Pintores de penumbra


por Ana Luiza Figueiredo

Quando crianças, acreditamos em tudo. Tudo mesmo. No que nos contam, no que lemos, no que assistimos, no que aquele personagem legal fala.  

E então, quando ficamos mais grandinhos, passamos pela fase de não acreditar em nada. Negamos qualquer coisa – Papai Noel, Saci Pererê, Deus. Não conseguimos enxergar mais nada sem desconfiança e ainda adquirimos a mania – que, nessa fase, entendemos como missão – de revelar aos crentes sua ignorância.

É nessa época em que irmãos mais velhos passam a criticar os irmãos caçulas por ainda colocarem um dente debaixo do travesseiro, sonharem com uma ilha em que ninguém cresce ou apenas fitarem o céu, à procura de um pequeno asteroide onde mora um menino que gostariam de conhecer.

De repente o nosso mundo começa a ficar menos interessante, mais cinzento. Não nos surpreendemos com facilidade, o que parece mágico ou surreal ganha explicação científica e sociológica. Vão morrendo a esperança e o encanto, impera a vontade de seguir pelos (seguros, monótonos) caminhos já trilhados.

Porém, quando nos tornamos adultos, ou apenas um pouco mais crescidos, caímos em nós e percebemos que o mundo nunca deixou de ser colorido. Nunca mesmo, até nos dias mais nublados, quando é quase impossível acreditar que exista um sol atrás de tantas nuvens.

De repente a tempestade se afasta e um feixe de luz nos atinge tal qual um raio. Se o mundo que habitamos está sem graça, é porque nós a tiramos dele – e, sem ela, não há como haver uma porção de outras coisas.

Em súbita epifania, enfim percebemos que Papai Noel, Deus e o Saci Pererê sempre existiram, e passamos a combater firmemente quem diga o contrário. Agora sabemos que só não crê quem ainda não cresceu o bastante para entender que negar tudo é abraçar o cinza e abandonar as cores.

Munidos de baldes de tinta, voltamos às crenças. Crendo, temos filhos para os quais ensinamos orações, conceitos de Darwin e histórias de fadas, anjos, duendes, monstros, reencarnações, extraterrestes, sereias, espíritos, quimeras, destino, acaso, sorte, karma, azar, amor eterno…

Porque agora sabemos que eles sempre existiram e, enquanto houver graça no mundo, vão continuar existindo.  Precisam existir.

Cavalaria, apresente seus pincéis.

Ana Luiza Figueiredo é formada em Publicidade e Propaganda pela UFRJ e atua como geradora de conteúdo e redatora publicitária. Escreve para a revista digital Afronte e no blog Check-in (site Obvious Lounge), e esse ano decidiu ter o gostinho do que é ser escritora. Entre outras, participa das antologias Metacantos – 2015 (LiteraCidade), Escritos/Escritores V (Editora Univates), Pasiones (Letras con Arte, Espanha) e Trópicos Fantásticos (Amazon). Em 2015 lança O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip), seu primeiro livro infantil.

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