Quem conta um conto…


No que você pensa quando falam sobre lendas? Para mim, o assunto traz cenas da infância. Foi na escola que aprendi sobre as lendas do folclore brasileiro, onde conheci a Caipora, o Saci e o Curupira. Minha mãe me contava a história da Rapunzel antes de dormir, e minha avó adorava narrar contos populares brasileiros para os netos, como as diversas malandragens que o macaco aprontava ou outras histórias com animais falantes.

Em comum, essas três lembranças têm o fato de envolverem histórias de tradição oral que foram passadas para mim pela oralidade também. Depois que aprendi a ler, passei a preferir desvendar livros sozinha, e a contação de histórias perdeu a importância que tinha até então. Mas, embora eu de fato não ouça mais quase ninguém me contando uma narrativa fictícia, todas elas são contadas por alguém. Esse é o papel do narrador, que pode aparecer mais claramente no texto ou não, pode ser um personagem, onisciente ou intruso.

Conversando com o tema de lendas, optei por falar de três livros da nossa época que recriam ou brincam com os gêneros tradicionais, inclusive na narração.

“Histórias da pré-história”, do italiano Alberto Moravia, se utiliza dos elementos tradicionais das fábulas, como os animais falantes, para criar as suas próprias versões, mais divertidas e com morais menos explícitas. Embora as fábulas tradicionais não tenham um narrador tão presente, quem conta as tais histórias da pré-história está sempre conversando com o leitor e explicando as regras do mundo de bilhões de anos atrás, em que Paih-eh-ther-noh manda e desmanda no que quiser, os animais têm nomes divididos em duas sílabas, como Croco Dilo, e Can Gurus querem usar calções. Eu li o livro há muito tempo e não me lembro de muita coisa, mas ele me passa uma sensação positiva, um gosto de infância, e, além disso, tem ilustrações bonitinhas.

“Um barril de risadas, um vale de lágrimas”, do Jules Feiffer, eu li recentemente. Também é um livro infantojuvenil, mas a sua brincadeira é com os elementos de contos de fadas. Há príncipes e princesas encantados, magos e a jornada do herói, porém o que destaca o livro é o narrador: um narrador intruso, que apresenta personagens e já revela o que vai acontecer com eles, que conversa constantemente com os leitores e que, ao fingir que não está no poder da própria história, revela justamente o controle que tem sobre ela.

Outros livros que também deixam claro a importância da narração são os da série Ever After High, que tem volumes da Shannon Hale, autora bem conhecida por criar outras versões de contos de fadas, e da Suzanne Selfors. As histórias são baseadas nas bonecas da Mattel, primas da série Monster High, e narram as aventuras dos filhos e das filhas dos personagens famosos de contos de fadas e de outros contos populares. Além de terem um conteúdo interessante, que reflete sobre a independência e sobre até que ponto queremos seguir o que foi traçado para nós, os livros também brincam muito com a linguagem. Maddie Hatter, a filha do Chapeleiro Maluco, e outros personagens do País das Maravilhas conseguem ouvir o Narrador, e conversam com ele, perguntando sobre a sua tarefa e o distraindo no processo. Em um livro, elas chegam até a ter que substituí-lo, porque ele fica maluco. Com isso, as autoras reafirmam a importância do Narrador nos contos de fadas. O que seria deles sem alguém para dizer “Era um vez…” e terminar com “e eles viveram felizes para sempre?”.

Assim, esses três livros mostram a importância da tradição oral e como ela afeta o modo que contamos histórias. Só existem narradores na literatura porque existiram e existem narradores de carne e osso dispostos a compartilhar suas histórias, mitos e lendas com outras pessoas.

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Sobre Marília Barros

Marília é paulistana e estuda Letras. Gosta de bibliotecas, de animações e de coelhos. Não é a preguiça da foto, mas bem que gostaria de ser.