“Poétiquase”, Bruna Kalil Othero


Texto: Paulo V. Santana

Em um poema escrito por mim, há um verso que descreve meu atual questionamento: “– o que eu sei falar de poesia?”

É muito lugar-comum começar um texto afirmando não saber o que escrever, mas esta é a minha primeira resenha de um livro de poemas e estou sentindo aquele friozinho na barriga. Porém, se essa é a minha primeira vez falando de poesia assim, publicamente, Poétiquase também foi o primeiro livro que Bruna Kalil Othero entregou pro mundo – e tudo o que eu espero é ter uma estreia tão boa quanto a dela.

Dividido em quatro partes, o livro apresenta múltiplas possibilidades do fazer poético, tanto nos temas quanto na forma. Bruna vai das formas mais clássicas – como o soneto – a inovações concretistas, além de diversos títulos que brincam com a sonoridade e duplos sentidos – como em Hodi(t)erno e EscadAS. Apesar de soar estranho ler algo com preocupações de rima e métrica e, logo em seguida, um poema completamente livre, a mistura de influências é mais como uma maneira de a autora mostrar todo o seu potencial.

A potência está também no alcance dos temas, variando de reflexões sobre a contemporaneidade a dores de relacionamentos, passando por angústias do processo criativo da poeta. O tempo todo o eu lírico apresenta uma posição muito forte sobre o que fala; há a descrença do mundo exterior, o olhar crítico sobre o moderno, a afirmação do feminino, da sexualidade e do ser-mulher e ainda uma briga interna com os próprios sentimentos.

Poétiquase é como um manifesto de uma poeta que quer se jogar no mundo. Há amor, desejo, inadequação, saudade e, principalmente, a vontade de fazer poesia. Tal vontade é o elemento que move toda a obra, acompanhada de um receio comum entre tantos poetas do século XXI: como eu conseguirei escrever algo significativo sabendo que, por exemplo, Drummond escreveu No meio do caminho? É como se os grandes poetas do cânone, a cada poema, nos dissessem “Isso é poesia. O que você tem a dizer sobre poesia?”. Garçonete literária, um dos meus favoritos, é uma síntese disso.

GARÇONETE LITERÁRIA

Quanto mais eu leio,

mais acanhada fico pra escrever.

Quer dizer,

tanta gente já escreveu tanta

coisa boa e bem feita

que eu fico até sem graça

de querer pular de paraquedas nesse clube tão exclusivo.

 

Por isso,

acho que vou sorrateira,

rastejando,

e entro bem quietinha

pela porta da cozinha.

Do poema acima, destaco especialmente a segunda estrofe, que demonstra o significado da existência desse livro. Bruna publicou o Poétiquase por uma editora pequena, e é dessa forma que ela entra, discretamente, no mundo da literatura. O “quase” do título, além de todas as interpretações mais evidentes, cabe como uma licença que a Bruna pede para ser poeta.

É uma licença que vale a pena conceder. Bruna Kalil Othero fez uma estreia consistente, entrou pela cozinha e mostrou a que veio. Mas até onde ela vai? Espero que longe. Espero que poétiquase se mostre poética.  

Outro poema que gostei muito, "Não sei explicar mais que isso"

Poétiquase (editora Letramento, 2015) foi cedido para resenha pela Bruna, e você pode encontrá-lo para compra clicando neste link.

Nota editorial: A Bruna é colaboradora aqui da Pólen. Você também pode ler o que ela já escreveu por aqui.

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Sobre Paulo V. Santana

Paulo tem 19 anos, cursa Letras na USP e... o resto ele ainda está descobrindo. Enquanto isso, ele canta High School Musical nos karaokês da vida, lê uns livros, reclama da vida na sua newsletter e perde horas e mais horas assistindo coisas no youtube. No Twitter: @paulovsantana

  • Bruna Kalil Othero

    Lindo! <3