Pense nas crianças #SemanaDosLivrosBanidos


Texto: Sabrina Coutinho

Estamos em 2016 e eu só fico pensando como deve ser difícil ser mãe, pai ou educador em um momento desses. “Como é que eu vou explicar tanta intolerância pro meu filho?”, devem pensar aqueles que são responsáveis pela educação das crianças. Pensando nisso, são vários os autores que discutem a questão da diversidade e da representatividade em livros infantis. Eles abordam os mais variados temas e podem – e devem – ser lidos pelos adultos também.

A grande questão de inserir livros diversos na escola e na formação das crianças é exercitar a empatia. Eu lembro bem que, quando era pequena, adorava ler e decorar todas as informações do livro Crianças como você, que mostra histórias de diversas crianças ao redor do mundo, como vivem, quais são seus hábitos e brincadeiras. Hoje ainda acho incrível ler histórias como Malala, a menina que queria ir para a escola, e perceber que ainda existe a preocupação de mostrar para as crianças que existem outras como ela do outro lado do oceano, só que vivendo de um jeito bem diferente. Alguns livros infantis usam uma linguagem mais divertida e metafórica para falar das diferenças, como é o caso de Os nada-a-ver, outros são mais didáticos, explicando tim-tim por tim-tim a questão da tolerância, como Quem é você?.

SAO PAULO / 07/08/2015 / METROPOLE /  Imagens do livro Os-nada-a-ver, lançamento da Companhia das Letrinhas. Crédito: Divulgação

SAO PAULO / 07/08/2015 / METROPOLE /
Imagens do livro Os-nada-a-ver, lançamento da Companhia das Letrinhas. Crédito: Divulgação

Mas nem sempre é assim, muitas vezes, livros infantis reproduzem discursos que reforçam estereótipos. Um dos mais fortes entre as crianças é o dos reis e rainhas, princesas e príncipes – muito devido à influência dos desenhos da Disney. Nesse vídeo, a pesquisadora Michele Escoura fala sobre a pesquisa que fez, mostrando como essa imagem da princesa é criada no imaginário infantil. Hoje, temos diversos livros que mostram princesas e heroínas diferentes daquelas com cabelos lisos e loiros, como O mundo no black power de Tayo, As lendas de Dandara e os cordeis da escritora Jarid Arraes. Para mergulhar de cabeça nessas histórias, você pode dar uma olhada nessa lista de 100 livros infantis com meninas negras, que mostra que os livros estão aí, só falta serem lidos e difundidos <3

Existe, também, uma série de livros que falam sobre relacionamentos homoafetivos. Muitos estudos – e vídeos fofos que viralizam por aí – mostram que as crianças lidam melhor com esse tema e são bem mais tolerantes. Os livros ajudam a ampliar isso, naturalizando a questão e tirando ela do lugar tabu em que foi colocada, como é o caso de: Ceci tem pipi?, Olívia tem dois papais (ambos da Companhia das Letras), Meus dois pais (Ática) e Meu amigo Jim (CosacNaify). Para quem quiser se aprofundar, vale ler Diferentes, não desiguais (Companhia das Letras), que explica questões de gênero de forma clara e dá dicas de como elas podem ser abordadas na escola.

E falar de política para crianças, acha polêmico demais? Muitos acham melhor não tocar no assunto, para não soar como “doutrinação”. Mas já percebeu que as escolas não falam nem sobre o básico? Quem manda aqui (Companhia das Letras), por exemplo, surgiu a partir de oficinas com crianças para pensar sobre as relações de poder na sociedade. Outra coleção para abordar o assunto é a “Livros para o Amanhã” (Boitempo), quatro volumes produzidos na Espanha logo após a queda do regime Franco, que voltaram à tona, já que esses temas ainda precisam ser trabalhados. Eles são: A ditadura é assim, A democracia pode ser assim, O que são classes sociais? e As mulheres e os homens. Os títulos falam por sim, mas cada um pretendo discutir um aspecto importante das relações políticas.

O que não falta é material para abordar todas essas questões tão espinhentas para alguns. Na sala de aula, inclusive, é lei no Brasil que sejam abordadas essas questões, e o livro infantil pode ser uma ferramenta poderosa para começar o diálogo. Isso mesmo, diálogo. Não é porque as crianças são pequenas que não podem ter opinião, ouça o que elas têm a dizer e não subestime a capacidade delas de entenderem temas complexos. Pense nas crianças, em muitos quesitos elas estão mais preparadas que a gente para construir um mundo mais tolerante.

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Sobre Sabrina Coutinho

Sabrina Coutinho tem 23 anos, é de São Paulo e estuda Editoração na ECA USP. Trabalha com educação no Quero na Escola e no tempo ~livre~ se mete em projetos culturais. É feminista, virginiana e sommelier de hambúrguer e cappuccino.