Os mistérios de Miss Phryne Fisher


Histórias de época contadas com olhos modernos têm sempre suas vantagens. Podem mostrar camadas e tipos sociais que as obras do período ignoraram por preconceitos, tabus ou simplesmente por acharem que o assunto não seria interessante o suficiente. As histórias de época que trazem a tona narrativas ignoradas são importantes, não apenas historicamente mas também para tornar as obras mais ricas. Nesse contexto se encaixa a série Os Mistérios de Miss Fisher (Miss Fisher’s Murder Mysteries).

De volta ao condado de Victoria após anos na Europa, Phryne Fisher logo decide se tornar uma raridade na época: uma senhorita investigando assassinatos. A Primeira Guerra fez do pai de Miss Fisher um Lorde, e a garota pobre que perdeu a irmã anos antes, volta rica e com objetivos claros: se divertir, ajudar quem puder, e descobrir porque o homem que matou sua irmã fez o que fez.

“Porque estou carregando uma arma.”

Ambientado em 1928, a história da Honorável Miss Phryne Fisher não abrange somente a narrativa da dama da alta sociedade de Melbourne e suas aventuras como uma Lady Detetive. Ao lidar com os mistérios dos assassinatos que parecem sempre a cercar, Miss Fisher também entra em contato com diversos tipos que raramente seriam explorados em narrativas do entre guerras. Homossexuais, traficantes, crianças abandonadas e comunistas não tem suas histórias julgadas nem pela narrativa, nem pela senhorita australiana. Os personagens são expostos de forma humana, até mesmo os assassinos. Não há monstros no universo de Miss Fisher, por mais cruéis que as intrigas que levaram aos assassinatos possam parecer.

Não é necessário saber o que aconteceu historicamente nos anos 1920 para apreciar a narrativa. Porém é interessante ver o contexto em que as histórias são ambientadas. Grande parte dos assassinatos são intrinsecamente conectados a ideologias e assuntos populares da década de 1920 (comunismo, sionismo/zionismo, feminismo, cinema, sindicalismo). Ao mesmo tempo em que, como narrativa de época, a série nos apresenta um universo muito mais rico do que estamos acostumados. Mesmo nas narrativas com histórias contemporâneas.

Solteira, Phryne não hesita em se por em perigo constante ao desvendar os casos que caem em suas mãos. Também não se conforma com as regras da época: mora sozinha com uma governanta jovem, Dot; o mordomo Sr. Butler; e uma filha adotiva, Jane.

Porém Phryne Fisher não é apenas uma versão feminina de Sherlock Holmes. Ela é uma mistura de Indiana Jones, James Bond e o próprio Sherlock, numa versão melhorada dos três. Assim como Ginger Rogers, que fazia tudo o que Fred Astaire fazia mas em saltos e com pedras na bainha do vestido, Miss Fisher também é superior a suas contrapartes do gênero masculino. Faz o que eles fazem e muito mais, com salto alto, chapéus e saias (às vezes também em calças). Tem vasto conhecimento cultural, econômico e diplomático, além de químico e biológico. Conhece armas, venenos, sabe como dançar diversos tipos de dança, como atuar e até mesmo truques de mágica. Dirige carros e pilota aviões, além de fazer acrobacias.

A seu lado tem uma amiga médica (a lésbica Mac), professores acadêmicos, conhecidos do alto escalão do exército e muitos outros especialistas que a ajudam a desvendar seus mistérios. Aparentada à alta sociedade de Melbourne, além de se misturar bem aos níveis mais baixos, transita por grupos diversos. Seus relacionamentos amorosos são pautados na extensa lista de homens com quem se encontra sexualmente em cada episódio. Algo como “Fisher boys” equivalentes às “Bond girls” de 007. É claro que também tem grande química romântica com o investigador de polícia do condado, Jack Robinson. Os dois formam uma dupla dinâmica, relutante no início, mas necessária conforme as relações vão evoluindo.

Não parece ter grandes convicções políticas ou ideológicas, à parte o feminismo. Não é de direita ou esquerda, mas acredita e prega a liberdade individual e a liberação das mulheres em todos os aspectos. Principalmente no sexual, adepta aos contraceptivos, ou “planejamento familiar” como diz. Faz uso tanto de pílulas quanto do diafragma, em nenhum momento se explicando ou se envergonhando por isso.

Muito do que acontece na série são consequências diretas da Primeira Guerra Mundial. Mesmo dez anos após seu final, as pessoas ainda tentavam esquecer o que ocorreu enquanto continuavam a viver com o que tinham. Phryne volta com um título de Honorável da Europa, mas para um país em que todos que conhece e vem a conhecer foram afetados por uma guerra que ocorreu a quilômetros e oceanos de distância dali.

Famílias destruídas, homens que perderam suas essências, uma humanidade endurecida. Por trás dos brilhos, das champanhes e do jazz alto que saía dos gramofones, havia na década de 1920 uma depressão coletiva mundial. Uma tentativa de aproveitar a vida ao máximo e assim borrar a memória do que não se conseguia esquecer.

“Eu não levo nada a sério desde 1918.”

Phryne em nenhum momento da série é autossuficiente. Precisa de ajuda para desvendar os assassinatos e também para navegar sua vida. Isso não a torna fraca, ao contrário. Apenas a fortalece como personagem e como ser humano. Assim como na vida real, Miss Fisher se torna melhor pelos seus relacionamentos profissionais e afetivos com as pessoas que a cercam: Dot, Jane, Jack, Hugh, Mr. Butler, Cec e Bert, e até mesmo sua tia Prudence. Os mistérios que Miss Fisher desvenda não são apenas dos assassinatos com os quais acaba se envolvendo. São também mistérios das relações humanas, de suas interações, e principalmente, de seus desenvolvimentos.

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Sobre M. R.

Paulista de nascimento, paulistana de alma. Já foi escoteira e já teve Orkut. Na próxima segunda começa aquele curso novo que não vai terminar. Assiste seriados. Muitos.