Pescador de sonhos


 

O sociólogo alemão Norbert Elias tentou explicar a relação entre o homem e o tempo e para isso, fez uma analogia utilizando o barco e o mar como ponto de partida, relacionando-os com o relógio e o tempo. Ele percebeu que nós utilizamos o tempo de uma forma que nos é conveniente, e por isso o ser humano cria o relógio, assim como um construtor faz o barco para conseguir navegar na imensidão do mar com um trajeto mensurável.

Alguns conceitos nascem da falta de coerência de pequenas analises que fazemos na vida. Tente, por exemplo, refletir sobre o que você pensou para a sua vida futura, tempos atrás. Nós somos o que somos, e não é exatamente o que planejávamos ser. E se o futuro não corresponde ao que desejamos no passado, não quer dizer necessariamente que fracassamos. E sim que a beleza da relatividade de objetivos é constante.

Aos meus 9 anos planejava ser ator quando fosse mais velho, e contracenar com os meus heróis dos filmes de ação. Com 15 anos, eu e meus amigos nos sentíamos a revelação do break dance mundial sonhando que logo o nosso grupo seria descoberto e ficaríamos famosos.  Aos 17 sonhava em ter minha bandinha de Rock, e fugir pra bem longe com a menina do terceiro andar do meu prédio.

Hoje eu não realizei nada do que eu quis há tempos atrás, e mesmo assim eu estou feliz. Era tão revigorante quando éramos crianças e sonhávamos com coisas maravilhosas e inovadoras para o nosso futuro, a nossa inocência nos fazia acreditar que tudo seria tão milimetricamente perfeito algum dia. Na adolescência, nos tempos das paixões, nós costumávamos a tratar tudo de uma forma tão extrema, formulando questões que pensávamos que seriam respondidas facilmente conforme o tempo passasse.

Hoje eu organizo livros em uma biblioteca de médio porte e ganho um salário bem distante da realidade de um superstar.

É muito mais fácil lidar com o passado. Ele é o que foi. Eu não tenho banda, não tenho grupo de dança, não sou ator. Mas hoje eu sei que não servia nem para interpretar uma árvore em uma peça, que não eu era o novo Michael Jackson brasileiro, que Juliana do terceiro andar não gostava de rock e por isso se casou com um violoncelista.

Não é simples interpretar o passado, mas é impossível prever o futuro, e isso faz o tempo ser espetacular. Com tanta diferença entre os sonhos que eu tive e a vida que eu levo hoje, eu ainda sou um sonhador.

Como o futuro pode estar tão distante estando tão perto? O futuro pode ser outra criação humana para tentar fazer com que o tempo siga o caminho pretendido, assim como o barco de Norbert Elias. Nesse caso, o mar representaria o infinito das possibilidades, o barco seria o meu guia e eu o pescador atrás de futuros que sonhei. O Futuro é um sonho que vai até onde nossa rede alcança.

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Sobre David

David é um professor de História que divide a sua vida em estudo, trabalho e diversão, necessariamente nessa ordem (mentira). Curioso e admirador da cultura urbana popular. Como bom carioca, ele gosta de se misturar em todo lugar que vai.