Por que gostaria de ser Lane Kim – Semana Gilmore


Texto: Debora Theobald

Lane Kim: asiática, roqueira, baterista, melhor amiga de Rory Gilmore e funcionária do Luke’s. Essas podem ser algumas das definições para uma personagem muito querida de Gilmore Girls. No entanto, como muitos das pessoas representadas na série, há muito por trás das atitudes dos personagens e de suas características se pararmos para pensar um pouco sobre eles.

Foi o que eu fiz sobre a Lane. Parei para pensar na construção da personagem e do que ela significa para mim (e talvez para você), e o que eu descobri me levou a duas constatações: Somos todos Lane (ou gostaríamos de ser) e Lane deserved better, roteiristas. O que mais me instigou a refletir sobre o papel da personagem dentro da trama da série foi um pulga atrás da orelha. Na verdade, uma coceira. Sempre que a Lane aparecia ou não – no caso dela, as não aparições são mais do que o tempo em tela – algo me incomodava profundamente. Até que percebi que esse incômodo provinha de como ela era representada.

Tá certo que a Lane logo de cara já se enquadra no estereótipo da melhor amiga asiática (porém não vou me estender nesse assunto porque não tenho moral nenhum para falar sobre isso, deixo a palavra para quem tem), mas o pior de tudo é como essa amizade é construída com a Rory. Sim, existem muitas coisas boas, muita lealdade, muito cumplicidade, intimidade, aquele laço e identificação entre elas que faz a gente olhar para a tela e desejar muito ter uma amizade naquele nível de entendimento. A Rory nunca julgou a “vida dupla” da Lane; melhor: sempre agiu com muita naturalidade com isso e ainda integrou totalmente a Lane a vida dela e da Lorelai (por que não pensar em Lane como a terceira garota Gilmore? O senso de humor dela está mais do que à altura).

No entanto, parece que essa amizade deixou de ser tão importante para os roteiristas com o passar da temporada. Lane começou a ganhar alguns plots meio fora de foco, meio nada a ver, cada vez menos tempo de tela – com uns “sumiços” bem irritantes para mim –  e, por vezes, você tinha que se forçar (e a Rory também, aparentemente) a lembrar que Lane era amiga da Rory. Sem falar que quando essa amizade era trazida de volta ao foco era sempre para a Rory expor os problemas delas, falar sobre os relacionamentos malfadados dela, nunca focando nos milhões de problemas e coisas ruins que estavam desandando na vida da Lane.

Tudo isso, claro, pode ser explicado com um a “Rory era a personagem principal, o tempo em tela seria usado para discutir os problemas dela e não da Lane”. Ok, aceito. Mas não quer dizer que não incomode. O que me leva a porque a Lane merecia muito mais e algo melhor. Por mais que ela tenha avançado muito durante as temporadas – saiu da casa da mãe, assumiu a sua personalidade, batalhou pelo seu sonho de todas as maneiras possíveis – a trama insistia em arrastá-la para baixo e desfazer os pequenos passos que ela tinha dado. Não consigo descrever minha indignação com o plot do Josh gastando todo o dinheiro da turnê, que a Lane economizou com tanto sacrifício, para comprar aparelhos de sons que depois sequer sabia usar!? Eu sei que plot device é tudo, mas existem limites. E isso é só a ponta do iceberg.

Então, afinal, por que somos todos Lane Kim? Porque ela é forte, determinada, focada e resiliente. Ela sempre viveu na sombra dos desejos, vendo outros adolescentes fazerem coisas “normais” para a idade, enquanto ela tinha a temida Senhora Kim esperando em casa, e mesmo que uma das frases que mais saia da boca da personagem seja “eu queria poder”, ela ainda faz acontecer de certa forma. Ela batalhou pelo seu sonho de montar uma banda, se “submeteu” as aparências para agradar a sua mãe, tendo uma “vida dupla” onde podia realmente expressar o seu estilo e gosto musical. E por mais que relutasse a participar das atividades, agia com naturalidade quando precisava comparecer a um compromisso familiar esquisito ou a reunião do grupo da faculdade religiosa.

Só de pensar em todos os obstáculos que a Lane teve que passar – desde arrumar desculpas mirabolantes para ir em um baile, ter um encontro, namorar ou ir em seu primeiro show -, eu penso em desistir, mas ela nunca cogitou essa possibilidade. Vocês fazem ideia da coragem que ela precisou para finalmente sair de casa, assumir quem era mesmo que isso doesse nela e provocasse uma dor sem fim na mãe dela? Eu não, porque é algo incalculável.

Acho que se todos fossem um pouco mais como a Lane, seriamos pessoas melhores. Um bom humor invejável, sempre com piadas com um tom autodepreciativo na ponta da língua e um objetivo de vida em vista, um sonho que move e preenche. Alguém que pode até chorar e pensar em desistir, mas nunca vai, de fato, fazê-lo. Uma amiga leal e para todas as horas, alguém que não reluta em ser simpática com ninguém e sempre vai ter um sorriso no rosto e precisar de pouco para ser feliz. E, quem sabe, alguém que traz porção de batata frita grátis para a pessoa mesmo que ela não mereça.

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