Os momentos de silêncio


Texto: Sofia Soter // Arte: Gabriela Schirmer

Meu processo de escrita não é nada organizado. Eu escrevo em cadernos se estou na rua, escrevo no Google Docs se estou na internet, escrevo no bom e velho Word se o wi-fi não está a meu favor. Eu escrevo textos inteiros de uma vez, escrevo pedaços soltos que vou juntando ao longo de meses, escrevo parágrafos em poucos minutos e passo mais três horas sem conseguir decidir uma palavra. Eu escrevo ficção, escrevo reportagem, escrevo ensaio, uma ou duas vezes me aventurei na poesia, e é tudo parecido e é tudo diferente.

De qualquer forma, o processo de escrita sempre precisa de um momento de silêncio. Não necessariamente literal – eu às vezes escrevo ouvindo música, às vezes até ouvindo podcast, uma vez ou outra até vendo televisão –, mas no sentido de uma certa solidão, introspecção. Para criar, é preciso esquecer o que vem de fora e se concentrar no que vem de dentro, bloquear os estímulos que nos descarrilham e seguir no trilho do pensamento, das ideias, do que a gente sente e quer colocar para fora.

Esse momento de silêncio me vem das formas mais variadas: é a viagem de ônibus em que me pego tão envolvida nos meus pensamentos sobre uma história que quase perco o ponto; é a corrida na esteira em que todas as energias estão focadas no meu corpo e só sobra na cabeça o que é essencial; é a tarde sentada em frente ao computador com a barrinha piscando na tela em branco e uma xícara de chá; é no clássico banho de chuveiro longo demais, a água quente deixando meus ombros vermelhos em um ritmo quase hipnótico. É nesses momentos em que as ideias se formam, se organizam, começam a se tornar o que pode ser um texto; é nesses momentos que eu crio.

No entanto, esses momentos não bastam. A introspecção, o olhar voltado para dentro, não faz um texto completo, pelo menos não para mim (tenho certeza de que há autores reclusos que escrevem em surtos de inspiração afogados por silêncio). Para que uma criação se torne objeto, é preciso ir além – é preciso começar a conectar aquela voz lá dentro, aquelas ideias que funcionam no fundo da mente, ao que existe fora, ao que existe ao redor; é preciso estruturar os conceitos e sentimentos em palavras inteligíveis, é preciso traduzir a introspecção para uma linguagem que os outros possam acessar.

Mais, até. Se a intenção é criar algo que não se restrinja aos confins de um diário no fundo da gaveta, se escrevo algo para publicação em qualquer forma que seja, o processo exige troca e exposição. O ofício da escrita – de forma profissional, de forma publicada, de forma não profissional mas feita para outros lerem – não é um ofício inteiramente solitário, nem pode sê-lo; é um ofício que envolve também editores, que envolve também leitores. Para que seja um ofício mais satisfatório, para que sua escrita seja melhor, é também um ofício que pode e deve envolver amigos que escrevam e leiam, pessoas com quem é possível trocar ideias, para quem é possível pedir ajuda; quando só tem um par de mãos e um par de olhos e um único cérebro trabalhando no texto, dia após dia, o texto é solitário demais e o escritor (eu, você) perde seu referencial leitor, não consegue distanciar o que é pressuposto que só existe na própria cabeça e o que o texto realmente diz ou transmite.

Quando sinto que terminei um texto, ele ainda é lido e trabalhado pela pessoa que me edita. Em seguida, pelas pessoas que me leem. O texto muda de mãos, muda de olhares, e quebra o silêncio.

Meu processo de escrita não é nada organizado. Mas, sem a busca pelo ponto ótimo entre silêncio e troca, ele não torna criações objetos.

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Sobre Sofia

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora, tradutora e editora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.