Para as garotas que vivem nos cantos


Texto e arte: Luísa Granato

“Porque você não conversa com elas? Ali, vai fazer algumas amigas. Olha, aquelas meninas têm a mesma idade que você, vocês vão se dar bem…”

Esse era o começo de um filme de horror na minha adolescência. A ideia de que eu poderia chegar em um grupo de desconhecidos e simplesmente bater um papo parecia absurda, impraticável, uma ficção maior do que alienígenas invadindo a terra ou minha mãe me deixando jantar sorvete.

Mesmo hoje, comemoro cada interação social feita com sucesso.

Por muito tempo, na escola, eu era a menina quieta e tímida. Eu me definia e me deixava definir assim, embora fosse um incômodo constante. Afinal, não era como eu deveria ser. Timidez não era tratada como uma qualidade desejável, mas um impedimento para que eu fosse um ser humano social completo e bem sucedido.

Então, na minha cabeça, quando falavam como eu era tímida, isso queria dizer mais uma coisa: incapaz. Essa era quem eu era e eu sabia que estava vivendo sem um requisito básico.

Eu poderia ser melhor. Eu poderia falar com aquelas meninas, fazer mil amigos, ser popular, mais legal, mais completa. Mais de tudo e melhor em tudo.

Mas eu não conseguia.

A coisa mais difícil foi perceber que eu não precisava ser o que as pessoas esperavam que eu fosse. Depois, perceber que eu não precisa sempre fazer sentido. Por último, entender que eu posso ser várias coisas ao mesmo tempo.

É fácil estabelecer limites para os outros. Também é fácil aceitar os limites que o mundo e você se impõe. No entanto, é muito difícil levar uma vida dentro dessa bolha. O mundo acontece lá fora, com oportunidades que pendem entre o maravilhoso e o terrível.

E eu estava cansada de desejar um e temer o outro.

Por muitos anos, eu vivi com várias barreiras que definiam minha personalidade e me separavam do mundo. Pouco entrava e eu lutava para que nada saísse. Não deveria ter sido um choque quando tudo o que meus colegas de escola podiam dizer para me descrever no final do colegial era “tímida” e “misteriosa”.

É bem decepcionante ter anos de convivência e ser resumida a só duas palavras.

Como costuma acontecer, a mudança real não veio com a explosão, mas com os leves estalos que a seguem. Acabou a escola e, pela primeira vez, eu não era mais nada. Comecei o cursinho e depois a faculdade, ambientes novos em que eu não conhecia ninguém e ninguém sabia quem eu era.

Eu estava novamente no canto da festa, com uma tia – ou minha mãe – me falando para conversar com as pessoas. Esse vai ser sempre um eco na minha cabeça. Que eu poderia ser a pessoa que toma a iniciativa e que fala com qualquer pessoa. Aquela que tem o dom de fazer amigos na fila do supermercado.

Mas eu sou a pessoa que pensa em todas as consequências terríveis que o primeiro oi pode criar. E que prefere um amigo querido no canto da festa a uma plateia de pessoas me escutando. Sempre vou ser introvertida. O resto de mim posso construir a partir ou apesar disso. Eu era um pedaço introvertido de papel em branco.

Sair do meu canto doeu só das primeiras vezes. São escolhas e esforços constantes para se aventurar no mundo dos extrovertidos. A maioria ainda não entende. Mas valeu a pena quando encontrei as pessoas que consigo dizer sim sem nem pensar e que nunca pedem mais do que eu posso oferecer.

O importante é que carrego comigo uma coleção de situações absurdas que desafiam todos os “nuncas” da minha adolescência tímida. Tive um grupo barulhento de amigos no cursinho, falei com estranhos na recepção de calouros da faculdade, dei aula de português para um sala cheia, viajei sozinha e fiz amizades em quartos de hostel. Já aconteceu de bater papo com a pessoa do meu lado no transporte público ou encarar a temida “conversa de elevador” de boa. Eu sou a única que pode falar o que eu sou e o que posso, sendo introvertida e o que mais quiser.

E no final, volto sozinha para o meu cantinho com meu livro e um chá para recarregar as energias com a sensação de ser muito maior. Eu vim, vivi, venci.

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Sobre Luisa Granato

Luísa é jornalista e eterna potterhead. Sua casa é a grifinória, mas ela lê como uma corvinal e podia ser a Luna Lovegood. Viajante (inclusive do espaço e do tempo), ela ama ficção científica e histórias fantásticas.

  • Luciana Truzzi

    Sou muito tímida, mas consigo não ser, qdo necessário… Mas ainda prefiro meu livro e chá num canto qqer…

  • Anne Oliveira

    Me identifiquei muito com esse texto, principalmente no discurso do colégio. A maioria só sabia dizer que eu era a quietinha da sala

  • Sonia R R Rodrigues

    Como eu compreendo essa situação. Minha estratégia era procurar por alguém tão introvertido como eu e dar uma apoio:
    “Está procurando por algo?” Ou “Será que eu posso ajudar?” Geralmente podia, sim, e era o início de um papo, de uma amizade com outra quietinha como eu.