Paixão é a ilusão mais gostosa que existe


Texto: Marina Cavalcante

Para escrever este texto, pensei nas mais diversas formas de ilusão: a vida online; o passado; o dinheiro; relacionamentos amorosos abusivos; vida profissional. Logo de primeira, julguei a ilusão como algo negativo, de que a gente deve se livrar. Depois de muito pensar, me veio na cabeça uma música cantada por Marisa Monte chamada “Ilusão”. Entre um e outro verso, ela diz mais ou menos assim:

“Uma vez eu tive uma ilusão e não soube o que fazer com ela. E ela se foi. Porque eu a deixei? Não sei. Eu só sei que ela se foi”.

Me sinto exatamente assim quando estou apaixonada. Parece que bate um vento bom, repentino, que balança meu cabelo, levanta meu vestido, me faz ficar arrepiada. Quando o vento passa, fico com saudade (do vento e do que o causou). E só consigo me perguntar o mesmo que a música: Porque eu a deixei? E realmente não sei, eu só sei que ela, a paixão, se foi.

Marisa me fez perceber que a paixão é a ilusão mais gostosa que existe. Num mundo de duras verdades, alguma parte da gente tem que criar doces ilusões, e a paixão é uma delas.

Dia desses assisti na televisão um programa sobre casamentos. Em uma das cerimônias, a pessoa que a regia mandou trazer duas taças com bebida alcoólica para serem bebidas pelos noivos antes dos seus votos. Segundo ela, o amor não deve ser vivenciado com a razão, e as taças de bebida iam ajudar no desprendimento do lado racional do casal.

Taí uma coisa que eu faria se me casasse. Ia ajudar meu lado racional a relaxar.

Infelizmente racionalizo muito tudo, apesar de sofrer tanto quanto uma pessoa que não racionaliza nada e se deixa levar. Meu lado racional é tão chato que fica querendo dar explicação pra coisa em que ele não foi chamado. Quando me apaixono, ele sabe dizer os por quês pelos quais me apaixonei por determinada pessoa: fase da vida, época do ano, histórico de alegrias e histórico de sofrimentos. Meu lado racional explica o tipo físico, a barba ou a não barba (sempre melhor com barba), o estilo de se vestir, gosto musical, vida social e até posição sexual preferida da pessoa por quem acabo gostando.

Se a paixão é uma ilusão, e se tenho medo de me iludir, será que me prendo demais no quesito coração? Tenho medo da paixão naquele momento em que a realidade diz “olá” e deixo ela entrar. É quando percebo que aquele sentimento não passou de uma ilusão – criada e editada por mim -, e que agora está sendo colocado a teste pela razão. Passando ou não nesse teste, existem paixões que foram tão boas que empurro meu lado mais pé no chão pra lá e abraço cada minuto de ilusão que vivi.

De fato, quando a gente está enxergando as coisas de dentro de uma paixão, é difícil enxergar de qualquer outro ponto de vista menos embriagado de emoções. A gente tem que perguntar ao coração o que, daquilo tudo, é verdade e o que não é. O coração, sempre muito sincero, vai responder que se vem lá de dentro, é verdade sim, mesmo quando não passa de uma ilusão.

Por essas e outras que sinto minha mente, sempre tão certinha e racional, pedindo pra se apaixonar e pra se iludir. No finalzinho da música, a própria Marisa Monte canta e lamenta quando deixa uma ilusão escapar: Porque não me deixei tentar vivê-la feliz?

É mais feliz quem permite se iludir, mesmo sabendo que a ilusão confronta tudo o que a razão defende.

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Sobre Marina Cavalcante

Também conhecida como Marina Brazil, a escritora de 25 anos é nascida e criada em Recife, Pernambuco. Formada em Jornalismo pela UFPB, Marina realiza a Feira Cria (@feiracria), uma feira de arte impressa e publicação independente originada em João Pessoa – Paraíba, seu atual endereço. Já morou em Campinas (SP) e em Melbourne (VIC), na Austrália. Planeja chamar de lar uma nova cidade no mundo em que lhe faça sentido aprender, rir, chorar e amar. Brasil e Nordeste, além de origem, são identidades mas não necessariamente destinos. Escrever é verbo presente. Para mais de Marina, visita o blog dela: marinabrazil.com.br.