‘Papai pernilongo’, Jean Webster


‘Papai pernilongo’, publicado em 1912, conta a história de Jerusha Abbott, uma órfã de 17 anos que é enviada para a faculdade por um benfeitor anônimo depois que este lê uma das bem-humoradas histórias que ela escrevera enquanto vivia no orfanato. O benfeitor enxerga potencial na escrita de Jerusha e, com a intenção de ajuda-la a se transformar em uma escritora, se dispõe a bancar suas despesas durante os quatro anos de estudo. Em troca, ele pede apenas que a menina escreva cartas a ele, para mantê-lo informado sobre seu progresso nos estudos, porque acredita que a atividade de escrever cartas é a melhor maneira de desenvolver uma melhor expressão literária, e Jerusha não tem mais ninguém para quem escrever.

A partir do momento em que Jerusha vai para a faculdade, logo nas primeiras páginas do livro, ele se transforma num romance epistolar, narrado por inteiro em forma de cartas. O diferencial é que a comunicação dentro desse romance é unilateral: de Jerusha para o “papai pernilongo” – a menina só o vira, de longe e rapidamente, uma única vez, e a característica na qual conseguiu reparar foi na altura do homem, por isso, é assim que ela o chama. Apesar de diversas tentativas por parte da menina de obter uma resposta, ela é sempre deixada no escuro. ‘Papai pernilongo’, o romance, é quase como um diário de Jerusha, ainda que ela esteja se comunicando com outra pessoa, e que eventualmente fique claro que alguém está lendo as cartas.

‘Papai pernilongo’ (ou Daddy-Long-Legs, no original – a versão que eu li) é um romance juvenil com mais de cem anos, mas completamente capaz de entreter um leitor do século XXI. Ele é curto (o epub tem pouco mais de cem páginas) e a leitura é fácil e fluida (aliás, recomendadíssimo para quem está começando a ler em inglês, porque a linguagem é bem tranquila e, para melhorar, o livro já está em domínio público). Jerusha recebe sua bolsa de estudos graças a seu potencial como escritora e a seu senso de humor, e Jean Webster mostra ambas as características ao longo da narrativa, fazendo de Jerusha uma boa narradora e uma menina muito espirituosa: dei gostosas gargalhadas ao longo da leitura.

A professora de inglês disse que meu último trabalho apresenta uma quantidade incomum de originalidade. Ela disse, de verdade. Essas foram as suas palavras. Não parece possível, parece, considerando os dezoito anos de treinamento que tive? O objetivo do Lar John Grier (que você sem dúvida conhece e aprova de todo coração) é transformar noventa e sete órfãos em noventa e sete gêmeos.

Outra ótima característica do livro (e de Jerusha), é que eles levantam alguns questionamentos bem bacanas, principalmente se levarmos em consideração que essa é uma história publicada na primeira década do século passado, sobre a maneira como as pessoas pobres são percebidas e tratadas, sobre algumas expectativas que recaem apenas e exclusivamente sobre as mulheres, sobre o voto feminino ou sobre religião. Jerusha não é uma contestadora nem uma rebelde, mas elas faz alguns comentários ácidos sobre as situações que vive.

Acabei de voltar da igreja – um pastor de Georgia. Nós devemos tomar cuidado, ele diz, para não desenvolvermos nosso intelecto em detrimento de nossa natureza emotiva […]. Por que diabos eles não vão às faculdades masculinas para incentivar os alunos a não permitirem que suas naturezas viris sejam esmagadas devido à aplicação mental demasiada?

Como ponto negativo, fica o eventual desenvolvimento de um romance dentro da história, mas que não toma grande parte dela. Nada contra desenvolvimento de romance num típico coming of age (inclusive tudo a favor, porque gosto muito), mas o problema, às vezes, de ler uma história escrita cem anos atrás é que certas coisas não pareceriam creepy na época, mas parecem hoje.

‘Papai pernilongo’ não apresenta uma grande história, não é impactante e provavelmente não vai mudar sua vida – mas se estiver procurando uma narrativa divertida e uma narradora espirituosa e quiser saber um pouquinho sobre como era a vida de uma universitária há cem anos, vale a leitura. Pelo menos algumas gargalhadas já estão garantidas.

Suponho que não importe nem um pouco se elas são burras ou não, desde que sejam bonitas? É impossível não pensar, no entanto, em como suas conversas vão entediar seus maridos, a menos que tenham a sorte de arranjar maridos estúpidos. Suponho que isso seja bem possível; o mundo parece estar cheio de homens estúpidos; conheci vários nesse verão.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.