‘Os garotos corvos’, Maggie Stiefvater


Maggie Stiefvater é uma das minhas autoras favoritas, e a Saga dos Corvos, iniciada em Os Garotos Corvos é o trabalho dela que deixa seu talento mais evidente. A saga é protagonizada por Blue Sargent, uma garota excêntrica, criada numa casa onde vivem apenas mulheres, que são todas videntes, e que cresceu ouvindo de todas elas sobre a sua maldição: se ela beijar seu verdadeiro amor, ele morre. Blue não é clarividente, mas também é meio paranormal: ela funciona como uma espécie de bateria que amplifica os poderes de visão das videntes, por isso é levada com elas para seus trabalhos sobrenaturais. Se preocupar com os destinos alheios sempre foi parte de sua vida.

Na véspera Dia de São Marcos, as videntes conseguem ver os espíritos de todas as pessoas nascidas na região que morrerão no próximo ano. Porque Blue deixa a experiência mais clara, ela é levada junto – ainda que não consiga ver nenhuma das almas. Até aparecer Gansey, a única alma que ela conseguiu ver. Eu sei o que você está pensando: Blue e Gansey vão se conhecer, ela vai ter conflitos internos porque se ela o beijar ele morre, e ela ainda por cima já sabe que no correr do próximo ano ele vai morrer. Teen angst, chororô e romance melado, certo? Errado.

A história é narrada em terceira pessoa através dos pontos de vista de Blue e Gansey e de mais dois garotos, Ronan e Adam, que são amigos desse último. Esses três, e mais um garoto estranho chamado Noah, estão envolvidos numa busca por um nobre galês do século XIV que supostamente estaria adormecido debaixo da terra esperando para ser despertado, concedendo um pedido a quem conseguisse fazer isso. Eles também estudam numa escola particular e metida só para garotos que fica na cidade. Alguns desses garotos têm tanto dinheiro que não têm muita consciência a respeito dele, enquanto outros desses garotos moram em trailers e não medem esforços para se transformar no self-made man que a América parece tanto amar, e se ressentem dos abastados. Alguns desses personagens têm traumas imensos com os quais ainda não aprenderam a lidar, têm pais ausentes, têm famílias abusivas.

Eis uma das minhas coisas favoritas sobre os livros de Maggie Stiefvater: eles misturam muito bem o aspecto paranormal da coisa, que é sempre super diferente e criativo, com o aspecto mais humano da coisa, que é sempre complexo e aprofundado. Isso faz com que o livro te conquiste e te prenda tanto por causa do enredo, que você quer desvendar, quanto graças aos personagens, sobre os quais você quer descobrir mais, os quais você quer compreender melhor. E aos pouquinhos você vai percebendo que eles vão muito além do que parecia no começo.

revenboys_quotePor favor, deixa esse menino viver, Maggie.

Blue Sargent é uma das minhas protagonistas de YA favoritas. Ela é daquele estilo different and proud, briga com caras que insistem em objetificá-la, pede por mais participação feminina na política. Ela também tem várias falhas, é bastante crítica com gente que nem conhece, julga todo mundo, especialmente os garotos ricos que estudam em Anglionby (‘fique longe dos garotos de Anglioby porque eles são babacas’ é um de seus lemas). Parece se ressentir de ser a única na casa que não possui poderes psíquicos. Mas Blue é uma personagem corajosa e que quer fazer a própria vida. Ela ajuda a contar os destinos de dezenas de pessoas todos os dias, mas o que ela quer de verdade é descobrir o seu próprio destino.

Os Garotos Corvos ainda conta com muitas outras coisas maravilhosas, tipo dinâmicas familiares de todos os tipos, tipo trabalhar muito bem as questões de falta de oportunidade versus receber o mundo de mão beijada – e os preconceitos que cada grupo tem em relação ao outro –, tipo os diálogos maravilhosos e o modo de falar e perceber o mundo de cada personagem. E tipo lidar com anseios e dúvidas adolescentes com honestidade e verossimilhança. Com suas ansiedades a respeito do futuro e a respeito de quem são e de seu lugar no mundo. E para a sua protagonista, também a respeito da agonia que é carregar sua maldição, de viver com medo de beijar um garoto porque ele pode, sabe, morrer.

É tudo muito maravilhoso, eu prometo. Os livros da Maggie costumam ser menos ágeis do que qualquer outro YA paranormal que eu já tenha lido, mas os personagens são tão bem desenvolvidos e a mitologia é tão curiosa e interessante que é impossível não se envolver. Talvez você comece o livro se sentindo indiferente e talvez demore a ver qual é o propósito dele. Mas é bem possível que ao final você já esteja mandando fazer sua camiseta com os dizeres #savegansey e colocando Ladrões de Sonhos no carrinho – ambas as atitudes são totalmente compreensíveis.

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fernanda.menegotto@gmail.com'

Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.

  • Fran Ahoc

    Adoreeeeeei! Mal posso esperar pra ler 🙂