Os meus espaços


Eu fui à Lapa pela primeira vez quando tinha 18 anos. Não foi com o intuito de ser um rito de passagem ou uma comemoração ao fato de que eu era maior de idade; meus amigos da faculdade simplesmente me convidaram para ir a uma festa e calhou de ser na Lapa.

Se você é morador do Rio de Janeiro ou o conhece bem, sabe que a Lapa tem uma certa fama. É o lugar dos boêmios, é onde todo mundo fuma maconha, onde você provavelmente vai ser assaltado, estuprado, onde vão colocar drogas na sua bebida.

Não nego que tudo isso pode, de fato, acontecer, mas todas as recomendações dadas pelos meus pais não pareceram algo real quando pisei por lá. Nunca vou esquecer do senhorzinho vestido com as cores do Brasil e com uma bola de futebol debaixo do braço, a garrafa de bebida na mão.

Era um lugar divertido, diferente dos que eu costumava frequentar, e me parecia muito adulto (eu tinha 18 anos e, por mais que não dissesse, queria me sentir adulta).

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Conheci o Circo Voador naquele mesmo ano. Fui com minha prima ao show da banda favorita dela. O lugar habitava meu imaginário desde que eu era pequena. Meu pai, músico, tocara naquele palco algumas vezes, e era o tipo de lugar que tinha shows fantásticos que jamais aconteceriam em locais grandes. O Circo era o salvador da pátria indie, trazendo artistas como Foster The People, The Kooks e a minha maravilhosa Broken Social Scene.

Eu não fazia ideia de que ele se tornaria um dos meus lugares favoritos na vida, mas foi isso que aconteceu. Nem sei mais quantas vezes fui ao Circo depois desse primeiro contato, mas todas foram maravilhosas. Nunca saí de lá sem um sorriso no rosto.

Para quem não conhece, o Circo Voador é um espaço cultural, que começou no Arpoador, em 1982, mas acabou migrando para a Lapa. Ele surgiu porque os artistas precisavam de um espaço para atrair público e era, bem literalmente, um circo, com lona e tudo. Em 1996, o então prefeito César Maia foi comemorar sua vitória num show no Circo e foi vaiado. Depois disso, ele decidiu fechar o Circo, que permaneceu assim até 2002.

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Na época, um grupo se reuniu para pedir o retorno do Circo, ele foi reformado e reabriu em 2004. Atualmente, comporta cerca de 2.500 pessoas, e continua a sua tradição de ser uma casa aberta aos artistas mais diversos e mais obscuros. De Tom Zé a grupos circenses, ele acabou sendo a casa dos excluídos, dos outcasts.

E, coincidentemente ou não, virou um pedacinho de mim também. Sempre me sinto em casa quando estou no Circo, estou à vontade quando estou por lá. Acho incrível, porque eu achava que jamais conseguiria me sentir à vontade em algum lugar. Minha alma sempre foi meio nômade, tive um quê de boêmia a minha vida toda.

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Por isso me identifiquei tanto com Holly Golightly quando li Bonequinha de Luxo. Ela era uma mulher independente e forte, mas que não se sentia parte de lugar algum, estava sempre indo de um local a outro buscando aquele sentimento de pertencimento (ao contrário do seu vizinho, que parece pertencer aos lugares que acabou de conhecer).

O mais perto que Holly chega de se sentir assim é quando ela está tão mal (com os “mean reds”, como ela mesma diz) que vai à loja de joias Tiffany’s. Apesar de não ter dinheiro para comprar nada, ela gosta simplesmente da atmosfera do lugar. Basta olhar as vitrines para que ela se sinta mais completa.

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Holly sobre os mean reds: De repente, você está com medo e não sabe nem do quê.

O meu espaço favorito de todos ecoa esse sentimento em mim. No caso, eu não me lembro como descobri que ele existia (provavelmente, foi minha mãe quem decidiu me levar a um lugar diferente, e chegamos lá), mas sei o que ele significa para mim.

Meu lugar preferido é a Livraria da Travessa. Mas não qualquer uma (são oito lojas no total, sendo uma em São Paulo e as outras no Rio): a Travessa do Centro, lá na Sete de Setembro. Eu não sei dizer se são os três andares que você só consegue subir pelas escadas sinistras ou se é o cheirinho de café que nunca sai de lá. Não sei se é pelos atendentes maravilhosos que sabem muito sobre livros ou por conseguir achar livros dificílimos de encontrar. A única coisa que eu sei é que eu amo essa livraria com todas as minhas forças.

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Várias vezes, após um dia particularmente ruim, decidi passar por lá, e parece mágica: meu dia melhorava instantaneamente.

Ao contrário de Holly, não precisei procurar muito para achar lugares que me ajudassem a ser mais completa. E, mesmo não sendo possível visitá-los diariamente, só saber que eles existem já traz um sorriso ao meu rosto.

 

Onde achar:

O Circo Voador fica na Rua dos Arcos, na Lapa, Rio de Janeiro. Ele é cercado por barraquinhas onde você pode (e deve) comer e beber antes do evento no Circo. Para conhecer um pouco mais sobre a história dele, confira o documentário A Nave.

A Livraria da Travessa fica na Rua Sete de Setembro, bem no centro do Rio de Janeiro, no número 54. Você pode ver os outros endereços no site.

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.