Quatro e quarenta e oito


Texto: Victoria Tuler

Eu quero ir embora daqui
Embora de dentro de mim
Morar num novo corpo jovem
Que não se sinta mais assim

 

Vou me tornar a alma de uma santa
Com coração de uma mulher adúltera
Cabeça de dona de casa
No corpo de uma prostituta

 

Vou entrar no ventre de uma virgem
Nascer ao pôr-do-sol no Arpoador
Morrer aos trinta e poucos anos
Com título de salvador

 

Serei o canto de um bem-te-vi
Ao som das cordas de um violão
Com o fervor de uma reza brava
E o poder de uma maldição

 

Eu quero ir embora daqui
Embora de dentro de mim
Morar num novo corpo jovem
Que não se sinta mais assim

 

Eu quero me amar de novo
E quero namorar comigo
Me perdoar por ser eu
Como faria meu melhor amigo

 

Quero profanar a minha honra
E manchar minha reputação
Quero botar fogo em quem eu fui
Espalhar minhas cinzas no chão

 

Quero me reinventar
Como quem regrava uma canção
Ser um filme bem melhor que o livro
Um exemplo de adaptação

 

Eu quero ir embora daqui
Embora de dentro de mim
Morar num novo corpo jovem
Que não se sinta mais assim

 

Preciso olhar as minhas mãos
Para me lembrar por que não tenho as tuas
E com elas afagar meu ego
Colecionando deusas gregas nuas

 

Preciso de uma nova cura
Garrafa, seringa ou remédio
E de um efeito colateral
Para me matar ou me tirar do tédio

 

Necessidade”, palavra incômoda
Porque denota um quê de fraqueza
Mas quão forte eu preciso ser
Para sobreviver a essa tristeza?

 

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