Para que o mundo nos note


Texto: Amanda Tracera

No semestre passado, a minha professora de Teoria Literária III decidiu dar um curso baseado nas questões principais que rodeiam o ato de ler. Por que lemos, onde lemos, o que significa ler atualmente, para onde o livro vai, etc. Dentro da faculdade de Letras, era um debate importante, que poderia ter sido muito maior e mais intenso, mas que, de diversas maneiras, mudou a minha forma de enxergar o objeto que mais tenho em mãos há muito tempo.

Eventualmente, ele correu para outras questões. Escrever se tornou um tema muito mais central do que ler, não porque éramos todos autores que precisavam desesperadamente falar do que significa colocar algo no papel e submeter esse algo às pessoas, mas simplesmente porque, antes de lermos o que quer que fosse, alguém um dia precisou escrever. E o que é que motiva a escrita, afinal?

Alguém – já não me lembro quem – disse um dia que escrever era uma forma de lembrar. Que se escreve porque existe um medo gigantesco que paira sobre todos nós de deixarmos de fazer parte do mundo, de sermos esquecidos. Colocar palavras num livro é uma forma de tentar viver para sempre – ou pelo menos até que aquele livro se perca, se queime, desapareça. É por isso que existiu, ao longo da nossa história, uma tentativa cada vez maior de se acumular escritos, de se registrar o que estávamos fazendo, quando e porquê. E, ao analisarmos direitinho, essa tentativa ainda está aqui, ainda pesa sobre a nossa existência. Existem milhares de motivos que nos fazem pegar um lápis e riscar umas palavras num pedaço de papel, mas o mais básico de todos eles, e o que talvez esteja intrínseco a cada um de nós e portanto acaba passando despercebido, é esse: a gente escreve porque é assim que a gente prova que algo aconteceu de verdade; a gente escreve para não esquecer.

Quando penso nesse medo de desaparecermos do mundo, de não sermos lembrados, é óbvio que a primeira figura que me vem à mente é Gus Waters. John Green criou um personagem cheio de defeitos e, é claro, de qualidades, mas acho que a frase que mais caracteriza o menino-metáfora é a primeira grande fala dele no livro, ou seja, I fear oblivion.

É um momento caricato demais, eu acho, colocar um jovem de seus dezessete anos para falar, no meio de uma roda cheio de pessoas com câncer, sendo ele mesmo alguém que perdeu parte da perna para essa doença horrível, que o maior medo da sua vida é ser esquecido. É, como ele vem a dizer alguns capítulos mais tarde, não ter uma morte que seja impressa em jornais e afete o mundo inteiro. Porque isso faz com que ele não se sinta especial. Só passageiro. Esquecível. Jamais eternizado em um pedaço de nada, a não ser nas poucas pessoas que conheceu ao longo do seu trajeto, e que também morreriam em algum momento. E fim.

Digo que essa é a grande frase do Gus porque é na vontade de ser importante que todas as grandes ações dele parecem existir. É por amor, claro, mas também porque isso faria dele alguém relevante que ele viaja para Amsterdã com a (futura) namorada para conhecer o autor favorito dela, embora o câncer o esteja devorando por completo. Ele mesmo assume isso, ao dizer que foi egoísta não contar a ela. E é – porque ele não faz pela viagem, faz pelas memórias que a viagem vão manter na Hazel. E não à toa, depois de morrer, descobre-se que ele deixou justamente a coisa mais duradoura do mundo – palavras. Como eu disse ali em cima, a forma mais séria de tentar continuar existindo para sempre.

A gente – eu, você, Gus Waters – tem essa ideia de que ser reconhecido é justamente ser grande o suficiente para que o mundo inteiro nos note. E talvez não exista em cada um de nós o desejo desesperado de sermos relevantes para o resto da Terra; talvez nos baste a sensação de que somos (fomos) relevantes para alguém específico. Mas nunca nos parece escapar a certeza de que ser alguém inesquecível é ser também alguém cujos feitos foram tão grandes, tão únicos, que não basta um punhado de pessoas saber o seu nome e agradecer pela sua existência; é necessário que existam cabeças a se perder de vista; é necessário que esteja escrito em algum lugar.

Acontece que ser lembrado vai além de estar nos livros de história ou ter a morte impressa em páginas e mais páginas do New York Times. Ser lembrado é o desejo mais ingênuo do mundo, como Hazel Grace nos diz tão logo Gus assume seu maior medo. Um dia, não vai existir mais ninguém, bom ou mau, importante ou esquecido. Nenhum nome vai ecoar sobre a Terra porque estaremos todos igualmente longe dela. Um dia, tudo termina e o desejo de marcar pessoas demais se perde no pó e no vazio que fica. O mesmo com a escrita: se escrevemos porque queremos de alguma forma tornar eterno o que já acabou, escrevemos em vão. Um dia, não só a linguagem não fará mais sentido, não haverá mais quem escreva, não haverá mais quem leia, não haverá mais o material escrito. Numa comparação direta, somos todos bibliotecas de Alexandria esperando pelo incêndio; acúmulos de histórias que eventualmente deixarão de ser.

Essa busca por glória – que move o Gus e, de alguma forma, que move todos nós – e pela eternidade nos atrasa e nos tira o foco do que é real, necessário, importante. A efemeridade das coisas não deveria nos afetar tão negativamente – pelo contrário. O viver para sempre nos fez criar realidades absurdas e desejos impossíveis, e isso tudo porque ninguém quer parar para pensar que, no macro das coisas, nada disso importa. Hitler e o tio que vende pipoca na esquina do colégio, Coco Chanel e a moça que esbarrou cerveja na sua camisa uma vez no bar; daqui a milhões de anos, ninguém se lembrará de nenhum dos dois, reconhecerá nenhum dos dois.  

Da mesma forma que não lembramos mais dos inúmeros trabalhos perdidos de poetas que não conhecemos; dos romances que alguém um dia leu e nunca chegaram até nós; das pessoas que mudaram vidas e se perderam na história. Escrever para lembrar é uma tentativa fadada ao fim certo. Viver para a glória também.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.