Problematizando Caitlin Moran


Texto: Lidyanne Aquino

 

Quando me pego frustrada com a profissão, penso: quem dera ser uma jornalista como Caitlin Moran. A vida continuaria sendo difícil, mas talvez fosse mais empolgante. Ou não. São questões! Fato é que essa mulher, além de jornalista, publicou dois livros e é uma figura muito influente na internet. Ela fala de tudo, de uma forma muito gostosa de se ler inclusive, e entende como ninguém o que é ser mulher e todas as “implicações” envolvidas. Além de vários textos de sua coluna no The Times, as duas publicações são sobre isso.

De uma delas vocês já ouviram falar – Do que é feita uma garota? (que a Lore resenhou). O outro é Como ser mulher, uma autobiografia. Claro que Do que é feita uma garota? também é, mas mascarado de ficção, dado que a protagonista, Johanna, parece uma versão revisitada da própria Caitlin. Sabe quando a gente lê e fica com a sesação de familiaridade? Como se a pessoa entendesse demais sobre o que escreve? Por sinal, seu texto nos envolve muito mais. Mesmo inspirada em sua experiência pessoal, ela consegue deixar o discurso mais rico e bem moldado, sua Johanna sustenta muito bem o papel da menina cheia de inseguranças que aos poucos se reafirma como mulher. Aquele processo clássico da frase de Simone de Beauvoir, “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Caitlin, por sua vez, erra a mão vez ou outra. Tanto em Como ser mulher quanto em certas atitudes online.

Antes de falar sobre as controvérsias, vale falar um pouco sobre as origens desta mulher. Caitlin Moran nasceu em Brighton, em 1975, mas cresceu em Wolverhampton, na Inglaterra. Detalhe – em uma casa com mais oito irmãos. Ela era a mais velha, imaginem bem a situação agradável. Os pais dela também viviam em condições difíceis. Com 18 anos ela largou tudo, foi embora para Londres, e passou a trabalhar como jornalista na publicação Melody Maker. Nos livros fica muito evidente sua paixão pela música e o mais bacana disso tudo é a visão que ela tem da música como uma forma de se afirmar como mulher.

Aqui vale lembrar o momento em que ela explica a importância da música Teenage Whore, do Hole:

“De certa forma que parece bastante injusta, a única maneira de me qualificar nisso — sexo –, que é vista como socialmente importante e desejável, é sendo uma baita vadia — o que não é visto como socialmente importante e desejável. (…) Num exercício para desconstruir minha vergonha, repito frequentemente a frase ‘baita vadia’ para mim mesma, de forma que ela deixe de ser tão nociva”

Ela também se lembra da presença da mulher na literatura, e fala sobre isso em Como ser mulher:

“Não posso deixar de notar que a maior parte das mulheres que fazem frente aos homens parece ser infeliz e ter certa propensão a morrer jovem. A opinião popular preguiçosa diz que isso acontece porque as mulheres não têm condições de competir nos mesmos termos que os homens. Elas simplesmente não dão conta do jogo dos homens adultos. E precisam parar de tentar.(…) Mas, quando olho para a destruição delas — desespero, aversão a si própria, baixa autoestima, frustração e repetidas faltas de oportunidade, de espaço, de compreensão, de apoio ou de contexto —, me parece que estão todas morrendo da mesma coisa: de estar encalhada no século errado.”

A autora fala de uma forma muito aberta sobre o universo feminino, e essa naturalidade é motivadora. Ela tira aquele estigma da masturbação, menstruação, depilação, primeira vez, conseguir gozar, querer conquistar um cargo superior no mercado de trabalho. Ela prega a necessidade de lutar contra todos os preconceitos. Nada de sentir “nojinho”, o negócio de Caitlin é bater na tecla do “ouça e descubra o seu corpo”. E o mais importante: o respeite. É legal encontrar isso em uma autora – nada de rodeios para falar sobre coisas que são naturais. Chega de querer colocar empecilho em coisas corriqueiras.

Pois onde entra a problematização? Se você fizer uma pesquisa mais pesada, vai saber que Caitlin já bloqueou meninas no twitter quando fizeram algum comentário negativo sobre seus textos/livros. E nessa de ser moderninha demais, acaba derrapando. Apesar da infância cheia de dificuldades, Caitlin cresceu, superou, mas… parece meio cega com mulheres diferentes dela. Inclusive, em Como ser mulher, ela diz o tempo inteiro que precisamos amar o nosso corpo como ele é, mas poucas páginas depois faz declarações sobre como o “nível de aceitação” melhorou depois de ter emagrecido. Isso de vender os próprios textos como “manifesto feminista” é um tanto arriscado, talvez seja o caso de pegar mais leve. Ainda mais agora que ela lançou um livro chamado Manifesto. É um apanhado dos melhores textos publicados em sua coluna, mas mesmo assim. Seus pequenos deslizes não são desesperadores, claro, é só uma necessidade de pensar um pouco fora da caixinha e dar espaço para outras “manas”. Algo mais na linha desta carta aberta que ela escreveu para meninas que conheceu no lançamento de seu livro. É um trecho de Manifesto, então podemos ter esperanças!

Com isso, o que concluimos? A forma que ela encontrou de chegar ao feminismo e tentar chamar atenção do público para a importância dele foi por meio de suas memórias. Sua experiência pessoal. Antes alguma forma de tentar mudar o quadro do que ficar indiferente, ainda mais nos tempos atuais.

Logo, Caitlin é importante sim. Por se reconhecer feminista e tentar, à sua maneira, tocar outras meninas e despertá-las para a importância de se ouvir mais.

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.