“Ouça a canção do vento & Pinball 1973”, Haruki Murakami


Texto: Analu Bussular

Eu imagino que todo escritor tenha sua semente. Aqueles rascunhos, publicáveis ou impublicáveis que já davam indícios do que ele viria (ou procuraria) ser. Conheci Haruki Murakami em 2015 com 1Q84, e depois disso decidi que gostaria de ler muito mais. Depois de outros 4 lidos, não foi difícil captar seu estilos, seus gostos e até, por que não, seus cacoetes de escrita e desenvolvimento. Agora, ao ler Ouça a canção do vento & Pimball 1973, lançamento da Alfaguara que reúne as duas primeiras novelas do autor, foi mais claro ainda tomar nota de tudo isso.

Descrevendo da forma mais bruta possível, Ouça a canção do vento conta a história de um estudante de biologia recordando seus amores do passado e Pinball 1973 fala de um tradutor apaixonado por uma máquina específica de Pinball que desaparece – e então ele resolve ir em busca dela, mesmo que para isso precise percorrer caminhos bastante inusitados.

A melhor parte de ter entrado em contato com esse livro foi, depois de já ter um certo conhecimento da obra do autor, descobri de onde tudo aquilo veio, e como eu disse no primeiro parágrafo, já estava mesmo tudo ali.

A queda pelo realismo fantástico? Check. As histórias sem começos específicos e com finais abruptos? Check. As descrições de personagens? Check (Pausa: Murakami, por que todas as mulheres dos seus livros são evidenciadas por terem peitos pequenos? Só curiosidade mesmo. Despausa). A falta de importância das idades dos personagens? Check.

Nessas duas novelas a gente percebe o claro caminho que o autor, então estreante, buscava alcançar. Coisas bizarras acontecem sem explicação nenhuma. Cenários diferentões, personagens tentando entender alguma coisa da vida, ligações românticas sem muita importância e idades que não fazem a menor diferença. Se você ler, vai notar que entre um personagem de 17 anos e um de 30 não existe distância nenhuma, é como se os dois pensassem, falassem e agissem da mesma forma. A princípio considerei como falta de profundidade, mas estou até agora em dúvida, vai que é escolha do autor? Se isso pode ser justificado como escolha aí já é da conta de cada um, eu confesso que preferia encontrar pessoas de 17 anos que se parecessem mais com pessoas de 17 anos. (oi?)

Não tem muito mais o que possa ser entregue das histórias sem contar spoiler, mas uma dica que eu dou é que leitores que estejam afim de encarar Murakami não devem começar por elas. Acredito que sejam um bom complemento, tipo o cafezinho depois da sobremesa, mas não empolgam muito enquanto aperitivo. Talvez seja o caso de anotar mentalmente essa dica de ler os primeiros rabiscos de um autor só depois de já conhece-lo melhor e, então, conseguir compreender aquilo de uma melhor forma.

O prólogo do livro ainda vem como um bônus: o próprio autor falando um pouco de seu processo de escrita! Que leitor apaixonado e/ou pseudo-escritor não gostaria de uma palhinha dessa vindo de cada um de seus autores favoritos? Pois bem, agora vou dar um spoiler: Murakami prefere escrever seus livros em inglês e depois trazê-los de volta ao japonês, isso porque ele diz que prefere escrever com um vocabulário reduzido, pois se fosse fazer isso em sua língua original o texto certamente ficaria cheio de palavras em excesso. Não deixa de ser uma linha interessante, né? Agora pronto, não falo mais, confira você mesmo.

(A parte disso, não tem como não falar que a edição está maravilhosa, em capa dura, com corte colorido, misturando laranja e rosa pink neon. Toda estante Murakamista merece um presente desses, vai por mim.)

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.

  • Primeiro: que decisão curiosa da Alfaguara de lançar os dois livros juntos. Ela deve ter imaginado que, por serem novelas do início da carreira do autor, não teriam assim tanto apelo…
    Bom, como bom fã do Murakami, vim logo ansioso para ler o post, cujo assunto muito me interessa. haha Gostei bastante da resenha: não foi longa demais e me passou todas as informações que eu gostaria de saber. Realmente, existe um padrão do qual o Murakami não parece fugir muito (e olha que eu só li dois livros dele, mas algo me dizia que as semelhanças não eram meras coincidências); confesso que isso começou a me incomodar um pouco, mas mesmo assim continuo ansioso para conhecer mais de suas obras. Vou, porém, seguir sua recomendação e deixar esta para mais adiante. Agora, é bem verdade que o prólogo me intrigou muito e adorei saber dessa curiosidade que ele escreve antes em inglês! Isso é que é empenho! (outra coisa que me instiga demais é saber como se dá a tradução dos livros dele e o quanto a gente acaba perdendo do sentido original — se forem traduzidos direto do japonês)
    Enfim, ótimo post! 🙂