Peixe Grande, meu avô e a vida


 

Meu amor por Tim Burton é tão antigo que eu não consigo nem me lembrar de um momento na minha vida em que não era apaixonada pelo trabalho dele (e, consequentemente, por ele). Ainda muito novinha, adotei Jack Esqueleto como meu personagem favorito, e assisti Beetlejuice mais vezes do que consigo contar.

Então, em 2003, no ápice do meu amor infantil, ele lançou “Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas”. O filme é uma adaptação do livro de Daniel Wallace (que leva o mesmo nome do filme em inglês, “Big Fish”), e também foi o responsável pelo início de um amor enorme por Ewan McGregor, que dura até hoje.

Não me lembro da primeira vez que o assisti, porém me lembro claramente de chorar quando a voz agradável de Eddie Vedder anunciou que “o homem da hora” recebera seu aplauso final.

Todas as vezes que paro para ver o filme, penso em meu avô. Vejo uma semelhança enorme entre o protagonista, Edward Bloom (Ewan McGregor e, quando mais velho, o maravilhoso Albert Finney) e ele. Assim como Edward, meu avô gosta de dividir com todos as histórias de sua vida, e foi ele, inclusive, que me fez gostar tanto de ouvir as histórias das pessoas.

No filme, o filho de Edward, Will (Billy Crudup), volta com sua esposa grávida à casa do pai porque ele está à beira da morte. Enquanto tenta se reaproximar do pai, ele precisa ouvir as mesmas fábulas que já ouviu diversas vezes e que, honestamente, não acredita serem reais. Apesar do ceticismo de Will, todos se maravilham com os contos de seu pai, e o consideram um ótimo contador de histórias.

À medida que o tempo passa, em meio a relatos que envolvem bruxas e membros de um circo, Will começa a acreditar um pouco mais em seu pai, e a deixar para trás a separação entre realidade e ficção. Ele aceita o “mundo de fantasias” no qual Edward vive.

Durante todo o filme, o espectador não tem a confirmação de que as lendas de Bloom são verdadeiras, e essa questão sempre me intrigou, porque eu também não tinha confirmação alguma de que aquilo que meu avô me contava era verdade. Ele, aliás, costuma dizer que teve 395 namoradas durante sua vida, e inventou um sobrenome fantasia que repetia quando eu era pequena.

Hoje, reassistindo Peixe Grande, não consigo deixar de pensar que é uma metáfora linda e apropriada para a vida. Nunca temos certeza de nada, mas algumas incertezas tornam a viagem bem mais agradável, não?

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.

  • Marina Cavalcante

    Texto lindo! Parabéns 🙂