Precisamos falar sobre as mulheres


Em uma aula recente de literatura, uma aluna sai da sala e pergunta aos amigos: “Vocês notaram que dos 21 autores da bibliografia, só tinham duas mulheres?” Os amigos nem parecem se abalar, mas outra garota comenta: “E ele nem pode vir com aquele papo de ‘mulheres não escreviam tanto na época’ que nem outros professores ainda fazem, porque é literatura contemporânea”.

Nós passamos o mês de março celebrando mulheres na literatura, em suas mais diversas formas. Falamos sobre estereótipos, sobre gêneros ‘femininos’ serem tratados como inferiores, sobre escritoras lendárias e sobre a importância de ler mulheres.

Hoje estamos aqui para falar de outra coisa igualmente importante: o feminismo nas universidades. Nós sabemos que as instituições de ensino tradicionais talvez sejam lugares em que encontramos dificuldade para desafiar o status quo. Ainda não são ambientes de igualdade de gênero.

Mas há quem resolva se aproveitar das obrigações da faculdade para questionar justamente isso: qual é a situação das mulheres na sociedade. E nós queremos falar de três trabalhos que tiveram sucesso em demonstrar que ainda precisamos melhorar muito:

“Caraca! Podia ser eu, podia ser minha amiga.”

É assim que Analu Bussular descreve a última impressão que teve depois de entrevistar duas presidiárias do Centro de Regime Semiaberto Feminino de Curitiba (CRAF). Dizem que a primeira impressão é a que fica, mas na vida real isso é um pouco diferente.

A jornalista de 22 anos é uma das autoras de “Contando os Dias – Relatos de Mulheres que Vivem Atrás das Grades, Distantes de Seus Filhos”, livro-reportagem que foi seu trabalho de conclusão de curso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), publicado ano passado pela Editora Ithala. Como o título já entrega, o objetivo do livro é contar a história de mulheres que, além de presidiárias, são mães. “A gente queria dar voz pra essas pessoas que normalmente não tem a chance de falar”, explica ela, que durante as pesquisas de pré-produção do livro percebeu que havia pouquíssima coisa a respeito do tema na mídia.

O livro foi escrito a dez mãos, sendo os outros quatro pares as colegas de turma Fernanda Vargas de Oliveira, Gleize Perez Alvim de Oliveira, Náthalie Sikorski e Rhaíssa Sizenando da Silva. Cada uma delas assina um capítulo, que conta com dois perfis e um relato das primeiras impressões sobre o lugar e as pessoas.

Antes de se encontrar com essas mulheres, o estigma que Analu tinha na sua cabeça foi construído através de novelas e filmes, que costumam trazer personagens caricatas, carregadas de estereótipos negativos. No entanto, quando se vê de perto, o que se descobre é que essa imagem pouco condiz com a vida real e, em sua visita ao CRAF, Analu se deparou com mulheres parecidas com ela, que podiam ser ela. Mulheres de verdade.

Ouvir o que elas tinham a dizer e depois escrever essas histórias foi, para Analu, uma forma de quebrar a distância que a separava desse universo aparentemente distante: “Quando a gente tá do lado de fora é muito fácil pensar ‘ah, aprontou, tem que ficar aí mesmo’, só que quando você tá do lado da pessoa, tudo o que você quer é tirar ela dali, porque não é possível que ela mereça isso. Quando eu perguntei se ela tinha uma lição para dar, ela disse que se você só tiver fubá pra dar pro seu filho, dê fubá, porque é melhor ele ter pouco pra comer do que não ter você por perto. Todo mundo comete erros, algumas pessoas cometem erros maiores. Mas e aí? Se você tem filho passando fome em casa e a única coisa que você sabe fazer é traficar droga, por que você não vai traficar droga pra matar a fome do seu filho? Entendeu? É difícil ver aquilo como um erro tão grande quando tem tanta coisa maior envolvida na vida dela”.

Com exceção das burocracias enfrentadas para conseguir ter acesso às detentas, Analu conta que não teve dificuldade nenhuma para conversar com elas. Pelo contrário: no CRAF, o grupo encontrou mulheres que precisavam falar. “Eu não perguntei nada. Falei: ‘quero que você me conte sua história’. E ela falou por 20 minutos. Foi uma enxurrada. Pra elas foi melhor do que pra gente. Elas precisam falar e ninguém quer ouvir. Elas tem muita vontade de falar”.

Nana Soares também encontrou em seu caminho muitas mulheres que precisavam falar – o que não deixa de ser um pouco triste, se pararmos pra pensar. Como trabalho de conclusão de curso da graduação em Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP), Nana escreveu o livro “Ao Redor – As diferentes violências contra as mulheres” e conta que se surpreendeu com a facilidade com que encontrou vítimas de violência para entrevistar.

Assim como a violência, suas vítimas estão em todo lugar. O título do livro busca mostrar exatamente isso, desconstruindo, principalmente, a ideia de que só existe um tipo de violência de gênero: “Quando eu falava que ia escrever sobre violência contra a mulher, todo mundo já pensava na lei Maria da Penha na hora, aí como todo mundo entende que só tem um tipo de violência, resolvi mostrar que existem vários tipos de violência, não só a doméstica.”

Deste modo, cada capítulo do livro aborda um tipo diferente de violência, das mais “tradicionais”, como a doméstica e a sexual, como também as que começaram a ser debatidas recentemente, como a obstétrica e a revenge porn.

