Perspectiva, expectativa


Palco dividido em cinco por papelão. Cada um com uma pessoa. A luz transita, parando em quem fala.

 

CLÁUDIA: Na hora, era só eu e o palco. Tá, eu o palco e o Cláudio. Mas eu nem pedi pra ele estar lá. Tá, foi muito bom. Mas não passou de coincidência! Eu cheguei com minhas amigas, no camarote, e desci pra encontrar outras duas, que estavam na pista. E ele tava com elas. Quê que eu podia fazer? Recusar beijo? Queridos, na fase que eu tô, nem aperto de mão tô podendo recusar.

CLÁUDIO: Eu acho que ela tava envolvida demais. Assim, eu só queria agarrar mesmo. Agora, aquela emoção, aquele ritmo, aquele beijo de fogo… eu não tava preparado praquilo. Cantar com os lábios colados nos meus, mordiscando?! Isso aí não é coisa de peguete não. Certeza que ela tava viajando na minha. Só pode.

CLÁUDIA: Mas aquele show… as músicas… era tanta poesia que eu não me aguentava! Fiquei cheia de paixão, de energia, de lirismo! (rodopia, fazendo piruetas) E beijando alguém… eu não me seguro não. O álcool ainda ajudou, aí eu me soltei mesmo, me entreguei mesmo, nem sabia o que tava acontecendo no mundo exterior. Pra mim, só era eu e o palco. E a boca do Cláudio. (ri desesperadamente)

CAMILA: Aqueles dois ficaram o tempo todo se agarrando. Nunca vi! Eu vou no show pra ouvir as músicas, dançar, não pra ficar me relando nas pessoas. (suspira) Mas mudando de assunto, eu fiquei bem chateada com o Fernando porque ele não foi. Eu sei que os ingressos tinham acabado, mas sei lá… ele perto de mim ia melhorar muito o show. A vibe tava uma delícia, as músicas eram poemas, mas uns beijinhos iam incrementar bastante aquilo, viu!

CLÁUDIO: Só sei que, quando eu vi a Cláudia, pensei: vou ter que beijar. Porque é assim, né? Você já é fixo daquela pessoa, encontra acidentalmente e tem que beijar. Se não beijar, perde o posto de beijador fixo. E eu tô numa fase que não tô podendo perder nem posto de gasolina. (ri) Essa foi péssima.

CLÁUDIA: Será que o Cláudio me entendeu mal? Eu tava extasiada naquelas músicas… que culpa tenho eu se elas eram todas românticas, de amor? Eu nem gosto assim dele. Gosto das mãos, da boca, da língua, dos dedos… mas dele, humano, não é tão assim. Quer dizer, existe uma afeição, até porque a gente tem mil coisas em comum, mas amor é outra coisa. Amor é aquilo que a poesia evoca, que aquelas músicas pintaram no palco. Amor é aquilo. E eu, inebriada pelas sensações líricas, me enchi de amor. Aí compartilhei com quem tava mais perto… e acabou que foi a boca do Cláudio. Ai meu deus! (se angustia) Vou perder meu beijador fixo desse jeito. Num dá pra misturar amor e luxúria. Um acaba perdendo.

CLARISSA: Eu gostei do show, apesar dos pesares. As músicas tavam lindas, as pessoas dançando mandavam uma energia muito transcedental… Tinha acabado de conhecer a Cláudia, e a achei bem interessante e boa de papo. Mas não deu dois tempos de show e ela já começou a agarrar o Cláudio! Pô, só porque eles têm o mesmo nome precisam ficar se beijando? Se for assim, eu vou morrer solteirona – ou então viro lésbica. (faz cara de pensativa)

CLÁUDIO: Acho que vou deixar isso pra lá. Se bem que, se ela quiser algo mais sério, quem sabe? A gente tem muita coisa em comum, gosta das mesmas bandas, curte umas literaturas esquisitas… (vislumbra o horizonte, sonhador) Poderíamos ir no cinema… ver filmes franceses… comer pipoca do mesmo saco… se agarrar enquanto passavam os créditos… (cai em si) Mas pera aí! E não é que a danada tá me devendo um cinema! Desde o carnaval, ficou de combinar comigo um filme que tava concorrendo a uns prêmios. Agora já deve ter saído de cartaz. (se emburrece) Vou largar. Se ela inventar de gostar de mim, agora sou eu quem não quer!

CARLOS: Eu tava lá com uma peguete, e a Cláudia estragou tudo. Aquele dia não era lá dos melhores, tínhamos brigado, e pra ser sincero, só fomos ao show porque os ingressos já estavam comprados. Aí eu chego, meio bravo, meio triste, e dou de cara com ela agarrando passionalmente um cara. Pô, universo, é isso mesmo? Vai esfregar a felicidade das pessoas na minha cara? Ainda mais dela? Virou brincadeira. Fui tentar ir pra outro lugar, mas quem disse que a bendita deixou? Não queria arredar o pé dali. Ótimo. A Cláudia tinha que escolher o melhor lugar da plateia pra ficar beijando. E o pior: nem percebeu que eu estava ali, de tão absorta na música, na poesia, no beijo. A luxúria dos outros nunca me incomodou tanto.

