“Persépolis”, Marjane Satrapi


Texto: Maynnara Jorge

Persépolis é um quadrinho autobiográfico que conta a história de Marjane, nascida no Irã e com uma família moderna e politizada. Enquanto Marji passa pela transição da infância para adolescência e em seguida para a vida adulta, ao mesmo tempo que seu país passa por mudanças político-religiosas.

Primeiro eu queria dizer que eu sou completamente noob no que diz respeito às revoluções e guerras orientais e o pouco que conhecia sobre as questões do Irã veio de algumas aulas de história, então fiquei muito feliz de ter uma perspectiva de alguém que realmente viveu as transições enfrentadas com a revolução islâmica e a implantação do regime xiita.

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Eu simplesmente fiquei encantada com a forma como a autora explica os acontecimentos históricos e como essa visão vai mudando a medida de que ela vai crescendo. A história começa com a Marji ainda criança enfrentando as primeiras mudanças políticas/religiosas na sua escola ao ter que usar o véu pela primeira vez em uma sala onde estudavam apenas meninas.

Outra coisa bastante interessante dessa história é como ela retrata bem o crescimento da Marji, ela passa por grandes mudanças ao longo da narrativa e isso reflete na forma como ela enxerga o que acontece ao seu redor. Eu adoro que a medida que ela vai crescendo as ideias também vão amadurecendo.

Por causa do avanço da guerra, agravada pelo estado islâmico, os pais de Marji a mandam para estudar em Viena. Com apenas 14 anos ela começa a entender de verdade as diferenças entre o Oriente e o Ocidente. Ela passa pelas pressões da adolescência com o agravante de estar longe de casa e ainda mais suscetível a pressão que os amigos a impunha.

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O que eu mais gostei no livro é como ele realmente é fiel ao processo de crescimento. Embora a minha realidade tenha sido completamente diferente da Marji, eu conseguia entender a constante busca por um herói em sua família para provar a sua essência rebelde aos seus amigos. Também acredito que todo adolescente passou pela fase de gostar de coisas que não fariam sentido para ela antes apenas para continuar com os amigos. E por fim, me identifiquei quando ela finalmente chega aos seus 20 e poucos e passa a tolerar cada vez menos a opinião dos outros sobre ela.

Outra coisa que me deixou completamente encantada foi a família dela. Não sei nem por onde começar, mas acho maravilhoso como ela vem de uma linhagem de pessoas revolucionárias. Ela viu os pais marcharem pela cidade e protestarem conta o rei do Xá e ouviu as histórias da sua avó, viúva de um ex-prisioneiro de guerra. Eu amo como eles realmente a deixaram crescer sabendo que ela não precisava das amarras de uma religião que a prejudicava e de como eles realmente querem vê-la crescer e ser feliz.

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O quadrinho também tem ótimas lições sobre feminismo e empoderamento. A Marji, desde a sua infância, nunca teve medo de questionar as autoridades e até mesmo o machismo empregado nas leis da revolução islâmica. Ao mesmo tempo, ela também se vê várias vezes questionando a si mesma, como ela mesma diz ela era “oriental demais para o ocidente e ocidental demais para o oriente”. Enquanto tentava se desprender dos pudores orientais para sobreviver mundo ocidental, ao voltar para o Irã a faz perceber que as suas vivências não eram bem vistas no regime em que o país enfrentava e isso é algo que está sempre em jogo na história.

Eu acho que embora tão distantes, é um pouco difícil não se identificar com a Marji. O quadrinho é um maravilhoso exemplo de coming out of age que faz com que você se veja nos olhos e nas dúvidas da personagem. Além de ser uma ótima perspectiva de uma cultura que não estamos acostumados a ver sem ser com a influência da nossa visão ocidental. Definitivamente uma história apaixonante que eu recomendaria para qualquer pessoa. (ps: também existe um filme de animação baseado na história)

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Sobre Maynnara Jorge

Maynnara é paraibana, mas atualmente mora em São Paulo. Formada em Jornalismo e Produção de Moda. Ama ler, escrever e sente falta dos seus dois cachorros que ficaram na sua cidade. Ela também está no twitter como @maynnara_