“Ouro, fogo & megabytes”, Felipe Castilho


 

Eu conheci Ouro, fogo & megabytes na época em que trabalhava no setor infantojuvenil de uma das livrarias pelas quais já passei. Li sinopse, algumas páginas do começo, algumas resenhas de blogueiros que confiava e indicava na base do “eu não li, mas conheço fulana que leu e adorou”. Por que eu indicava se ainda não tinha lido? Porque tinha gostado da ideia do livro e pretendia ler em breve. Mas sempre acontecia como acontece com todos os meus outros livros: o em breve nunca chegava porque… não faço ideia.

Então eu conheci o Felipe Castilho num momento do livro nessa mesma livraria. Apresentando os livros da editora, quando ele disse algo tipo “e tem meu livro!” pensei AH ENTÃO É DAÍ QUE EU CONHEÇO ESSA PESSOA! Porque quando ele entrou, eu sabia que já tinha visto aquela cara em algum lugar, mas não lembrava de onde. Aí lembrei: da orelha de Ouro, fogo & megabytes. Aí eu quase arranquei o livro da mão dele e acabei ganhando esse e a sequência, autografados. Passou um tempo, o “em breve” chegou, eu li o primeiro e confirmei que era tão sensacional quanto eu tinha achado que seria.

Os anos passaram, chegou a hora de escolher o tema de outubro da Pólen, e quando ficou decidido que seria lendas, já pedi dibs na resenha do primeiro volume de O Legado Folclórico. Seria como matar dois coelhos com uma cajadada só (metaforicamente falando, afinal eu não tenho essa vibe Glenn Close em Atração Fatal): faria a resenha, que eu achava que já tinha feito mas nope, e aproveitaria pra reler, já que o terceiro tinha sido lançado e eu queria relembrar as coisas direito.

Reli, e o livro continuou tão sensacional quanto da primeira vez.

E eu até poderia ficar falando da história, que é ótima, mas sabe a parte mais legal? A gente reconhece tudo, e não porque leu algo parecido em outros livros ou porque aprendeu meio por osmose nas internets da vida.

A gente reconhece porque já passou por isso.

Todo mundo já teve uma aula de educação física que foi um porre porque não gostava de esportes. Todo mundo já teve aquele cara babaca ou aquela menina chata que implicava com todo mundo. Todo mundo já passou mais tempo do que deveria na frente do computador. Todo mundo já foi hostilizado por alguém sem ter muita certeza do porquê. Todo mundo já deu de cara com coisas novas e mudou de opinião. Todo mundo já viu as coisas por uma nova perspectiva. Todo mundo já conheceu e se decepcionou com pessoas que não eram bem aquilo que a gente achava que era. E todo mundo já fez merda com alguém. Todo mundo já foi Anderson, todo mundo já foi Tina, todo mundo já foi Elis. Às vezes a gente já foi o Wagner Rios de alguém sem nem saber. Todo mundo já foi a Cuca ou o Saci de alguém.

A gente reconhece porque é nosso.

Porque antes da Disney e dos deuses gregos, a gente dormiu com medo do boi da cara preta, ou teve medo de dormir porque a Cuca podia vir pegar. Todo mundo já pulou numa perna só que nem saci. Todo mundo já tentou virar o pé pra trás que nem o curupira. Quem lembra da Caipora do Castelo Rá-Tim-Bum? Do saci do Sítio de Pica-pau Amarelo? Todo mundo já brincou com parlendas, trava-línguas, cantigas de roda. Tudo isso é tão presente quando a gente é criança, em que momento da vida a coisa desanda e a gente esquece o quanto isso tudo é divertido? O quanto é bonito? Ou assustador?

A pergunta é a sério. Quando é que a gente decide deixar tudo isso pra lá? Porque não devia. Porque tem tanta coisa pra mexer, pra adaptar, pra brincar, taí Ouro, fogo & megabytes pra mostrar que dá sim pra trazer folclore brasileiro pro infantojuvenil contemporâneo com um resultado sensacional. Dá pra botar a Cuca pra aterrorizar São Paulo sim. Dá pra ter um meio-caipora sim. Não, não fica esquisito. Fica o máximo.

Tem muita coisa nossa pra explorar. É só começar a olhar pra dentro.

Tem muito Anderson e muito Patrão por aí só esperando a chance de ser escrito.

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