CLÁUDIA: Fiquei meio culpada pela Camila. Eu tinha descido pra ficar com ela, e acabei dançando só com o Cláudio… mas pelo menos não ficou sozinha – tinha a Clarissa. Gostei bastante dela, bem fofa. Ah… (suspira) mas eu não sei. Acho que esperava algo mais daquela noite. Quando me encontrei com o Cláudio, pensei: quem sabe é isso! Mas ele não me correspondia naquelas investidas intensas. (ri, meio sexy, meio louca) Afinal, não é todo homem que permanece intacto frente às minhas seduções poéticas! O Carlos, mesmo, coitado. Por qualquer coisinha ele já ficava todo emocionado. E por emocionado, entendam que… (cai no chão de tanto rir, rasgando suas próprias roupas)

CARLOS: Nem sei porque me incomodei tanto. Aquela mulher era uma maluca. Só sabia fazer loucuras, tudo dela era sem pé nem cabeça. (faz um olhar angustiado) Por que diabos então que mexe tanto comigo?! Dizem que os artistas têm um parafuso a menos. Pois ela tem vários, vários! (rodando em círculos, esbravejando) Não quero saber daquela desequilibrada nunca mais! Que fique nos seus showzinhos, agarrando seus rapazinhos, eu não tô nem aí! Nem sinto falta de quando era eu recebendo as mordiscadas! (lembrando-se, olhando para o vazio) Ou as poesias ao pé do ouvido… ou o vinho derramando nas minhas blusas brancas… ou dando risadas na madrugada… (caindo em si) NÃO! NÃO! Também era eu que a levava ao psiquiatra, à fármacia, pra comprar aqueles remédios fortíssimos… não quero mais nada com isso! Nada! (derrotado, se derrama no chão) Eu só esperava um final diferente… se ela pelo menos tivesse saído daquele devaneio e me visto… só isso…

CLÁUDIO: Mas que mulherzinha, hein! Interessante pra burro. Sabe que, lembrando dela cantando aquelas músicas, tão liricamente, tão apaixonadamente, me dá vontade de ligar pra ela? Ligar e pedir: canta pra mim, meu bem, canta! Vamos naquele cinema! (delirando, de olhos fechados) Queria ler poesias, enquanto provava aquele corpo… conhecendo tudo, tudo, tudo! Debaixo daqueles panos todos que ela usa! Queria as músicas de fundo, e nós dois dançando… nus… sozinhos… sem aquele público todo em volta… Vou ligar! (pega o celular e disca)

CLÁUDIA: (nua, deitada no chão, enrolada nas roupas rasgadas – e o telefone tocando) Quem será? Quem será? Quem será? (rasteja, procurando o celular) É o Cláudio? É o Carlos? Não consigo enxergar… meus olhos estão confusos, está tudo girando… (atende e se levanta, dançando de forma estranha) Alô? Quem é? Quem é? Quem é? Não estou ouvindo… não estou entendendo nada… Só queria que você soubesse que eu não tenho expectativas! Não tenho! Estou nua! Dançando nua! Nua! (girando ao redor de si mesma) Não sei o que você está dizendo… Não sei o que estou dizendo… Nua! Nua! Livre! Liberta! (cai no chão, tremendo – o celular vai pra longe)

CLÁUDIO: Oi, Cláudia… sou eu, Cláudio. Carlos? Quem é Carlos?  Você está me ouvindo, meu amor? Fala comigo, Cláudia! Conversa comigo! (se desesperando) Não tem expectativas? Mas eu tenho! Eu tenho! (endoidecendo) Eu quero me casar com você! Passar o resto da vida nu! Recitando poesias no seu ouvido! Nu! Nu! Dançando pela rua… sem dizer coisa com coisa… livre… independente… Cláudia! (cai no chão, tremendo – o celular vai pra longe)

CAMILA: (lixando as unhas) Eu só estava esperando o Fernando.

CLARISSA: (se olhando no espelho) Eu só estava esperando uma Clarissa aparecer na minha vida. Boa de papo, é claro.

CARLOS: Eu só esperava um final diferente… se ela pelo menos tivesse saído daquele devaneio e me visto… só isso… um último beijo, talvez… uma última ligação… (tem uma ideia) É isso! Vou ligar pra ela! (pega o celular e disca)

 

As luzes todas acesas. Eis que o papelão cai.

 

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Sobre Bruna Kalil

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/