Parisiense por acaso


Texto: Bruna Kalil // Arte: Gabriela Schirmer Mauricio

Trilho o caminho das pedras pelas ruas de Paris. Passo pelo Arco do Triunfo, feminina etérea triunfante. No próximo instante, me vejo no Moulin Rouge, faço pole dance e saio de lá com ares de charuto e muito dinheiro pelas minhas partes íntimas. As esquinas têm cheiro de champagne, anos 20 30 40 cinquenta quilômetros por hora no bondinho. Meu vestido beira os joelhos no limite entre clássico subversivo e recatado do lar. Possuo franjinhas, que aparecem no meu rebolado pomposo alegre. A miúda sombrinha solene com suas duas funções – o sol o charme – enfeita e adorna o meu ar irrevogavelmente parisiense.

Entro no Louvre com cadernetas na bolsa, e penas, e mãos prontas para registros reflexões. Aquela pirâmide quase esbarra numa esfinge decifra-me ou devoro-te Louvre eu te louvarei podes me devorar engolir mastigar-me com-ple-ta-men-te. Danço no poste pelos bistrôs rendas francesas pequeninos restaurantes charmosos e flerto com o garçom enchanté mademoiselle oui oui compartilho com ele a minha solidão.

Assim que entrei na faculdade de Letras, li um texto chamado “O Não-Lugar da Literatura”, da Eneida Maria de Souza. Antes de formular esse ensaio espetacular sobre a literatura e o seu (não) lugar na sociedade, ela cita dois trechos sobre Paris e a bagagem literária de supostos turistas Nasce-se para entender a França; o entendedor de Paris não se faz. E aquele outro que diz Esta noite quem sabe, se eu for olhar de perto a fachada de Notre-Dame, sou capaz de ver lá em cima, perto do sino, o perfil de Quasímodo (e Esmeralda andará por aí). É por isso que, no jardim de Luxemburgo, ainda há pouco, vi Jean Valjean levando pela mão Cosette, que tossia. “Os Miseráveis” e outros romances lidos na meninice andam a seguir-me os passos neste fim de tarde.

O meu corpo nunca foi a Paris. Mas eu já.

Conhecer cidades culturas continentes não é apenas questão de espaço. Lendo, imaginando – ora eu sempre fui tão criativa – posso ir a qualquer lugar qualquer espaço E FUI. Toquei o sino com Quasímodo andei pelo esgoto com Valjean e Marius me prostituí vendi meus cabelos dentes a dignidade com Fantine fui coisa miserável, suspiro de angústia enchendo o espaço, vontade de chorar, coisa miserável, miserável mas ainda um pouco mineira tupiniquim.

Sou miserável, miserável. Porque eu, no alto dos meus privilégios, tive acesso à passagem secreta – tal como a famosa rede de esgotos, que durou tantos capítulos – que leva a Paris sem nos transportar a Paris.

Fui e não fui. Sou e não sou. Nasce-se para entender a França? O entendedor de Paris não se faz? Ora. Faz-se, sim, fiz-me, me farei. Eu me faço, página por página, parcialmente corcunda pro-fun-da-men-te miserável. Mas, por alguns instantes, parisiense legítima: ficcional.

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Sobre Bruna Kalil

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/