia Woolf, eu sei bem quem tem que ter medo dela. Quem tem medo de quem diz o que pensa na lata, sem se arregar diante de uma multidão que pode tentar calá-lo. Leiam Virgina Woolf.

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.