Os limites do caps lock: o que o Channing Tatum tem a ver com textos na internet


Gosto de me gabar dizendo que meu eu na internet é igual ao meu eu fora dela, que sou a mesma pessoa no Facebook e no blog e em festas e no trabalho. Tenho algum prazer em ser uma pessoa transparente e coerente, um livro aberto. Escrevo como falo, falo como escrevo – muito e sem pontos e com vírgulas e ponto-e-vírgulas e travessões à beça, encadeando uma ideia na outra e me perdendo um pouco no caminho. Mas, como quase tudo que a gente diz sobre nós mesmos, isso não é, assim, inteiramente verdade. Sou essencialmente a mesma pessoa em todos esses âmbitos, mas existem mudanças: no trabalho, evito palavrões, mesmo que solte eles quando estou empolgada entre amigos; no telefone, falo de forma mais pausada, mesmo que ao vivo eu fale sem parar pra respirar.

O mesmo se aplica a textos: o tom, a forma, o estilo mudam de acordo com o que e para quem e para onde se escreve. O destino da escrita transforma seu processo. Um e-mail de trabalho é diferente de um artigo de faculdade, que é diferente de um texto para um blog, que é diferente de um e-mail para a sua melhor amiga, que é diferente do bilhete que você deixa pra sua mãe avisando que não vai dormir em casa. E, mesmo quando restringimos um pouco mais o escopo, falando só de um mesmo tipo de texto – literário, ou ensaístico, ou jornalístico, ou o que quer que seja –, é o destino dele que nos informa, nos limita e nos liberta.

Todo mundo aprende isso, num nível mais básico, nas aulas de português no colégio: aprendemos que existe registro, que determina se a gente se comunica de forma mais formal ou informal, dependendo do contexto. Só que existem manifestações mais sutis, que não são só do contexto trabalho x casa, colégio x festa, mas que têm inteiramente a ver com exatamente que pessoa você está falando, com que tipo de leitor você terá.

Uma das formas mais legais de observar isso (na minha opinião), é ler esses compêndios de cartas de escritores conhecidos, ou os manuscritos anotados pelo próprio autor. Você vê, desse jeito, que quando escreve ficção a pessoa usa mais uma palavra x, mas, na correspondência, prefere a palavra y pra dizer a mesma coisa. Ou que é sucinta e clara nos contos, mas super prolixa quando escreve para a pessoa amada.

Ou ainda que, bem, a pessoa escreve de forma bem parecida para todos os destinos – o que gera um grande estranhamento no leitor, porque ou as cartas parecem literárias demais, escritas com a intenção de que eventualmente fossem publicadas para um público maior e portanto um pouco “falsas” em seu real intuito comunicativo (eu tenho essa sensação direto quando leio esse tipo de volume), ou o texto literário da pessoa começa a soar como se ela própria estivesse falando, batendo um papo, e o autor começa a transparecer um pouco mais do que era esperado em sua obra.

Comecei a pensar em exemplos para dar no parágrafo anterior, mas o que mais me vinha à cabeça não era tão literário assim: os e-mails vazados no hack da Sony. Para quem não sabe, recentemente a Sony Entertainment foi hackeada, e vários dos e-mails trocados entre pessoas que trabalhavam lá forma vazados na internet – dos mais sérios aos mais bobos. Por mais que eu seja contra ler correspondência pessoal alheia, todos os e-mails com os quais esbarrei na internet foram super interessantes, exatamente pelo inesperado de ler algo cujo interlocutor era um só, e que de repente virou vários. Muitos dos e-mails revelavam racismo, machismo, manipulação, maldade e muita ganância, mas o meu favorito é um do Channing Tatum, ator de 22 Jump Street, para pessoas que trabalharam com ele no filme – inteiramente em caps lock, cheio de exclamações, o e-mail é uma comemoração de sucesso com HAHAHAHAs infinitos. E é, especialmente, uma comunicação tão sincera, casual e exagerada em sua empolgação que claramente não é o mesmo tipo de texto que o ator reproduz em público.

Esses e-mails também trazem toda uma nova dimensão à questão: a da internet. No caso do hack da Sony, as comunicações privadas e profissionais foram indevidamente transformadas em públicas, com um alcance enorme. Mas coisas semelhantes podem acontecer mesmo quando não é o caso de hacks ou vazamentos. Muito do que postamos na internet é público (do que eu posto, pelo menos): no Twitter, no Tumblr, no Facebook, no Instagram. Mas em geral são coisas que achamos que só nossos amigos vão ver, ou alguns amigos de amigos, ou no máximo aquele desconhecido nada a ver que foi atraído por uma hashtag. Só que o que acontece se, de repente, aquele post despretensioso no teu blog é compartilhado por alguém famoso e ganha um monte de acessos? Ou se um tweet engraçado que você fez no meio da madrugada se torna viral?

Com o alcance da internet, o texto pode mudar de destino mesmo após ter sido enviado para seu destino original. Inclusive muito tempo depois, de forma inesperada (meio que nem acontece quando desenterram aquela sua foto de três anos atrás que estava no fundo de um álbum no Facebook). Este texto aqui, inclusive, que eu escrevo pensando num público amplo-mas-não-tão-amplo-assim, pode ter repercussões inusitadas, e caso se espalhe mais do que o previsto talvez eu venha a questionar minha escolha por algumas frases e construções; talvez eu venha a me perguntar se o segundo parágrafo se comunica direito com o terceiro, ou se eu devia ter me esforçado para encontrar uma conclusão menos capenga (outra possível verdade sobre mim: conclusões não são meu forte, em nenhum registro). Mas acho que, no fim das contas, com essas possibilidades mil que a internet cria, o destino de tudo que é público tem que ser considerado muito mais amplo do que você espera, porque, né, nunca se sabe quem/como/quando vai (re)descobrir o que você escreveu.

Compartilhe:

sotersofia@gmail.com'

Sobre Sofia

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora, tradutora e editora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.