A produção do livro contou com um extenso mergulho em estatísticas e pesquisas a respeito do tema, mas o trabalho não se resume a números. Cada apanhado de números e porcentagens vem acompanhado de histórias que lhe dão rosto, ao mesmo tempo em que permitem que suas vítimas tenham voz. “Quis usar as estatísticas pra mostrar que não é um problema de uma pessoa só, é uma coisa social, é uma violência que não é pessoal, mas deixa marcas fortes nas vítimas.”, conta Nana.

Essas marcas ficam também em quem escreve. Assim como na experiência da Analu, o livro “Ao Redor” mostrou a Nana que a vulnerabilidade a qual todas as mulheres estão sujeitas também a atinge. “Um dos casos de estupro [relatados] foi com uma menina que estava ficando com um cara há um mês e foi pra cidade dele. É uma história que não tem como você não pensar que podia ser você. No Brasil, a gente tem mais estupro do que assassinato, coisa de 50 mil [casos] registrados por ano, uma previsão de 10% do número real. A dimensão da coisa te dá a sensação de que poderia tá sendo eu, ainda bem que tenho a oportunidade de mostrar isso, porque poderia tá sendo eu. É uma experiência pesada, você quer chorar com a pessoa. Você se identifica muito, são pessoas da sua faixa etária, mesma classe social, todos os elementos [que mostram] que poderia ser você no lugar dela.”, explica a autora.

Como balanço final da experiência, Nana conta que, por um lado, estar em contato com tantos casos de violência tão próximos dela de certa forma esvazia sua confiança no mundo e nas pessoas. Mas, por outro lado, ela enxerga seu trabalho como um manifesto de esperança. “Eu tive que fazer um esforço muito grande pra ainda acreditar no mundo. É muita história de desgraça, te dá a sensação de que você não pode confiar em ninguém. Tenho que lembrar pra mim mesma que só estou fazendo isso porque eu acho que é possível mudar. É complicado falar de violência sob um viés positivo. Eu tô escrevendo porque acho que dá pra mudar, senão não precisaria escrever.”

O objetivo de Nana é que seu trabalho permita que pessoas descubram e reconheçam esses tipos de violência de gênero, para que elas possam ser debatidas e combatidas. “Ao Redor” está disponível na internet para leitura online, justamente para facilitar seu acesso, e a autora pretende lançar um site com estatísticas atualizadas e vídeos a respeito do tema, amplificando sua visibilidade. Além disso, ela iniciou recentemente um canal no Youtube, onde pretende discutir temas relacionados ao feminismo. O primeiro vídeo já está no ar e discute a importância do Dia Internacional da Mulher.

Nem só de reportagens se faz o feminismo na universidade. A gente conversou também com a Itali Collini. Aluna de economia na FEA- USP e pesquisadora do Genera (Núcleo de Pesquisa em Gênero e Raça), ela teve seu artigo sobre mulheres no mercado financeiro – que foi, olha só, derivado de sua monografia – aceito recentemente no Congresso Europeu de Contabilidade. Legal, né?

De onde veio a ideia? Ela trabalhava com compra e venda de ações e o ambiente era só de homens, ela tinha sido a primeira estagiária. Na nossa conversa, Itali comentou que, nesse universo, é muito difícil para mulheres alcançarem cargos de chefia e, quando elas têm destaque no trabalho, sofrem discriminação: comentários como “Só fechou o negócio porque saiu com o cara”.

Foi assim, então, que surgiu o tema da monografia. Mas aí entra a realidade da vida universitária: nem sempre te apoiam. De acordo com Itali, a FEA não é um ambiente progressista. “Tratar de gênero e raça é menosprezado na FEA”, explica. “Disseram que minha pesquisa era panfletária, não era ciência”. Ela ainda comenta que o curso de Economia é bastante voltado para o mercado, bastante matemático, e não se questiona assuntos como desigualdade de gênero e raça por lá. “[Os professores] estão negligenciando setores sociais”, completa ela.

Mas ainda surgiu quem a apoiasse: uma professora do departamento de Administração e uma de Contabilidade, toparam ser orientadora e co-orientadora da pesquisa. E para a realização – tanto do trabalho quanto do Núcleo de Pesquisa – ela contou com o apoio de mulheres que também se interessavam pelo tema.Outras pessoas que apoiaram seus esforçam foram os alunos do Poligen (Grupo de Estudos de Gênero) da Poli-USP.

Depois da publicação do artigo, Itali conta que o apoio que teve fora do cenário acadêmico foi bem maior. Ela deu várias entrevistas, participou de podcasts e conseguiu ganhar mais reconhecimento para o problema levantado na pesquisa.

Itali também problematiza a mídia tradicional, completando que “precisamos questionar o que nos dizem, manter a cabeça aberta e continuar tentando nos informar”. Quando perguntada sobre a esperança de melhora das condições da mulher no mercado financeiro, Itali tem um ponto de vista positivo: ela acredita que há uma mudança lenta, mas constante. E aconselha sobre como nós podemos ajudar a promover a igualdade em nossos círculos: “Você não precisa ser pesquisador do assunto para ser ativista. é importante também espalhar de pessoa em pessoa”.

 

Texto de Anna  e  Lorena 

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