Precisamos falar sobre a história de mulheres que sofreram violência obstétrica


Texto: Gabriela Varella // Arte: Livia Carvalho

O respeito ao nascimento não depende só de o bebê nascer saudável; o respeito ao corpo e integridade da mãe ainda fica à margem do parto

 

Em meados de agosto de 2014, tomei a decisão de contar histórias de mulheres. Mais especificamente, sobre um momento delicado: o nascimento. Seja pela escolha de ter um filho ou pela maternidade compulsória, gerar uma criança tem a ver também com o nascer de uma nova mulher. Nesse momento, algumas descobrem-se mulheres. Algumas, mães. Outras, feministas. Segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo (2010), uma em cada quatro mulheres sofrem violência obstétrica. O termo parece óbvio, mas você já parou para pensar no que realmente significa?

Como impõe a sociedade patriarcal, somos ensinadas desde crianças que arranjar um marido e ter um filho é a nossa missão. O nascimento de uma criança vira uma obrigação intrínseca ao matrimônio – e tudo o que foge a essa regra é tido como absurdo.

Todas as mulheres com quem conversei passaram pelo processo do nascimento – ainda que nem todas desejassem isso. Uma delas, ainda adolescente, foi obrigada a gerar a criança antes mesmo de entender que o sexo poderia ser prazeroso. Engravidou ao perder a virgindade e carregou o rótulo de “puta” enquanto seu bebê ainda crescia no ventre. Não recebeu empatia das enfermeiras, que a julgavam enquanto a adolescente esperava na sala de espera para fazer exames de rotina e também no pré-parto. Mandavam que calasse a boca no dia do nascimento de sua filha. Foi abandonada sozinha em um quarto, enquanto se contorcia de dores causadas pela ocitocina sintética, utilizada para estimular contrações uterinas – sem ao menos perguntarem se era isso o que ela desejava. Depois, foi submetida a uma cesárea emergencial que culminou na morte de sua filha, que aspirou mecônio – primeiras fezes do bebê – ainda no útero da mãe, sufocada pelo estresse.

Escolhemos (eu e a Marcela Lima, minha parceira de TCC) fazer um livro-reportagem para que a voz de mulheres como Paola, a adolescente grávida, não se calassem. O relato da mãe de Laura, que morreu poucos dias após o nascimento, está no encalço de noites mal dormidas, de cicatrizes nos pulsos, de uma série de remédios para que conseguisse voltar a falar e até sair de casa. Atualmente, Paola é mãe da pequena Helena e leva as cicatrizes marcadas em sua pele. As tentativas de suicídio no antebraço foram cobertas por uma tatuagem de árvore da vida. “Ela me ensinou a viver, mesmo não estando fisicamente perto”, contou.

Paola entrou para a estatística. Ela é uma das quatro mulheres que foram submetidas a procedimentos não consentidos. Junto com ela, o nosso livro-reportagem carrega a história de mais seis mulheres. Uma delas perdeu a visão do olho esquerdo, por falta de auxílio médico que controlasse sua pressão arterial no dia do nascimento de sua filha. Foi submetida a uma cesariana emergencial e passou toda a cirurgia ouvindo que seu plano de saúde era cheio de carências, que estava dando um golpe para conseguir o parto de graça. Além disso, não teve direito ao acompanhante durante o parto – como a maioria das entrevistadas -, o que é garantido por lei federal.

A violência também é muitas vezes cometida em casa. Monica tem três filhas e duas nasceram por meio de cesáreas, pois foi pressionada pelo marido e pela família. Fizeram com que acreditasse que ela não conseguiria parir. Que seu corpo não podia. Após os dois nascimentos, Monica teve depressão pós-parto e acabou se distanciando da filha. Era como se cuidasse do bebê por saber que era seu, mas não por laços afetivos. Apenas no terceiro parto teve apoio do marido: aos 40 anos, a mais nova nasceu em casa. Foi direto para os braços da mãe e nenhum procedimento invasivo foi feito em seu corpo durante e após o nascimento.

Eu poderia contar todas as sete histórias que compõem o livro e explicar os procedimentos invasivos, pois cada relato ganha um contorno e desfecho muito particular. Algumas sentiram vontade, empoderadas após a superação da violência, de encontrar a cura na área da saúde e auxiliar outras mulheres a não passarem pela mesma situação. Outras, não conseguiram voltar a trabalhar em hospitais: a dor ainda é um fardo grande demais. A episiotomia – corte no períneo que é feito sem apoio em evidências científicas, muitas vezes sem o consentimento da mulher – é realizada em 56% das mulheres, segundo pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, que estudou o parto de 23.894 mulheres. No caso dos relatos que ouvi e que transmitem a realidade de outras mulheres que são contadas no livro, a episiotomia fez com que elas se sentissem incomodadas com seus corpos. Que sentissem dor durante as relações sexuais. Algumas demoraram para retomar a vida sexual – ou diminuíram a frequência.

Se você é mãe, talvez esteja se perguntando se passou por isso. A minha intenção nunca foi apontar o dedo e dizer “você passou por violência obstétrica”. Dar-se conta da situação é um processo interno muito delicado e que só pode ser percebido pela própria mulher. Se ela diz que foi abusada, é porque de alguma maneira o protagonismo do parto foi roubado, não se sentiu segura, não foi respeitada. Um bebê saudável não significa necessariamente que o parto foi respeitoso. Em suma, no início do texto perguntei se você realmente sabe o que a violência obstétrica realmente significa. Ela pode ser um insulto, uma atitude, a falta de auxílio, o excesso de medicalização, a falta dele, a indiferença, a episiotomia, a cesárea imposta.

Vivemos em uma sociedade que coloca um ponto final nessas realidades calçadas por um bebê que “nasce bem”, “com saúde”. O bem-estar das mulheres, que perdem o direito de serem as protagonistas do próprio parto, não é prioritário. Os excessos, violências e atendimentos desrespeitosos são mascarados por “essa é a regra do hospital” ou “eu faria assim se fosse o meu filho”. A violência obstétrica é mais uma das diversas violências cometidas contra a mulher. Sendo violência, deixo aqui o link para entender melhor como denunciar ou até meios para tentar contornar a situação impositiva.

Para além de informar sobre evidências científicas, a minha maior esperança é de que o livro seja uma espécie de cura. A ferida pode ser remendada, ainda que o maior estrago já tenha sido feito. A história dessas mulheres provocou uma grande transformação em mim. Não sou mãe, mas nasci em um ambiente de violência obstétrica. Submetida a uma episiotomia não consentida e outras situações vexatórias – que a minha mãe tem dificuldade de detalhar até hoje -, senti obrigação em contar os relatos da forma mais próxima possível da realidade. O passado que a minha mãe não consegue verbalizar, mas emenda com a frase: “Depois de você, achei melhor não ter mais nenhum filho. É muito doloroso”.

 

Leia aqui um trecho do livro e saiba mais sobre o que é a violência obstétrica e como denunciar.

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