“Os bons segredos”, Sarah Dessen


Antes de escrever essa resenha, eu fiz uma pergunta no twitter: vocês acham ruim quando uma resenha acaba sem querer virando um momento fangirl da pessoa? Já que a maioria dos que me responderam disse que não, que era mais animador assim, resolvi assumir uma coisa: se eu pudesse escolher quem eu queria ser quando crescer, seria a Sarah Dessen. A gente já falou dela aqui na Pólen, quando contamos das nossas autoras de YA preferidas, mas tenho um carinho especial pela Dessen que envolve os vários livros que li + o twitter maravilhoso dela (sério, sigam).

Eis que então uma das minhas autoras favoritas lança um livro novo, que parecia ser um pouco mais pesado que os livros anteriores. De forma geral, os livros da Dessen envolvem relações familiares difíceis, amizades, interesses românticos, crise sobre o que fazer com a vida, etc etc. O tipo de coisa pelas quais muitos adolescentes passam na maior parte dos livros coming of age. Aliás, é por isso que eu gosto tanto de livros adolescentes: é a literatura em que podemos falar sobre nossas crises.

No caso de Os bons segredos, Sydney é uma garota, segunda filha, que percebeu que estava sempre em segundo plano em relação a seu irmão mais velho. Peyton é o queridinho dos pais, até que perde o rumo na vida e acaba se envolvendo em problemas. Quando ele, dirigindo bêbado, atropela um garoto, deixa-o paraplégico e é preso, Sydney percebe que é a única que culpa o irmão por suas ações.

Em meio a uma escola que conhece toda a reputação de sua família, pais que colocam o irmão como vítima e uma culpa imensurável, Sydney resolve se afastar de tudo isso e começar uma vida nova em que não saibam que ela é a irmãzinha de Peyton. Certo dia, para evitar chegar em casa com o clima pesado, ela entra em uma pizzaria por acaso e conhece Layla, a filha do dono. As duas ficam amigas logo e Layla muda a vida de Sydney.

Esse é o principal motivo por eu ter adorado Os bons segredos: migas <3. Não é que não tenha um interesse romântico (tem, e ele é super fofo), mas a história de Sydney se liga principalmente à amizade dela com a Layla. É a Layla que a tira da zona de conforto, é com ela que Sydney conversa sobre os problemas na família, esse tipo de coisa. Por causa dessa amizade, nossa protagonista entende mais sobre ela mesma e consegue lidar com as suas questões particulares.

Outro ponto interessante – e isso tem muito a ver com a Dessen – é o foco nas relações familiares. Sabe aquela histórias de todas as famílias felizes serem iguais, mas todas as famílias infelizes serem infelizes do seu jeito? É por aí. A relação da Sydney com seus pais sempre foi problemática, mas foi com o acidente do irmão que ela se tornou tóxica. Ela se sente minimizada e, ao mesmo tempo, os pais duvidam dela pelo que aconteceu com Peyton. A relação entre os dois também é complexa: depois de terem sido próximos na infância, eles acabaram se afastando quando ele perdeu o rumo e Sydney não quer visitá-lo na prisão, apesar da vontade da mãe.

O mesmo acontece com Layla. Ela enfrenta uma disparidade no tratamento da família entre ela e seu irmão Mac (o interesse romântico fofo que eu mencionei aí em cima). Enquanto ele é o queridinho para herdar a pizzaria do pai (por ser homem, claro), ela é vista como mais delicada e mais frágil. Assim como Sydney, eles têm uma irmã mais velha que também esconde algo sobre seu passado, suas fraquezas e seus vícios.

Em último lugar, é importante falar sobre a delicadeza com a qual esse livro trata de assédio. Sydney tem que lidar com o melhor amigo de Peyton surgindo em sua casa e a deixando desconfortável. Ela não sabe bem explicar o porquê, mas a presença dele causa sentimentos ruins e, enquanto isso, seus pais o valorizam e mantêm ele por perto.

O maior mérito de Os bons segredos é unir tudo isso. Mostrar que todas essas facetas fazem parte da nossa vida: os amigos, a família, as crises internas, a insegurança e a vontade de sermos vistos. Tudo isso é importante para a Sydney, assim como é importante para cada um de nós, e tudo influencia nosso modo de viver.

Eu terminei o livro pensando em como todos nós guardamos segredos: sobre nossas ideias para o futuro, sobre nossas famílias disfuncionais, sobre nossos sentimentos. Todo mundo quer manter uma imagem, uma reputação, e nem sempre a vida ajuda esse plano. Por isso, são necessárias as pessoas que nos fazem entender mais sobre nós mesmos para que a gente possa se abrir.

P.S.: essa capa é maravilhosa <3

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.