Precisamos conversar sobre por que ser mulher AINDA é mais complicado


Texto: Analu Bussular // Arte: Raquel Thomé

Confesso: já estava um tanto quanto avançada na leitura de A Assinatura de Todas as Coisas quando me deu o estalo de que era um livro escrito por uma mulher sobre a vida de uma mulher e que, de um jeito aqui e de outro acolá, me fazia dar uma franzida na testa e/ou balançar a cabeça pensando que como é possível que um dia ~decidiram~ que um gênero deveria ser privilegiado. Findada a confissão reflexiva, vou escrever uma crítica como se deve.

O segundo livro de Elizabeth Gilbert publicado no Brasil é, dessa vez, ficcional e um romance de formação que se passa por volta de 1800. No início do livro somos apresentados a Henry Whitaker através de alguns poucos capítulos que fazem um corridão de sua vida desde a infância até o nascimento de sua filha, Alma Whitaker. A partir de então, ela toma seu posto de protagonista da história. Para resumir o que importa da história dele: Henry veio de uma família extremamente humilde e cresceu ao lado de um palácio com um jardim enorme. Ambicioso, aprontou um tanto na vida, lutou para ter oportunidades e acabou se tornando um botânico de renome e milionário. É nesse contexto que nasce Alma. Filha única por bastante tempo, ela cresce sendo tratada como adulta desde cedo: além de seus pais serem, de certa forma, eruditos, sua mãe acreditava numa criação sem nenhuma demonstração de fragilidade. Alma não podia se animar demais brincando e muito menos ser “dada a emoções”. Aprendeu desde cedo a portar-se à mesa para jantar com grandes nomes da ciência e da botânica – e a dar opiniões nas conversas.

No início da pré-adolescência, ganhou uma irmã adotiva da mesma idade que a sua, mas nunca conseguiu ter uma relação próxima com ela. Prudence, diferentemente de Alma, sempre foi bonita e delicada. Não era tão inteligente, mas praticava a abnegação e a bondade, comportamentos que Alma não era capaz de entender. Durante toda a obra, entramos em contato com as ações e o psicológico de Alma por todas as diversas passagens que acontecem em sua vida, mas acredito que dê para focar em dois grandes pontos feministas:

Uma mulher cientista no século XIX que publicava seus artigos sem assinar o primeiro nome para que os outros estudiosos os levassem a sério achando que tinham sido publicados por outro homem. Se ainda hoje o cenário não é tão favorável às mulheres quanto deveria, imagina no século retrasado. É impressionante como as mulheres sempre estão sob esse carma de precisar mostrar um trabalho totalmente incrível para serem reconhecidas (e olhe lá) enquanto qualquer trabalho de um homem é tranquilamente creditado. Alma só passa a assinar seu nome quando chega a uma altura da vida em que sinceramente não se importa mais se vai ser levada a sério ou não: sabe que tem um trabalho único e impecável em mãos e quer ter o direito de publicá-lo como dela, independente se outras pessoas vão deixar de ler por causa disso ou não.

Uma mulher com a sexualidade à flor da pele. Entre a adolescência e o começo de sua vida adulta, Alma começa a organizar a enorme biblioteca da mansão em que mora. Os pais acumulavam livros que chegavam de todos os lados e nem conferiam o que tinham lá dentro, de forma que ela acaba entrando em contato com um livro que fala sobre sexo e prazer, fica assustada com o que lê, passa dias pensando em como se livrar dele mas não consegue e resolve ler de uma vez. Assim ela descobre a possibilidade de causar prazer a si mesma e desde então, pelo menos uma vez por dia, se trancava num quartinho do lado de fora de casa para se masturbar, não sem se sentir culpada e suja por muito tempo por tais atos. Passa tanta coisa na cabeça dela em relação a isso (e também em relação ao seu alto desejo sexual que ela não consegue entender) que não tem como não pensar, mais uma vez, que se atualmente ainda existem tantos tabus para a sexualidade (principalmente a feminina), imagina há dois séculos atrás.

Esses dois pontos acabam sendo fortes e acompanhando Alma durante grande parte de sua vida, mas o livro todo tem muito mais material e, mesmo se tratando de um romance de formação que por definição é algo mais contínuo e sem a expectativa de grandes reviravoltas e momentos, me deixou chocada várias vezes com o rumo das coisas. Elizabeth soube conduzir muito bem a história e o livro já é um dos meus favoritos do ano, com certeza.

Agora, depois de tudo o que eu falei sobre o livro, preciso fazer um pouco de jus ao título alarmista que escolhi para esse texto, afinal de contas, se eu passei trechos a fio enquanto lia revirando os olhos e pensando que “GENTE, por que ser mulher precisa ser TÃO mais complicado que ser homem mesmo nas pequenas coisas” é porque, mesmo vivendo no século XXI, eu entendo isso. Eu vejo isso acontecer. Eu sinto isso na pele, mesmo tendo todos os meus privilégios de classe-média-branca-cis-hétero. Eu sou mulher, e isso não devia me fazer inferior a ninguém, mas aparentemente, uma hora ou outra, acaba fazendo sim. Se eu dou sorte de ter um trabalho bacana que não me diminua, ainda assim corro o risco do chefe berrar comigo da forma que não berraria com o colega homem. Sou uma mulher vivendo no século XXI e ainda assim estarei em pânico se precisar andar numa rua deserta ainda que antes do anoitecer. Ainda assim eu tenho que ter medo de tirar uma nude porque se vazar o problema sempre vai ser meu – e não do possível vazador. Todo mundo se considera bem moderninho hoje em dia, mas preciso lembrar que J. K. Rowling usou abreviações de seus nomes ao publicar Harry Potter para que não descartassem a leitura se ficasse tão claro que ela era mulher.

Tem muita gente que diz por aí que a gente já conseguiu o que queria, que o feminismo não é mais necessário – mas enquanto a gente conseguir perceber esse monte de coisas só ao analisar a própria vida e as próprias questões por 5 minutinhos, repito, a gente ainda precisa conversar.

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.