Onde vivem os (nossos) monstros – Editorial #7


Aquele momento em que fecham sua trava antes da montanha-russa começar. A intensidade de um momento decisivo. Os gritos durante o filme de terror, seguidos de risadas de alívio quando olhamos em volta e lembramos que é ficção. A sensação de mostrar algo que você fez para os outros. Passar por um lugar mal iluminado à noite. Olhar pra baixo da varanda de um andar alto. O elevador parado por causa de uma pane de energia. Um barulho estranho do lado de fora quando todo mundo já está dormindo. Uma abelha pousando em você. Tomar uma injeção. Não saber muito bem o caminho. Desconfiança. Falar em público. Casas mal-assombradas. Episódios de Halloween de séries de TV. A brincadeira em que seu irmão se escondia dentro do armário só pra te assustar quando você entrava no quarto. Pular na piscina do alto de um trampolim pela primeira vez, até perceber a sensação gostosa. Qualquer primeira vez, aliás.

O medo se manifesta de diversas formas, tanto na vida real quanto na ficção. Tem o medo-susto, que é meio bobo e até um pouco esperado. O barulho da máquina de lavar à noite, quando você esqueceu que ela estava ligada; as brincadeiras com espíritos das festas do pijama; o momento em que temos um flash e descobrimos quem é o culpado em um livro de suspense antes da história contar e nosso coração dispara pelo que vai acontecer.

O medo urgente. Bem mais sério, são os triggers, as situações que nos deixam incertos, os perigos da vida real. Assim que nos sentimos em uma rua mal iluminada, quando vemos pela rua uma pessoa que nos fez mal, quando prevemos que uma ideia vai dar errado.  Isso não passa, por exemplo, quando a situação não é nossa, mas de um personagem. Se você tem medo de altura, ler que a Tris Prior fez uma tirolesa de cima de um prédio não é lá muito agradável.

Se o clichê nos diz que é preciso ter coragem para vencer os medos, nós dizemos que não é bem assim. Talvez você tenha que enfrentar seu medo de altura em algum momento, mas algo nos diz que desistir totalmente de temer ruas desconhecidas no escuro não é uma boa ideia. Sem contar que o mesmo temor pode ter o efeito diferente em pessoas diferentes. A desconfiança nas próprias habilidades pode levar alguém a nunca mais fazer arte, por exemplo. Uma outra pessoa pode usar essa desconfiança como incentivo para praticar mais. E aí? Seria o medo um impedimento ou uma motivação? Depende do caso.

Cada um sabe bem quais monstros vivem debaixo da própria cama e dentro do armário que nos recusamos a abrir. Ou talvez você esteja tão aterrorizado que nem saiba mais o que está te impedindo de dar o salto. Embora seja mais seguro evitar ruas desertas à noite, muitas vezes o que mais nos arrepia são os fantasmas e seres sobrenaturais que criamos na nossa própria cabeça. Essa sim, pode ser um monstro assustador. Mas esse a gente pode domesticar.

É isso que vamos explorar esse mês. Os medos racionais e irracionais, os traumas, as inseguranças. O que pode e o que nem deve ser enfrentado e como lidamos com nossos temores. Sustos bobos e o pânico inevitável. Medos da vida real, da ficção e os que sempre estão presentes. Mas de qualquer forma, manteremos nossa luz acesa.

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  • Beatriz Souza

    Por favor, atualizem a guia “Participe”.
    Ainda está com o tema “Memória”!
    Abs,
    Beatriz.