Os monstros


Texto: Paloma Engelke // Arte: Bianca Albino

Abri a porta com cuidado com medo de alertar os monstros da minha presença. Até agora ainda estávamos vivendo em relativa harmonia – eu andando na ponta dos pés, sempre pisando em ovos, e eles se escondendo nos armários e embaixo dos móveis, agindo discretamente.

Entrei silenciosamente, aliviada por encontrar lá dentro a sala vazia, iluminada pela claridade do fim da tarde que em breve iria embora. Pendurei a bolsa em uma cadeira e sentei sozinha bem no meio do sofá, tentando ocupa-lo todo com a minha presença e não deixar espaço para o vazio. O sofá que compramos juntas tanto tempo atrás.

Aquele sofá foi nossa primeira aquisição conjunta. Antes até da cama. A nossa maior pequena alegria era passar nele as tardes de sábado, lendo, assistindo filmes, conversando bobagens e trocando cafunés. Não fazia tanto tempo assim que a gente se conhecia, mas ainda parecia que tudo daria certo. E deu, por sete anos.

Há quanto tempo não éramos mais aquelas pessoas? Quando começamos a crescer em direções opostas? Quando foi o começo do fim? Faz muito tempo que não passamos tardes naquele sofá, os risos já não são mais muito frequentes.

Continuo sozinha, encarando o vazio, e ao mesmo tempo eu vejo o eco de nós duas ali na minha frente, no meio da sala, gritando coisas horríveis uma para a outra. Tão alto que com certeza até a velhinha surda que mora quatro andares acima de nós ouviu. Mas há meses até as brigas pararam. Ficaram só o silêncio e os monstros atrás das cortinas.

De um dia para o outro, o único som era o tom de voz monótono do apresentador do jornal da manhã que eu ouvia de relance enquanto me arrumava para o trabalho e você ainda dormia. Ou você falando com algum cliente no telefone no fim de semana, o chuveiro, o apito do micro-ondas. Pequenos sinais de que de alguma forma ainda existia vida naquele apartamento de 40m².

Mas as palavras que saíam da boca, essas eram cada vez mais vazias e mecânicas. Algo sobre conta de luz, supermercado, um boa noite rápido antes de virar para o outro lado. Ou nada, você trabalhando até tarde naquele mesmo sofá e fingindo cair no sono ali mesmo.

Os toques também foram diminuindo em progressão aritmética com o passar do tempo. Se no começo as brigas acabavam sempre na cama e tudo estava esquecido quando o sol levantava no dia seguinte, com o tempo viramos duas estranhas dividindo a mesma cama. Um beijo era tão raro quanto um tucano em uma rua de São Paulo. Um carinho, um cafuné, tudo parecia memória distante de outras vidas. Nem eu pareço mais eu, nem você parece mais você.

Na minha cabeça ainda existe o nós de antes, no meu coração eu ainda te amo como naquela época. Do lado de fora tudo é muito diferente, como numa realidade paralela. Nós não somos mais a gente. O mundo de dentro e de fora não se correspondem mais, e eu tenho vontade de correr antes que tudo de bonito que ainda existe dentro de mim comece a desmoronar também. Mas a ideia de, depois de sete anos, você não fazer mais parte da minha vida; a ideia de seguirmos em direções opostas e tudo o que nós tivemos ficar para trás, como um sonho bom que aos poucos vai perdendo a nitidez; é tudo assustador demais.

O medo da certeza de chegar em casa e encontrar o vazio ainda é maior do que o medo que eu tenho hoje de chegar e te encontrar lá. Mudar dá medo.

No vazio da sala, eu nos vejo dançando uma música lenta que eu não consigo agora ouvir, uma cena que eu tenho certeza que nunca aconteceu na vida real. A nossa valsa da despedida vai se desenrolando ali na minha frente, e se dissipa no ar quando o barulho da chave na porta me acorda do meu devaneio. Meu coração acelera, minhas mãos suam e eu fico tensa.

Você entra, também pisando em ovos, e me encara por alguns segundos como se tivesse sido flagrada fazendo algo muito errado. Seus monstros não estavam embaixo da cama, estavam bem ali sentados no nosso sofá. Nos encaramos, olhos nos olhos, pela primeira vez em muito tempo. E ali estava ele, o fim.

 

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paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.