Por um picolé de chocolate


O Nelson Rodrigues uma vez disse* que sem paixão não se chupa nem um Chicabon. Fiquei pensando nisso quando meu pai me contou que um dia foi surpreendido no meio da tarde com uma chuva tão forte que não tinha nem como ele chegar até o carro para ir a um compromisso que tinha marcado. Vendo que não tinha muito o que fazer, ele resolveu dar o dia como cancelado, comprou um Chicabon e ficou sentado vendo a chuva cair. Ele me disse: que vida ridícula é essa em que a gente precisa de raios e trovões pra poder, simplesmente, sentar e chupar um picolé?

Meu pai é um cara que trabalha muito. Muito. Por necessidade, por ter sido criado acreditando na força do trabalho e também porque já é tão parte da engrenagem dessa nossa cultura workaholic que ainda não conseguiu encontrar uma brecha para pular fora. Meu pai trabalha muito, mais pros outros do que pra ele, como a maioria das pessoas, e foi chupando um Chicabon num dia de chuva ele percebeu, por alguns segundos, que injusta era essa vida.

Eu não fui criada acreditando na lógica da força do trabalho. Eu fui criada acreditando que eu poderia ser e fazer o que eu quisesse, que eu deveria ir atrás daquilo que me fizesse feliz. Eu sou um clichê quase perfeito do estereótipo da geração Y, que chegou à vida adulta se sentindo no direito de correr atrás dos meus sonhos e das minhas paixões. Ainda que algumas pessoas  fizessem questão de dizer que eu seria pobre por ter escolhido o jornalismo, sempre havia aquele tapinha nas costas (às vezes sincero, às vezes não) que encerrava a conversa com um: bom, o importante é fazer o que se gosta e ser feliz.  

Hoje sei como esse discurso de correr atrás dos nossos sonhos e ir em busca daquilo que nos faz feliz só é endereçado a uma parcela pequena da população. Acredito que perseguir suas paixões é algo que quase todo mundo quer, mas infelizmente quase ninguém pode. O discurso do “trabalhe com o que você ama e aí você nunca mais terá que trabalhar” ou “largue tudo e corra atrás do que te faz feliz” (de preferência viajando o mundo), embora bem intencionado, só mostra que quem fala realmente não reconhece o privilégio que é poder dizer coisas assim.

Tendo reconhecido tudo isso, preciso dizer que sou completamente dependente da paixão. Com o tempo, inclusive, desenvolvi um respeito muito grande por todas as pessoas que se adaptam e são capazes de sobreviver sem ela, porque taí uma coisa que eu ainda não aprendi a administrar. Em maior ou menor grau, preciso de paixão para viver e fazer as coisas, preciso acreditar naquilo de algum modo, senão não consigo fazer. Quer dizer, eu até faço, mas morro por dentro enquanto isso.

Embora a paixão seja frequentemente associada ao estado de delírio que nos incapacita, debilita, nos impede de pensar racionalmente, e nos torna dependentes de coisas e pessoas, acho que a paixão também liberta. Porque eu, que sempre gostei de ser muito dona do meu nariz, quando me vejo agindo sem paixão, tenho a sensação de que estou presa, me vejo dependente de algo que não posso me desvencilhar no momento, ainda que aquilo não me faça feliz.

Era como estudar física e matemática, porque dependia delas para no futuro estudar o que eu quisesse. Era como investir tempo e esforço em trabalhos de faculdade que não queria, em leituras com as quais eu não me identificava, porque eu dependia da nota para poder me formar. É gastar meus minutos, horas e dias num trabalho que é só pros outros e nunca pra mim, porque preciso deles para sobreviver. É basicamente não viver, só sobreviver.

A paixão, por sua vez, liberta. Pode ser uma liberdade frágil, até questionável pelos mais céticos, mas é o nosso quinhão num mundo e numa vida que são, sim, injustos demais. Como se, com um pouquinho de paixão, o mundo que nos engole pudesse ser um pouquinho mais nosso. É fazer o possível para enfiar naquele trabalho sem sentido uma temática que te agrade e te ajude a concluí-lo com vontade. É defender apaixonadamente os motivos que fazem daquele texto uma babaquice sem fim. É a paixão que me faz seguir em frente numa carreira que todos dizem fadada ao fracasso, porque ela me leva a seguir em frente, em busca de soluções e espaços que ainda não existem, mas que eu posso ajudar a criar porque acredito neles, porque sou apaixonada pela causa. É a paixão que leva tantas pessoas às ruas, que nos dá ânimo pra resistir, discutir, e prostestar, mesmo quando a realidade nos esmaga e tenta nos fazer reféns do status-quo, de tudo que já foi pré-estabelecido.

A paixão pode parecer egoísta, e talvez seja, mas ela é que nos dá o impulso e a coragem para correr atrás daquilo que queremos, do mundo que sonhamos, das pessoas que amamos, das pessoas que queremos ser. É a paixão que nos diz que somos importantes, que nosso tempo vale alguma coisa, que a nossa vida, olha só que coisa, é nossa pra ser vivida. Ela legitima isso dentro de cada um e nos leva além.

Uma amiga escreveu um dia que amar é um ato revolucionário num mundo em que as pessoas andam tão assustadas, e onde tudo, principalmente os sentimentos, é tão frágil e efêmero. Seguindo essa mesma linha, para mim se apaixonar – por algo, alguém e até por você mesma – é um ato não apenas de revolução, mas de resistência: eu estou aqui, eu existo e eu me importo (e sou importante) o suficiente para, nem que seja por uma tarde, jogar tudo pro alto e chupar um Chicabon.

  • Na verdade o que o Nelson Rodrigues disse é que sem alma (ou sem sorte) não se chupa nem um Chicabon, mas meu primeiro contato com a frase foi numa paráfrase na internet (ou reprodução incorreta mesmo) que substituía alma por paixão, e foi assim que a registrei na minha cabeça.
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Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida - e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.