“Qualquer Clichê de Amor”, org. Nathália Campos


Texto: Debora Theobald

Ou: Quanto mais clichê (s), melhor.

Você certamente já ouviu a palavra clichê. E, provavelmente, ao ler isso deve ter tido um dessas reações: seus olhos brilharam e seu coração se aqueceu ao imaginar todos os clichês possíveis que você tem conhecimento. Ou, claro, a reação provavelmente mais contabilizada: “Ugh, clichês? Isso é sinônimo de história ruim!”.

Será que é mesmo? De acordo com a Wikipédia, clichê “se tornou sinônimo de tudo o que já foi objeto de repetição excessiva e perdeu a originalidade”. Isso, para muitos, significa que uma história que utiliza clichês, estereótipos e tropes (me refiro as não nocivas, nesse caso) como recurso acaba por perder qualidade, cair na mesmice e, no final, não entregar um produto que atende as expectativas. O termo clichê, geralmente, é associado a um defeito. “O novo filme de super-herói do momento usa um roteiro clichê, com desenvolvimento raso dos personagens”, diz uma parte de uma crítica, certamente encontrada em quase todos os sites que falem sobre cultura cinéfila.

Mas me pergunto: O que há de tão errado em clichês? O que faz as pessoas revirarem tantos os olhos para eles? Eu, como vocês bem já devem ter percebido, sou a pessoa que tem a primeira reação listada neste texto quando me deparo com a palavra clichê. Existe algo que gera um conforto e um sentimento de serenidade em saber, sim, o que vai acontecer no final do filme que estou vendo, ou do livro que estou devorando. Afinal, nesse caso, o que importa não é o que nos reserva no final, mas os caminhos (a jornada!!!) que levam os personagens até seu destino.

Particularmente, creio que um bom romance precisa possuir essas tramas extremamente repetidas e “sem originalidade”, como gostam de dizer por aí. Usar e abusar (na medida certa) de clichês, claramente, é a fórmula do sucesso para uma boa comédia romântica ou um romance “água com açúcar”.  Um casal, tropeçando nos percalços do destino, enfrentando as dificuldades que é o amor, ou admitir o sentimento, com momentos recheados de angústia, delicadeza e fofura, tudo amarrado com um final feliz? Igual a perfeição.

Dito isso, não é surpresa nenhuma que o livro Qualquer Clichê de Amor, lançado de forma independente na Amazon Brasil em outubro deste ano, tenha se tornada uma das leituras mais irresistíveis, cheia de sentimentos e marcantes do ano para mim. Organizado por uma amante de romances e clichês, Nathália Campos, o livro reúne uma série de contos com autoras que compartilham a paixão por histórias de amor bem construídas, que dão frio na barriga e nos deixam suspirando de felicidade.

São 10 contos que se propõem a fazer exatamente isso e que, cada um a sua maneira, entregam o melhor produto possível, tornando essa iniciativa mais legal ainda. Com autoras estreantes e com outras já com trabalhos publicados na Amazon (também de forma independente), a coletânea mostra a força dos escritores nacionais e como a valorização do produto editorial brasileiro deveria estar mais inserida em nossas atitudes diárias. Vivemos em um cenário no qual autores lutam para sobreviver e ganhar espaço e livros como esse mostram a força e qualidade dos escritores nacionais, deixando claro que eles podem, sim, participar de um mercado competitivo, basta que a chance lhes seja dada.

Cada autoria imprime sua voz e personalidade em seus contos, o que torna cada história única, especial e deliciosa de ler. Mesmo que alguns clichês se repitam nas tramas, como enemies to lovers e fake dating, por exemplo, cada conto tem sua particularidade e apresenta uma história distinta e envolvente, nos fazendo refletir sobre a construção do amor, de sentimentos controversos e aceitar que talvez, sim, nos merecemos que alguém nos ame e aceite como somos, mesmo que ainda não tenhamos alcançado esse sentimento por nós mesmos.

E se cada conto possui características marcantes, que distinguem muito bem cada história na cabeça do leitor, os personagens tem um papel importante nesse jogo. As protagonistas podem compartilhar diversas particularidades entre si, mas o número de facetas que cada uma apresenta torna possível que um grande número de leitores se identifique com suas qualidades, atitudes, ações e pensamentos. São meninas que estão buscando a realização de um sonho – como no conto Dear True Love -, que precisam encontrar a coragem para assumir riscos, especialmente na vida amorosa – como a personagem de Distraídas nas Estrelas: a paixão contra-ataca – ou que precisam refletir sobre sua carreira e admitir que seu sonho diverge do que lhe foi pintado durante toda sua vida – tema abordado no conto Summer Nights. Tudo isso serve de pano de fundo para o assunto principal: o desenvolvimento de suas vidas românticas e a apresentação de personagens que as ajudarão, como parceiros (as), em suas jornadas.

Mas o ponto principal que diferencia este livro dos tantos outros no mercado é a mensagem positiva, cheia de representatividade, empoderamento, amizade entre mulheres, doses de feminismo e de discurso positivo sobre amor próprio. Qualquer Clichê de Amor quebra o padrão da maioria dos livros atuais, que preferem por vezes ignorar a diversidade racial e sexual na qual estamos inseridos, e se utilizam não apenas de clichês para a construção de histórias, mas mantém também estereótipos ultrapassados na construção de personagens. Aqui, a gordofobia é tratada de maneira nua e crua, mostrando o que pessoas gordas precisam passar diariamente em uma sociedade que preza por um corpo magro e “esbelto”. Certamente o discurso de aceitação, empoderamento e body positive servirá de inspiração e exemplo para as garotas que, diariamente, precisam ouvir que seus corpos não são bonitos e socialmente aceitos.

A representatividade fica por conta da apresentação de personagens bissexuais, gays e demissexuais, mostrando que é possível escrever histórias envolventes, complexas e, claro, sem queerbaiting, com personagens LGBT+. O conto Senti Saudades, por exemplo, apresenta o envolvimento romântico entre duas garotas, retratando o romance de forma singela, delicada e sincera. Além disso, os personagens LGBT também são escritos de forma despretensiosa, sendo introduzidos de forma fluída e natural na trama, sem o tom forçado de “cumprir a cota de personagens não-heteros”. Se eles estão ali é porque deveriam estar e porque suas histórias também são válidas de serem contadas.

No final, Qualquer Clichê de Amor é um livro que deixa o coração aquecido, proporciona um bom passatempo, nos mostra uma coisa ou duas sobre amor e sobre como clichês, quando bem utilizados e aproveitados, podem subverter a estrutura que predomina comumentemente em comédias românticas e histórias “água com açúcar”, mesmo que não revolucione o estilo no geral. Mas mais do que isso, a coletânea de contos é um sopro de ar fresco no gênero, mostrando que é possível criar histórias representativas, de qualidade e inovadoras mescladas com os bons e velhos clichês.

 

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