Para Ana Cristina César


Talvez entenda a angústia que te fez querer voar, e te imagino por alguns segundos assim, suspensa, no espaço entre o imenso e a terra que te acolheu de forma tão bruta. Da tua pasta rosa, o desassossego, o engasgo: a palavra de som oco capturada pelo gesto aflito em uma máquina de escrever. O cigarro penso na boca, as linhas escapando dos orifícios todos, escorrendo em tinta esferográfica pelos cômodos, a expansão dos teus versos manchando de negro quem só queria se fazer escutar e acarinhar o peito, grave, silencioso no assombro da vida.

A fotografia congela tua pose atrás dos óculos de sol. Imagino a ponta dos dedos com a tinta azulada do mimeógrafo, as folhas sendo distribuídas pela sala como uma dança, escapando para a rua, virando tropeço. Tua pasta, densa como uma bíblia avessa, pousa sobre a escrivaninha como um lembrete: e debulho as linhas, corrigindo seus recortes rápidos de forma que eles possam se ajeitar em mim e eu possa também ser Ana, ter nome derivado de cristo e título de César. Queria tanto saber vibrar com força como vibram as suas pausas. E saber dar esse grito para dentro, deixando escapar pelo canto da boca apenas as palavras essenciais, sem esses parnasianismos do sentidor, vaidoso, tentando descrever tudo. Queria essa sua pontualidade construída no martelo: tendo cada ponto final como um golpe. E devoro tua intimidade me posicionando nas entrelinhas, mergulho no espaço aberto dos As e tomo tudo aquilo como se saído também de dentro de mim. Ana, certa vez li que a literatura ajuda a gente a olhar a vida, nos seus detalhes. Contigo aprendi a prestar atenção nos poemas gratuitos distribuídos por telefone, sem perder nenhum: e a arranhar no papel alguns, que guardo só para mim.

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