Por um autor morto


Por Sofia Soter e Milena Martins

Todo mundo, em alguma aula de literatura no colégio, teve que lidar com perguntas de interpretação de texto que tinham uma resposta certa e várias erradas; com professores explicando que “o autor quis dizer x, o autor quis dizer y”; com uma leitura única de uma obra – ou, no máximo, um diálogo entre duas leituras já aceitas. Quando adotamos essa forma de analisar, pressupomos que há uma verdade a respeito do texto – a do autor. Ou, em último caso, a verdade do professor, autoridade legítima sobre ele.

Se vocês leem a Pólen com frequência, já devem saber que a gente não leva nada disso muito a sério – damos poder aos leitores, às nossas interpretações. Num nível teórico mais radical, o que apoiamos é a morte do autor. Não literal, mas simbólica – a desconexão do autor de sua obra, o valor da obra quando lida em vez do valor da obra quando escrita. O que importa nessa questão (ou pelo menos o que acreditamos importar) é o seguinte: o texto pertence aos leitores, não ao autor.

Quando tratamos de obras clássicas, é um pouco mais fácil fazer isso porque há uma distância histórica do autor – não sabemos tanto sobre eles, não temos acesso a eles diretamente, e há legitimidade oficial e acadêmica em questionar e interpretar as obras de formas diferentes. Na literatura contemporânea em geral, a perspectiva é dividida. Mas o mais difícil é considerar o autor como simbolicamente morto quando ele está bem bem beeeeem vivo. Na internet, em todas os nossos feeds, falando sobre as obras. Como ler Harry Potter e interpretar de uma maneira própria se todos os dias a J.K. Rowling posta no Twitter as próprias interpretações, como se fossem verdade? Como desvincular os livros do John Green de tudo que ele responde e comenta no Tumblr, por mais que ele diga por aí que os livros pertencem a seus leitores? Como interpretar o claro subtexto queer em Entrevista com o Vampiro se a Anne Rice dá entrevistas criticando os fãs e suas diferentes leituras, se ela processa quem escreve fanfic?

Toda vez que a internet começa a mostrar manchetes de “J.K. Rowling revela informação bombástica sobre um personagem!”, eu clico com medo e apreensão. Eu li o primeiro Harry Potter há 15 anos, o último há 8. Eu interpreto esses livros a meu modo desde então. Quando a J.K. posta no Twitter, ela está corroborando ou negando minhas interpretações; ela não diz “quando escrevi, pensei em x” ou “sempre percebi de forma Y”, ela diz que “é x, é y”, ela declara verdades do alto de sua autoridade, verdades que controlam e tolhem minha leitura, os pontos do livro que me tocaram de um modo ou outro, o universo que eu extrapolei na minha cabeça – um universo em que The Shoebox Project  (fanfiction famosa sobra a era dos Marotos em Hogwarts) é canon; e quem é a J.K. pra me dizer que não é? Quem sou eu pra dizer que é? Por que nosso peso sobre a minha leitura é diferente?

Acreditar na morte do autor é oferecer uma interpretação da obra que a torna muito mais valiosa do que isolada em um única possível leitura. As relações de poder acabam sendo mais distribuídas. Não sei vocês, mas enxergo sentidos muito maiores em uma literatura que é feita para gerar discussões e provocar o desenvolvimento de um raciocínio próprio do que em uma que não passa de uma caixa fechada.

Porque é isso que fazemos quando damos todo o poder nas mãos do autor, mesmo depois do livro já estar no mundo: transformamos a obra em um cemitério de informação. A história perde a oportunidade de ecoar, os personagens se tornam caricaturas de pessoas que nunca existiram e jamais existirão. Some toda e qualquer conexão com o mundo. E se não estamos lendo e escrevendo sobre o mundo, então é sobre o que?

Ter a autoridade de um autor real, de carne e osso, dizendo de fora do texto qual é a chave de leitura é um forma de transformar o texto em algo vazio. Mesmo que essa autoridade se transforme em um professor que dá nota de acordo com a semelhança entre as respostas dos alunos e a sua própria interpretação. Se estamos diante de um texto que não comunica nada sozinho, estamos diante de um texto que não merece ser lido. A literatura não é um jogo de certo e errado e não pode funcionar como mais uma ferramenta que separa os que possuem “o conhecimento” daqueles que o desejam. Vem daí a ideia tão comum de que um livro é algo inacessível que deve ser decifrado. É uma noção injustamente construída e que só serve a propósitos mesquinhos.

Outro problema dessa incapacidade tecnológica da morte simbólica do autor, dessa solução para a imortalidade, para a sobrevida, é que se perde o limite sobre o que é ou não é texto. Universos expandidos são comuns e eu, como leitora, já não tenho certeza de como interpretá-los. Se eu não consumo todo o universo expandido de uma história, o que interpreto do universo não-expandido e que contradiz o universo expandido está errado? Há níveis e categorias hierárquicas de legitimidade interpretativa mesmo entre leitores? O quanto a minha verdade interpretativa de um texto está sempre em risco, se as verdades posteriores jogadas em mim pelo autor podem mudar o texto – por que a J.K. Rowling (sim, ela de novo) pode dizer no Twitter que o Dumbledore é gay, que existem personagens LGBT em Hogwarts, e isso a absolve da falta total e completa de representatividade LGBT explícita nos livros? Tenho visto no Tumblr interpretações do Harry como de origem indiana e a Hermione negra – por que isso é lido como errado, se o texto não diz explicitamente que eles são brancos, se não dá informações sobre suas origens?

Por mais clichê que seja, uma das melhores características de um texto é sua capacidade de se reinventar. Essa reinvenção, porém, não é feita em meia dúzias de tweets que tentam transformar um ponto final em vírgula. Ela é feita a cada vez que o texto é lido e relido, a cada momento em que o universo é reconstruído na cabeça do leitor. Não dá pra ir colando páginas imaginárias a uma história que já não pertence a quem a escreveu. Não é um apêndice online que muda o fato de que Harry Potter não teve nenhum personagem explicitamente LGBT. E mesmo que mudasse, não adiantaria tanto assim para todos os adolescentes queer que cresceram sem representatividade nos livros; continua uma tentativa de amenizar falhas já sedimentadas.

A morte do autor é uma chance e uma espécie de direito. Chance de construir narrativas múltiplas a partir de um texto-fonte. Espécie de direito que cada leitor devia ter assegurado de que, enquanto estiver lendo, não seja interrompido pela voz autoritária de um autor fantasma – através do eco de um clássico de séculos ou da nitidez de um comentário online.

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