Os casos de desamor e misoginia de Nathaniel P.


Texto: Brena O'Dwyer // Arte: Gabriela Amorim

Contém spoiler do livro “Os casos de amor de Nathaniel P.” de Adelle Waldman

 

O livro acompanha Nathaniel P. – através do ponto de vista do mesmo – um escritor freelancer que lança seu primeiro livro, vê a gentrificação do Brooklyn em Nova York e também seus relacionamentos amorosos. Mais especificamente vemos sua relação com sua ex, o ciclo de se apaixonar, namorar e terminar com Hannah e também quando ele começa algo pós-término. Nate é um cara intelectual, arrogante, sonsamente ingênuo, não dá o braço a torcer e por mais que se ache relativamente feminista, vê todas as mulheres a sua volta como carentes e emocionais demais.

Eu queria matar aquele menino. Ao mesmo tempo, eu sabia que podia me apaixonar por ele – e provavelmente já me apaixonei. Finalmente consegui entrar na cabeça desse cara. Você conhece esse cara, ele é de esquerda, ele é inteligente, ele não é superficial – pelo menos dentro do possível-, ele é legal, ele é carinhoso, ele tem seu charme. Ele se dá bem com a ex, mesmo ela sendo um pouco louca, você sabe, você conhece ela. Ele tá apaixonado por você e você por ele, então você se joga, porque você pode. Mas ai, de repente não é bem assim, nunca foi bem assim, ele gosta de você, só gosta, veja bem, estava claro. “Então vamos terminar, não quero ficar com alguém que não quer tentar”; “não linda, você não entendeu, sou eu, vamos tentar sim, te amo”. Duas semanas depois ele termina com você, na praça, do nada. Do nada bem mais ou menos, você já sabia, você percebeu, você não é burra, quer dizer talvez você seja burra porque você percebeu e se enganou, achou que ele queria tentar, ele te falou que queria tentar. É o clássico cara que te deixa segura só pra achar sua segurança pouco atraente, que te quer, mas só enquanto ele estiver totalmente no controle

Finalmente estou dentro da cabeça desse homem que atormenta e atormentou tantas mulheres (seguras e sãs, diga-se de passagem) que eu conheço, inclusive euzinha. Agora a pergunta é: será que eu queria estar aqui? Será que eu quero saber que existem pessoas que pensam assim?

O livro é escrito por uma mulher, o que só me faz pensar ainda mais: será que é possível? Esse cara existe? Ele está a solta? Que existe um cara que dá nota pras minas baseado na beleza eu já sabia. Agora, que existe um cara que tá apaixonado por uma garota, que acha ela linda, mas sempre pensa que o brother dele deu um sete pra ela, ele sempre pensa nisso, eu até imaginava que essa pessoa existisse, mas agora eu sei.

O que me perturbou nesse personagem é o quanto ele é real. Ele é um babaca. Bbk. B-A-B-A-C-A. Mas ele é absolutamente real, mesmo sendo produto ficcional da autora. Eu fico pensando: queria que vários homens lessem esse livro e me dissessem se eles pensam assim mesmo, se é possível pensar assim. Porque foi escrito por uma mulher e aí isso me dá a brecha de achar que esse cara não existe mesmo, é ficção. Waldman faz a proeza incrível de fazer um personagem ficcional completamente realístico, sem tirar nem por.

Essa é a beleza – e força devastadora – da ficção: não é tanto faz de conta assim.

O livro são os pensamentos do Nate, a autora só descreve, é o leitor quem vai dar valor ao discurso. É o leitor quem vai entender o Nate ou crucificá-lo. É o leitor que vai se perguntar se essa pessoa existe realmente e que vai aceitar ou não essa existência. Não é só a questão do ponto de vista da autora e do personagem principal, mas também das perspectivas que o leitor tem do mundo. Eu acredito na realidade da existência do Nate, mas talvez nem ele acredite nele mesmo.

 

P.s. Acabo de descobrir que “ele é um Nathaniel P.” é uma expressão nos EUA entre mulheres jovens pra falar de caras como ele. Eeeee parece que vários homens mandaram e-mails pra autora falando “aham, é assim mesmo”. Leiam esse livro gente, é demais.

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