Por que a dualidade humana não deveria incomodar


Já faz um tempo que comecei a assistir ao seriado Once Upon a Time. De longe, o meu personagem preferido ainda é o negociador Rumple/Sr. Gold. Ele não é caracterizado por amaldiçoar as pessoas por vingança leviana, ou por praticar atos de altruísmo. O que, desde o início, me chamou atenção foi o enredo preservar algo que tem desaparecido ou sido pouco explorado em narrativas contemporâneas: o caráter humano.

Quando digo “caráter humano” me refiro a tudo aquilo que a humanidade é – não aquilo que se espera dela. Esperamos desprendimento, solidariedade e compaixão. Não desejamos raiva, desamor e egoísmo. Em suma, não queremos que as pessoas ajam como… pessoas. Crescemos com o pensamento de que devemos acreditar no lado bom daqueles que nos cercam, uma vez que, do mundo, recebemos tão pouco. Assim, os “defeitos” intrínsecos do ser humano são ou amenizados, ou ignorados.

No seriado, há sempre a contraparte que tenta justificar os erros e acertos de Sr. Gold, em Storybrook. Isso permite ao espectador que veja os dois lados de quem o personagem apresenta ser. É comum que, enquanto convictos de confiança, achemos que o julgamento corrobora para que um dos lados de alguém se sobressaia. A “bondade” é sempre bem-quista e encorajada, enquanto a “maldade” é repelida e menosprezada.

O quanto realmente enxergamos quem as pessoas são, ou querem ser?

Você é bom e mau para quem?

Todo relacionamento que se baseie em qualquer forma de laço está sujeito ao humanismo (que preza os interesses e potencialidades do ser humano, levando em consideração seu livre-arbítrio) e, assim, submetido a perspectivas. Por que fulano agiu daquele modo? O que fulana pretende com isso? De que lado ciclano está?

A graça de ser humano é que não há lado.  Não deveria haver uma imposição categórica, ou uma educação que nos influencie a ser “aquilo”, ao invés de “isso”. E se quisermos ter as duas partes? E se não nos importarmos com a escala maluca que nos coloca em caixinhas? Ele é terrorista, ela é santa. A verdade é que somos mosaicos por dentro, cada porção composta por diferentes peças e tamanhos. A representação do que é humano nunca vai conseguir abraçar, honestamente, o significado de humanidade: aceitamos um lado, vendamos os olhos para o outro. Uma espécie de viseira invisível limita a totalidade do que o outro é e pode ser e, dessa forma, não é atípico nos ater a aspectos inteiramente positivos ou inteiramente negativos sobre alguém. Há sempre essa fração, essa porcentagem daquilo que está abaixo do limite que acreditamos haver.

O problema não é achar que quem é bom será bom até o fim, e vice-versa. Mas achar que a bondade e a maldade não co-existem e não são fundamentais para a formação pessoal de cada um de nós. Quem vê um lado precisa entender que há o seu contraponto e isso nos permite ser parte do mundo.

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Sobre Nina Spim

Escritora sonhadora dotada de blue feelings. Quer muitas coisas ao mesmo tempo. Acredita nas palavras mais do que na imagem. Não acredita na divisão das casas de Hogwarts, mas tem certeza de que é 70% Ravenclaw, 20% Hufflepuff e 10% Gryffindor.