Philip Roth: meu problematic fav não tão problemático assim


Não gosto de usar adjetivos como “polêmico”, “controverso” ou “politicamente incorreto”, porque na maioria das vezes eles apenas encerram cretinice sobre o tema tratado. Philip Roth e sua obra são tema desse texto, que, antes de ser uma defesa, é minha visão da obra do escritor como mulher, mestiça e feminista. A propósito, Claudia Roth (sem parentesco com o autor), em Roth Libertado, uma biografia do autor, me fez refletir inicialmente sobre a questão dos homens de Roth.

O primeiro livro publicado com grande sucesso por Roth (antes ele havia lançado com menor êxito contos o volume Adeus, Columbus) foi O Complexo de Portnoy, tido por muitos como uma sátira à cultura judaica e parafilias sexuais. Neste romance há muito machismo e objetificação de mulheres, além de uma misoginia palpável (a Macaca, que sequer tem um nome de ser humano como os demais personagens, é uma mulher que não atende aos requisitos de Alexander mas que mesmo assim ele ama e não consegue aceitar). Alexander Portnoy, entretanto, é um homem muito perturbado, e suas opiniões, principalmente no tocante às mulheres, devem ser observadas apenas com curiosidade e um pouco de pena, até porque são narradas para seu psicanalista. Portnoy também é um homem branco com convicções de esquerda e com uma profissão admirável: defensor público. E mesmo assim, durante toda a narração de suas sessões, fica claro o total despreparo de Alexander para a vida ou mesmo para aceitar a pessoa que ele é. Em momento algum enxerguei defesa do personagem, e sim uma dissecação impiedosa.

O maior problema com os escritos de Roth é que geralmente não há antagonistas às excrescências masculinas relatadas: por sua conta e risco, o leitor é convidado a ter contato com aquele espírito, se identificando ou repudiando. Por parte de muitas pessoas, ocorre a identificação (pois é, né) e daí dizerem tanto que Roth é misógino, machista e racista. Não. Ele coloca seus personagens como espelhos do leitor e nem sempre há acuidade para perceber isso. Sueco Levov e sua empáfia de cidadão americano perde tudo em nome de seu orgulho de parecer não-judeu.  Simon, um ator no fim da vida no livro A Humilhação, um dos personagens mais abjetos de Roth, nos expõe sua miséria e confabulações sobre suicídio, reflexo do ressentimento pela decadência de seu corpo e todas a perdas que isto acarreta e com as quais ele não vai lidar, aprimoramento pessoal é coisa de mulherzinha, mesmo que sirva para diminuir o sofrimento.

É o meu ponto de partida. Desde seu primeiro livro de sucesso o que Roth procura fazer, na minha visão, é uma sátira ao mundo masculino do qual ele também faz parte. No Complexo de Portnoy essa sátira é evidente pelo conteúdo mordaz e sexual, mas os personagens principais de Roth são todos piadas sobre o mesmo homem: escolarizado, poliglota, privilegiado mas que não deixa de ter pensamentos nada elevados sobre as pessoas ao seu redor, principalmente sobre as mulheres, que em sua obra aparecem sempre como coadjuvantes. Entretanto, estas personagens secundárias são o motivo de exposição e humilhação para os protagonistas. Ou seja, têm o poder do desfecho, num paradoxo delicioso, embora não os confrontem em antagonismo, como já mencionado.

Um exemplo disso é o romance Pastoral Americana em que Dawn, esposa do já mencionado Sueco Levov, o abandona por ele ser um idiota obcecado com seu ideal wasp de felicidade. A ironia de ser por um homem branco, anglo-saxão e protestante só torna tudo ainda mais humilhante para o homem que não soube recomeçar. Sua filha Meredith nem chega a ser uma pessoa de verdade no livro, é um ideal, uma americana de segunda geração que deveria ser perfeita, mas não foi, arruinando, assim, os sonhos do pobre Levov ao virar jainista. A insistência do narrador (Zuckermann) em citar que Dawn foi finalista do Miss America é irritante, mas serve para expor o ponto de objetificação de mulheres e o quanto ele é desnecessário e preconceituoso.

No filme Pastoral Americana, Ewan McGregor é ‘Sueco’ Levov

O poder das mulheres como catarse expositiva no mundo masculino é muito grande na obra de Roth. David Kepesh não consegue lidar com as personalidades de suas esposas  em O Professor do Desejo, com a juventude de Consuela (O Animal Agonizante) e com o fato de ser transformado em um seio, no livro homônimo, em que há uma alegoria da sexualidade feminina, um clímax eterno sem orgasmo. Ao experimentar ser um dos símbolos de feminilidade nessa experiência surreal e beirar a insanidade, Kepesh regressa ainda mais machista.

David Kepesh em Elegia, de Isabel Coixet

A obra de Roth é a comédia do homem levada às últimas consequências, tanto que os protagonistas estão situados em uma aparente posição de superioridade apenas para serem destronados. Nas histórias Nathan Zuckermann, especulador de histórias alheias e mitômano egocêntrico e David Allan Kepesh, intelectual solitário com uma postura cheia de empáfia, temos muitos elementos da construção satírica do escritor.

Ao expor opiniões “polêmicas” por meio de seus eu-líricos, Roth consegue despertar em mim a pena que sinto por todo homem que teve oportunidades para desconstrução de preconceitos mas não se desapegar de seu chauvinismo e estupidez. Nosso David Allan, cretiníssimo e catedrático de literatura, assediando alunas e continuando o mesmo homem imaturo que era quando observava as pessoas no hotel de propriedade de seus pais durante a sua infância. Ou o Sabbath, imoral até as últimas instâncias de degradaçõ moral, sendo apenas o que muitos homens por aí são.

Roth, em seu conto O Homem Comum, consegue até fetichizar nada menos que Anne Frank como sobrevivente da Segunda Guerra e residente nos Estados Unidos sob cuidados de um professor/amante em um conto que é uma espécie de fanfic. Enoja, mas sabemos que se Frank houvesse sobrevivido, é o que ela seria nesse mundo de homens, mas apenas depois de ser “uma mentirosa” por esconder-se e mudar de identidade como nos é narrado na história. O espelho na frente da humanidade do leitor masculino, de novo.

Nem sempre Roth é uma leitura palatável em razão dos inúmeros preconceitos destilados (nem falei aqui sobre A Marca Humana, em que o racismo é abordado), mas quem melhor que um homem para expor suas fragilidades e medos, mesmo que não sendo esta a sua intenção? Minha liberdade interpretativa como leitora me levou a esta conclusão; cheguem às suas, contanto que a leitura sirva como ponto de reflexão e nos mantenha distantes de nos tornarmos personagens vivos de Roth.

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Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.