Quebra de vínculo


Texto: Odhara C. // Arte: Gabriela Schirmer

“Quando você começou a fumar, Rui?”, soltei a fumaça para cima, tentando encarar o sol do Rio de Janeiro. Meu chefe me olhou meio de canto de olho, desconfiado por uma pergunta que podia ser considerada “pessoal”. Não era o meu estilo. Nem o dele.

“Dezoito. Todos os meus amigos fumavam, fui na onda. Agora eles estão gordos, casados, ou morrendo do coração. Eu tô tudo isso, é claro”. Ele riu com o seu rerê típico que irritava tanta gente. Não a mim. Eu gostava do meu chefe. Coisa rara. “E você, Gabi?”

“Treze.”

“Treze? Você já é uma fumante veterana, então, se tá com 25 agora. Nunca imaginei que você era do tipo menina rebelde.”

“Não era. Era ansiosa. E gorda. O alvo predileto da turma por ser gorda. O que me deixava mais ansiosa. E mais gorda. Eu comia pra afogar a ansiedade. Até que eu decidi afogar a ansiedade no cigarro. Pelo menos emagreci.” Dei de ombros. “Mas hoje é o último dia”.

“E por quê?”

“Eu sou dependente demais do cigarro”.

“Rerê. Querida. Todos nós somos. Cigarro é uma droga, sabia? Essas coisas viciam, tá no pacotinho, no aviso do Ministério da Saúde. Não tá”?

* * *

“Tudo bem, então vamos brincar de verdade”, Taís acendeu a luz do quarto e queimou os meus olhos.

“Meus olhos, Taís! São três horas da manhã”, reclamei, cobrindo o rosto com um travesseiro.

“E daí? Você tem 21 anos, é jovem. Tem que viver a vida, tem que viver a madrugada!”

“Tá, que seja. Que tipo de brincadeira é essa?”

“O tipo de brincadeira em que eu pergunto e você responde, oras”.

“Nossa. Tudo bem, então. O que você quer saber?” Me estiquei para pegar o cigarro do bolso da calça jogado na chão. Não deu tempo de achar o isqueiro; Taís já tinha jogado meu maço para o outro lado do quarto.

“Será que você não pode largar essa porra nem quando tá na cama com uma mina super legal da sua aula de estatística, Gabi?”

“Desculpa. Eu sou viciada”.

“Quando você percebeu que era sapata?”

“Odeio essa palavra”

“Foda-se, eu também. Me responde”

“Não tá muito cedo?”

“São três horas da manhã, Gabriela, pelo amor de Deus”

“Você me entendeu”

“Responde”

“Tá. Eu tinha 16 anos”, respondi, esfregando os olhos. Taís tinha um jeito direto demais que acabava me incomodando às vezes. Essa era uma delas. Mas era três da manhã e eu não ia discutir.

“Como foi?”

“Eu me apaixonei. Helena. A única garota da sala que era simpática comigo.”

“Típico. Correspondido?”

“Claro que não”, e a lembrança me deu mais um soco no estômago.

“Típico. Quando contou pros seus pais?”

“O quê?”

“Que era lésbica”

“Eu não contei”

“Como assim, Gabriela?”

“Eu não contei, porra. Por que você acha que eu escolhi uma faculdade tão longe de Porto Alegre?” Comecei a me irritar. Levantei de cama e coloquei a camiseta. Uma pessoa normal entenderia que a deixa.

Mas esse, claro, não era o caso da Taís.

“E por que não?”

“Sei lá. Família religiosa. Minha vó materna é católica fervorosa, meu pai se tornou pastor oficialmente ano passado. Já viu. Muito compreensivos. Desde que não sob o teto deles.”

“Que merda”

“E você?”

“Eu o quê?”

“Quando virou sapata?”

* * *

“Tudo bem, Gabriela, o que você quer?” Consegui ouvir a frustração na voz da Andressa.

Ela nunca gostara muito de mim, mesmo.

“Oi, Dessa. Você tá bem?”

“Pode corta o papo furado. A Taís não quer falar com você.”

“Eu sei… Eu não tô virando uma stalker, Dessa, juro.”

“Não parece”.

“Eu juro. Só quero saber notícias dela”.

“Ela tá em Boston. Fazendo mestrado. Tentando se recuperar de todas as cagadas que você fez com ela. E você vai deixar a minha amiga em paz, tá me ouvindo? Ou quem sabe eu não faço o que você nunca teve pra fazer e conto pra famíliazinha religiosa que a filhinha querida deles gosta de buceta”.

“Caralho, Andressa. Para com isso.”

“Se você quer que eu pare, para de me ligar. Para de me atormentar. E se você quer saber o que eu acho, você tem que se foder. Você passou três anos namorando com a minha melhor amiga e nunca passou um feriado com ela. Você escondeu a Taís de todas as formas possíveis. Graças a Deus ela se tocou e te deu um fora.”

“Você não entende a situação…”

“Entendo, entendo sim. Você não tem peito pra enfrentar porra nenhuma, nunca teve. Fica aí fumando um maço atrás do outro em vez de se pronunciar. Em vez de assumir que você amava a Taís, caralho. Isso se amasse, mesmo”.

“A Taís nunca duvidou que eu a amasse”, murmurei. Já estava mais do que arrependida de ter finalmente conseguido falar com a Andressa.

“Será que não, Gabriela?” Ela perguntou e bateu o telefone na minha cara.

* * *

“Sei lá. Mas passou da hora de eu quebrar esse vínculo. Eu preciso começar a enfrentar as coisas, né?” Respondi, por fim, ao meu chefe. Ele trocou o pé de apoio, desconfortável. A conversa estava avançando para um terreno perigoso demais para pessoas fechadas, como nós dois.

“E você não consegue enfrentar as coisas com um cigarro pendurado na boca, é isso? Rerê”.

“O cigarro é simbólico, Rui. Poxa. Eu comecei a fumar pra fugir dos meus problemas, né? É tudo simbólico, porra”.

“Eu fiz engenharia civil, você acha que eu ligo pra simbologia?”

“É. Foi tolice a minha.”

“Bom, mas se você vai parar de fumar hoje, podia me dar seu maço, eim.” Tirei o pacotinho pela metade do bolso e joguei no peito de Rui. Ouvi meu chefe fungando atrás de mim enquanto eu voltava para o escritório.

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Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco. Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).