Pontos de partida


Texto: Isabela Moreira

Eu achava que a temporada de 2004 de Malhação tinha sido a melhor de todas. Tinha o Cabeção em seu melhor momento, Marjorie Estiano no começo da carreira, uma banda e a história de amor entre o mauricinho e a menina certinha. Era emocionante e diferente de tudo que a minha versão de 11 anos já tinha visto.

Aos 12, assisti ao filme Um Amor para Recordar (2002) pela primeira vez. De cara a narrativa me pareceu familiar: começava com alguns dos garotos mais populares do colégio desafiando um menino de fora do grupo a pular de um estaleiro – o que ele faz e se acidenta. Como punição, o líder dos populares tem que fazer serviço comunitário, que é como conhece melhor – e se apaixona – pela moça corajosa, inteligente e benfeitora da escola. Um começo muito parecido com o de Malhação 2004, mas sem o ogromóvel e com um plot twist envolvendo câncer.

Ao longo da minha adolescência, fui descobrindo que várias das obras pelas quais eu era apaixonada tinham muito de outras obras. Na novela Alta Estação (2006), a protagonista muda de estado e faculdade para seguir o seu amor (platônico) de colegial… que é basicamente uma descrição do que acontece no início da série Felicity (1999). Na série literária A Mediadora (2000), uma menina de 16 anos ganha poderes para lutar contra o sobrenatural, bem como a “caçadora” da série televisiva Buffy, a Caça-Vampiros (1996).

Mas as semelhanças não me impediram de acreditar e me envolver em cada uma dessas histórias. Por muito tempo acreditei que a criatividade era uma coisa mágica, que surgia em seres especiais em momentos iluminados. A realidade é bem menos doce: a criatividade é complexa e funciona como uma junção remasterizada de todas as nossas referências, com prováveis doses mais altas daquilo que nos marcou mais.

Em um áudio de 1937, Virginia Woolf diz: “Palavras, palavras em inglês, são cheias de ecos, memórias e associações – naturalmente. Elas estão por ai há muitos séculos, nos lábios das pessoas, nas casas, na rua, nos campos. E essa é uma das maiores dificuldades de escrevê-las hoje – elas estão relacionadas com tantos significados, memórias (…) Nosso trabalho é ver o que podemos fazer com a linguagem como ela é. Como podemos combinar novas palavras em ordens diferentes para que elas sobrevivam, criem beleza e falem a verdade? Essa é a questão”.

Acredito que isso se aplique a todo tipo de trabalho criativo. A busca por uma suposta originalidade muitas vezes serve como um empecilho (e uma desculpa) para não sairmos do lugar. Tendo isso em mente, não acho que seja um problema partir do que já conhecemos… o que interessa é o que fazemos a partir disso.

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