Que nossos corações estejam abertos: “Exames de empatia”, Leslie Jamison


Texto: Fernanda Menegotto // Arte: Gabriela Amorim

 

empatia 
em.pa.ti.a
sf (gr empátheiaPsicol Projeção imaginária ou mental de um estado subjetivo, quer afetivo, quer conato ou cognitivo, nos elementos de uma obra de arte ou de um objeto natural, de modo que estes parecem imbuídos dele. Na psicanálise, estado de espírito no qual uma pessoa se identifica com outra, presumindo sentir o que esta está sentindo.

(do Michaelis)

 

Tive sorte de nascer cercada de privilégios num mundo que sabe ser tão injusto, desigual e por vezes cruel. Nunca passei fome, nunca estive seriamente doente, quando tive que encarar a doença em pessoas próximas não foi nem de longe tão ruim quanto poderia ter sido (embora nunca seja fácil), pude ser criança, brincar e frequentar a escola sem preocupações, hoje posso frequentar a universidade, nunca estive desamparada, sempre tive quem me desse força. Desse modo, a única coisa que permite que eu entenda um pouquinho que seja muitas das dores do mundo é a empatia.

 

(em.pa.ti. a)

sf.

3. Nas inter-relações pessoais e sociais, capacidade de alguém de se ver como os outros o veem, de ver outrem como os outros o veem e também como ele mesmo se vê.

(do Aulete)

 

medium_1497O livro de Leslie Jamison, Exames de empatia, é uma coletânea de ensaios que lidam direta ou indiretamente com essa projeção imaginária, estado de espírito ou capacidade.  Ela chama o próprio estilo de escrita de “escrita confessional” no posfácio da obra, e o título se aplica muito. Alguns textos da coletânea são mais diretamente sobre a experiência pessoal da autora ( “Exames de empatia”, “Morfologia da dor”), enquanto a maior parte deles é sobre outros. Sobre pessoas que dizem sofrer de uma doença não reconhecida, sobre corredores, sobre um presidiário, sobre os objetos de uma série de documentários, sobre as mulheres. Mas o tom de todos eles é sempre pessoal. A voz de Jamison está sempre presente, é sempre identificável e ela nunca tenta apagar-se dentro dos textos – eles são tão sobre ela quanto sobre o outro. E, para mim, num livro sobre empatia, isso fez todo o sentido.

Empatia é sobre o outro, mas também é sobre nós (a autora inclusive se questiona, ao longo do livro, se às vezes não acabamos tentando transformar a dor do outro em algo nosso). Ela existe essencialmente entre uma pessoa e outra – ou outras. Não existe empatia sem alguém que esteja observando de fora. E é isso que Jamison faz em grande parte do livro. O ensaio que abre a coletânea é talvez o mais pessoal e confessional entre eles. A autora se utiliza de sua experiência no trabalho de “ator médico” (representar, após a leitura de uma ficha detalhada com sintomas físicos, psicológicos, comportamento, histórico, um paciente para que um paciente de medicina tente acertar o diagnóstico) para falar sobre dois procedimentos pelos quais passou em um curto espaço de tempo: um aborto e uma cirurgia de coração. Ela reflete sobre o que esperava ouvir e sentir das pessoas ao seu redor, o que de fato recebeu e sentiu, e as muitas maneiras como a empatia se manifesta. Seu ensaio mais pessoal é o gatilho para as reflexões sobre empatia e, de certa forma, um apelo à empatia do próprio leitor.

Senti que diversos ensaios são sobre uma espécie de situação-limite, uma situação distante, que talvez até mesmo soe um tanto esdrúxula, uma situação com a qual nem Jamison nem a maioria de nós conseguiríamos nos identificar muito profundamente. Talvez meu ensaio favorito na coletânea seja aquele que me deixou mais desconfortável, sem saber se realmente queria continuar lendo aquilo. “A isca do diabo” relata a ida da autora a uma conferência de pessoas que se autodiagnosticaram como sofrendo de Morgellons, uma doença não reconhecida pelos médicos, em que o paciente acredita ter algum tipo de ser construindo algum tipo de estrutura com “fibras” debaixo de sua pele. Lendo o ensaio, senti uma mistura de incredulidade e de medo de começar a ver coisas sob minha pele, exatamente como a autora. Não queríamos sentir incredulidade, porque aquelas pessoas claramente sofriam. Mas, com o medo de começar a ver coisas, ao mesmo tempo acreditávamos e desacreditávamos completamente deles. Ler foi desagradável, como às vezes é desagradável encarar a realidade alheia. Às vezes a ignorância é uma bênção, e um dos efeitos colaterais de “ver como os outros veem” é que isso nos proporciona uma nova consciência da qual é difícil retornar.

Jamison traz uma citação de Milan Kundera que diz mais ou menos o seguinte: nossas lágrimas caem por dois motivos. Porque nos emocionamos com o outro e nos emocionamos com o fato de nos emocionarmos. E talvez a empatia seja mesmo também sobre nós. É bom saber que somos sensíveis, capazes de sentir por alguém que vive algo que nos é estranho, que talvez isso nos torne capazes de estender a mão ao outro. Porque nos sentimos, no fim das contas, boas pessoas. E, no fim das contas, talvez isso seja altruísta e egoísta, contraditoriamente ao mesmo tempo. Mas, se nos sentimos bem com nossa própria vontade e ainda assim estendemos a mão, mantemos o coração aberto, procuramos ver o que o outro vê, nossa empatia ainda precisa prevalecer.

É fácil ser cético e olhar de fora, deslegitimar o que não acreditamos ser puro altruísmo, pura bondade – e isso nos deixa exatamente no mesmo lugar onde estávamos antes. Em “A grandiosa teoria unificada da dor feminina”, Jamison fala sobre o histórico sofrimento feminino, tão presente nas representações ficcionais, com milhares de mulheres com fins trágicos, e sobre como tentamos nos distanciar desse clichê, desse clichê de dor e sofrimento, fugir do estereótipo, criticar o estereótipo. Mas ela diz: “acho que as acusações de serem clichê e representação oferecem álibis demais a nosso corações fechados”. Talvez o ceticismo e a descrença acabem servindo exatamente como álibis para nossos corações fechados. Jamison faz o contrário, abre o seu coração para investigar todos os temas dos quais trata sua coletânea – por vezes tão distantes de sua realidade, deixando transparecer o quanto o outro é realmente o outro – e o livro é um convite para que façamos o mesmo.

Original: The Empathy Exams
Autor: Leslie Jamison
Editora: Globo Livros

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.