pequenos dizeres para Daniel – XII


Texto: Mariana Ferraz Paulino // Arte: Dia de Almeida

Era a primeira vez em que Daniel mudava de casa, e para um pequeno indivíduo recém-habituado com determinado lócus de formação de seu caráter situacional, a corrupção espacial significava quase que a morte dos seus ainda prematuros sentidos de familiarização e pertença.

No início do processo, por não reconhecer em suas atividades cotidianas a barafunda dinâmica do encaixotamento das roupas, dos copos de vidro embalados com jornais velhos, da realização de infelizes tarefas como arrastar uma geladeira ou fazer um sofá de três lugares passar pela estreita porta do apartamento (e depois caber num elevador de dimensões ridículas), Daniel punha-se a chorar a todo instante: não entendia as razões pelas quais eu estava “mandando a televisão embora”, “expulsando as cadeiras da cozinha” e “colocando a poltrona para dormir no jardim do prédio, se ela gostava mesmo era de ficar na sala”. E conforme Daniel me culpava pelo inevitável caos inerente à partida, eu ia paulatinamente personificando o volátil êxodo das minhas córneas carentes e imprecisas.

Já no novo apartamento, um pouco maior e mais iluminado do que aquele em que morávamos antes (mas bem mais distante do metrô e sem parapeitos nas janelas – o que impedia o cultivo das begônias e das glicínias), Daniel perdia-se frequentemente pelos cômodos desconhecidos. Nos primeiros dias, foi de fato muito engraçado vê-lo diante da tentativa de respeitar as disposições geográficas da nossa morada anterior: para ele, se lá a cozinha situava-se ao lado da sala, tal arranjo deveria manter-se na nova casa. Se antes era necessário subir três degraus para entrar no box do chuveiro, Daniel atrasava o início de seu banho em alguns minutos, buscando entender o que havia acontecido com a pequena escada que sempre estivera ali. E se o varal do nosso apartamento antigo era dobrável e geralmente colocado na sacada, Daniel simplesmente não compreendia “aquele fio com roupas penduradas na cozinha”, e dizia que o nosso varal anterior era realmente muito mais bonito.

Aos poucos, entretanto, Daniel passou a agir de forma extremamente receosa quanto à possibilidade de perder-se na nova casa, e só deslocava-se por entre os espaços se houvesse alguém para acompanhá-lo: tornou-se comum, então, vê-lo durante horas sentado no chão da lavanderia por temer a ida até a sala, ou encontrá-lo encolhido em algum canto do quarto agonizando pelo desejo de urinar, mas pusilânime com a ideia de perder-se no caminho até o banheiro. Tornara-se refém convicto de seu próprio lar, hóspede em sua própria casa, e simplesmente não havia qualquer instância ou entidade que o convencesse de que seria possível habituar-se ao novo local, aprendendo a interagir com os diferentes caminhos até que estes lhe parecessem incontestavelmente iguais àqueles que sempre percorrera.

Numa manhã quase azul, enquanto Daniel estava deitado no colorido e emborrachado tapete do corredor a pintar carrinhos e aviões de madeira com giz pastel, decidi estabelecer entre nós um diálogo mental projetado no Tempo das Árvores. Como que buscando alimentar os meus próprios tímpanos oníricos com morangos, cerejas e mel silvestre, disse a ele, em pensamento: Daniel, lembra-te de que a tua casa é a guardiã do teu corpo, como escreveu a nossa poeta favorita. Perder-se nela é também perder-se em si, e não deves afligir-te diante do desbravamento de tua alma, meu sambinha. Porque aquilo a que imprecisa e imponderadamente nomeamos “viver” significa, sobretudo, deslocar-se velozmente em incontroláveis permanências energéticas. Significa o exercício de constantes partidas sem orientações geográficas prévias, nas quais instintivamente leva-se o fardo do corpo como bagagem sentenciada para que seja possível disseminar a sutileza do espírito, que se torna cada vez mais leve na medida em que se fortalece cosmicamente. Nos movemos em relação aos espaços e em relação às pessoas, mas jamais nos deslocamos dos espaços e das pessoas: em cada diminuto rincão dos seres e dos sítios, resta sempre um pouco de nós, que portamos também um bocado daquilo que perdura imóvel. Por isso, meu chumaço de algodão, não temas a tua casa, que é o único lugar capaz de suscitar em tua matéria o ímpeto do mais belo e efêmero sentido de enraizamento: é ela o supremo destino das tuas lembranças e perspectivas mais ocultas, e o magno repouso dos teus versos e amores mais fatigados. Quando nos perdemos em nossas próprias casas, nos perdemos em nossos próprios silêncios, o que nos torna então capazes de escutar o tão mudo ecoar da dilatação de nossos poros intangíveis e de nossas nuvens orgânicas. E tal canção de concreto e carne, meu Daniel, possui uma das mais belas melodias já entoadas na atmosfera das palavras claras.

Daniel, ao notar que eu o observava, ergueu a coluna a fim de portar-se de maneira mais adulta, e por um instante pensei que sua espinha dorsal fosse alcançar alguma constelação vulgar que estivesse sobre nós. Me contemplou com certo espanto afetuoso – como se tivesse de fato escutado todas as sentenças proferidas por meu coração cerebral –, e deixando de lado os carrinhos e aviões, dirigiu-se destemidamente até o banheiro (desejava ir à sala, mas pensou que o percurso que pretendia fazer fosse levá-lo até o quarto) e permaneceu diante da janela por alguns instantes. Após examinar minuciosamente cada centímetro do cômodo no qual se encontrava, utilizando-se de algum método analítico ainda não concebido pelas ciências naturais ou transcendentais, virou-se repentinamente para mim e questionou, lamurioso: “Sinto falta das begônias e das glicínias. Por que é que você não tira essa privada daqui da sala e a transforma num grande vaso de flores?”.

Enquanto o céu tingia-se de cinza, para servir de cenário a uma tempestade cuja iminência era perceptível até no canto dos pássaros, as minhas horas eram tomadas por uma rara tranquilidade diante da constante e morna ausência daquilo que jamais estivera de fato presente. Ouviu-se um relato sobre embalar livros mnemônicos, abarrotar malas com roupas e cicatrizes, guardar fotografias numa caixinha decorada, apanhar ônibus, trens, aviões, bicicletas, barcos, balsas, caronas e táxis para que só então, finalmente, fosse possível carimbar os inúmeros e tão peculiares passaportes anímicos. Daí que a solidão, em seu assombroso esplendor, trouxera definitivamente o despertar inerente à partida, que acabou por ser compreendida como nada mais do que uma permanência itinerante.

As begônias e as glicínias sempre hão de florescer diante das nossas vistas, Daniel: basta que nos debrucemos sobre o parapeito das janelas de nós mesmos, e que tenhamos dois ou três guardiões para nos recordar, quando necessário, das luzidias asas metafísicas que trazemos penduradas em nossas costas.

 

Sobre a autora: Mariana é historiadora, mora em São Paulo e reza todos os dias por uma revolução. Flutua entre páginas acadêmicas, versos repentinos, manhãs iluminadas e cartas terapêuticas. É feminista, vegetariana e gosta de guardar pequenas recordações de instantes felizes numa caixinha de veludo grená. Você pode encontrá-la também no facebook.

Compartilhe: