Onde estavam os adultos? — Uma conversa sobre Pretty Little Liars


Texto: Lorena Pimentel, Maynnara Jorge e Rovena Naumann

ATENÇÃO: Contém spoilers da última temporada exibida

 

Lorena: E, mais uma vez, estamos aqui para discutir longamente sobre séries. Já falamos do machismo enraizado de How I Met Your Mother e da nossa relação com Gilmore Girls. Hoje, o alvo do amor X problematização é Pretty Little Liars. Sim, nós somos pessoas adultas que veem série de drama adolescente. Não, nós não ligamos pra isso. Agora, se apresentem, migas e, no maior estilo fandom, com qual Liar vocês mais se identificam?

Maynnara: Eu amava a Aria no começo porque achava ela alternativa, mas depois ela foi ficando chata e eu comecei a amar a Hanna. <3

hannamarin

Rovena: Eu também comecei amando a Aria, mas depois de um tempo comecei a admirar a Hanna (e o namorado dela, hahahaha).

May: Ah, eu gosto da Spencer também, mas depende muito do dia, porque algumas coisas nela me dão nos nervos

Lore: Então, eu sou como vocês (surpresa!), era Team Aria no começo. Acho que ela era proto-hipster, o tipo de pessoa que moraria na Vila Madalena e compraria coisas gourmet (nada contra, tenho até amigos que são). Com o tempo, perdi um pouco essa identificação. Hoje, tendo mais pra Hanna também. A Spencer é bem type A e bem aquele caso da menina inteligente e overachiever que a gente vê por aí, mas hoje não me identifico tanto com isso, sabe?

May: Nossa, sim! Essa coisa da Spencer sofrer pressão da família dela é bizarra e ao mesmo tempo é uma coisa bem presente na narrativa americana, né? Tem vários livros YA que abordam justamente isso, e todas as loucuras que ela faz até fazem sentido, além de como isso afeta ela na hora de lidar com os problemas do A né? Tipo, ela sempre ter uma teoria bizarra e estar sempre na frente das outras nas paranoias.

Rovs: Nossa, a Spencer. <3 eu gostava muito dela no começo. Ainda gosto, mas em algum momento a gente se perdeu. Mas eu não consigo não ficar com o coração apertado toda vez que ela tá com problemas na família. 🙁

Lore: Tenho uma teoria. A Spencer é a morena inteligente, a Hanna é a loira que gosta de coisas “fúteis”. A Emily, por ser lésbica, é estereotipada como esportista. Mas a Aria sobrou aí no meio e acabou sendo a cool girl. Como a gente já falou da Robin de How I Met Your Mother aqui na Pólen, o problema das cool girls é que elas são legais só pros homens. Onde eu quero chegar é: Ezra. Discorram.

Rovs: Ezra, não, vai embora.

May: UGH, EZRA NÃO! Essa coisa Lolita não faz o mínimo sentido. Além dele ter se perdido e virado uma vítima da cidade, sempre na mesma, nunca evolui. Não vamos nem entrar no fato de que um cara de seus (presumo eu) 20-e-tantos-quase-30 hanging out com um monte de adolescente não me parece nada normal, gente.

Rovs: E sabe, tem aquilo que ele sabia que a Aria era menor de idade e se aproximou dela APENAS para conseguir as informações que ele precisava pra terminar o tal livro sobre a Ali. Isso é tão ridículo e doente. Será que em nenhum momento ele pensou no que estava fazendo? (acho que não)

Lore: Duvido. Além dele ser manipulador no sentido de se aproveitar mesmo, o fato é que ele é um homem hétero branco e se a gente aprendeu alguma coisa nesses anos de série é que em Rosewood, assim como na vida real, os homens brancos adultos recebem todo o perdão. E ninguém mais. Por falar nisso, eu queria falar sobre essa coisa insana da série de ninguém acreditar nelas e elas terem que esconder tudo (nota editorial: pulei 2 temporadas no meio da série). Eu sempre associo isso a gaslighting, porque né, claro que quatro adolescentes não sabem de nada.

May: Cara, isso de ninguém acreditar nelas é bem problemático, né? E não faz o mínimo sentido, porque elas fazem isso desde o começo e na época que descobriram que a Mona era o A, os pais começaram a se preocupar e perguntar pra elas se elas ainda estavam sofrendo ‘bullying’ e elas continuam mentindo. Entendo que isso é um pouco do reflexo delas se sentirem ameaçadas, mas antes desse ultimo episódio, chamar a polícia nunca era a primeira opção e tem sempre alguém contra elas. Não sei lidar com o quão irreal e improvável é isso, sorry.

Rovs: Nossa, sim. Sempre tem um policial que faz ameaças e não acredita em nada que sai da boca delas. E acaba que ninguém mais acredita também, né? Eu fiquei até surpresa quando o Caleb foi falar com a polícia no final da temporada e eles escutaram. Mas é claro que isso ia acontecer porque Caleb = homem. E gente, e o fato de elas serem sempre suspeitas de alguma coisa? Mesmo quando tem provas de que elas não fizeram nada?

May: SIM! É quase Making a Murderer, elas NUNCA se livram, meu deus!

Bom, tem um assassinato a cada 3 segundos nessa série

Lore: Claramente tá na hora dos cidadãos de Rosewood fazerem panelaço na janela contra a corrupção da polícia/do sistema jurídico da cidade. Tudo errado isso aí. Mas assim, books belong to their readers, então eu sempre fico pensando que, assim como tudo em PLL, tem todo um fator ser caricatura da vida real. E não podemos negar que na vida real ninguém ia acreditar nelas (e na vida real, nada disso ia ser tão dramático, mas estou saindo pela tangente). Mas, semi-relacionado a isso: sempre tenho a sensação de que estamos em um desenho animado em que os adultos não aparecem quando vejo PLL. Sério, ok, elas são o foco e não dá pra demorar muito com os pais, mas tipo, wtf, é uma micro-cidade e ninguém nota que elas estão sendo perseguidas por um assassino? Ninguém nota o quanto o Ian é perturbador? Onde estavam os adultos esse tempo todo?

Rovs: Sim, exatamente. O único episódio que vi com um bom tempo pras mães foi o do baile, que elas estavam tomando vinho e tal e depois foram pro porão e ficaram presas. E foram esquecidas, porque só deus sabe como elas saíram de lá. Mas não, nenhum adulto repara em nada nessa série. Eles simplesmente são cego pra todos os problemas das meninas. E depois ficam cobrando coisas.

May: Nossa, sim! Fora que aparentemente todos eles estão sempre viajando. Embora a maioria tenha emprego fixo na cidade, nunca tem nenhum responsável pra cuidar dessas meninas!

Lore: Claro que isso é sempre aparente em narrativas adolescentes, os pais nunca surgem e só surgem pra atrapalhar, mas em PLL é mais notável e mais estranho porque elas estão literalmente correndo risco de vida e saindo pra explorações noturnas contra o stalker, mas ok, zero problemas.

May: Acho que faz sentido não focar neles, mas nesse caso chega até a ser cômico, porque a Spencer mesmo, nunca tem ninguém na casa dela, a mãe dela brota do nada depois de alguma viagem, o pai então, nunca ninguém vê. A mãe da Emily trabalha na polícia e não vê nada, gente! Não! Não, tudo errado. Como sua filha tá sendo constantemente investigada e você não sabe de nada???? Fora que o pai dela era tão desnecessário que até mataram ele. UGH

Rovs: Os pais da Aria também são dois desnecessários. O pai não serve pra nada. Eu gosto da mãe dela.

Lore: Vocês têm um pai ou mãe favoritos? A minha é a Ella. Adoro que ela ficou tipo “marido lixo me traiu com a moça aí” e então se livrou dele (WTF esses homens que são interessados só por meninas mais novas. sai seus lixo).

May: Eu curto a Ella também, acho que ela é a mais consciente delas, né? Ela pelo menos tenta dar conselhos pra Aria e parece realmente se preocupar. Se eu não me engano, a mãe da Hanna também foi traída, né? Mas ela é uma personagem tão estranha e às vezes eu não entendo algumas atitudes que ela tomou para amenizar as coisas.

Rovs: Eu gosto da Ella, como disse ali. Mas ela aparece tão pouco na série, que eu fico me perguntando qual a necessidade dela, sabe? Queria que ela fosse uma personagem mais presente. É uma coisa triste. E sim, a mãe da Hanna foi traída também. Eles até tentaram colocar uma rivalidade entre a Hanna e meia-irmã (?) dela, lembram?

Lore: Eu tinha esquecido completamente desse momento até agora.

WHO?

May: Vocês falaram isso e acabei de lembrar que a mãe da Spencer também foi traída. Super criativos os escritores, né? Também lembro dessa richa da irmã e não faz nem sentido, mas o foco deveria ser no pai da Hanna, que é um babaca.

Lore: Que surpresa: o destino de uma mulher  casada é que o marido traia ela com uma mulher mais nova. Porque oh, céus, quais as chances de um casamento dar certo se elas envelhecerem? Outro assunto, migas, vamos falar de ships com as Liars? Haleb / Spoby / qualquer outro, shippam ou não?

May: Haleb <3 Gente, no fim da última temporada tava um pouco incomodada com o Caleb, mas ele combina com a Hanna e faz bem pra ela. Also, eles são casal na vida real, então acho que isso contribui, né?

Rovs: Eu não sabia disso!! Mas sim, amo Haleb. Pra mim, esse é o melhor casal e ele me ganhou facilmente quando chegou em casa com ingresso pro show do Bon Iver. Mas também gosto de Spoby… Apesar de achar um pouco estranho, mas não sei o motivo.

Lore: Pra ser sincera, eu não shippo tanto nenhum dos dois. Nada contra, mas não foco muito nisso. A real é que, não sendo Ezria, tá no lucro. Quero falar mais das Liars em si, mas antes, vamos conversar sobre a Mona? Eu acho ela uma personagem muito interessante, como vocês se sentem sobre?

Mona rainha, resto nadinha

Rovs: Eu amo a Mona como personagem. E ela é muito inteligente também, né? Pra conseguir fazer o que fez sendo a primeira A.

May: Nossa, caso de amor e ódio com a Mona. Mas acho que ela é mesmo uma personagem muito inteligente. Ela parece estar sempre um passo a frente das outras e nesse último episódio eu achei que ela pareceu bem mais real, mostrando as fraquezas dela, sabe? Ela falou sobre como ela queria odiar a Charlie, mas ao mesmo tempo como ela sabe quão ruim foi viver em Radley e isso pra mim é sensacional

Rovs: Sim, a Mona nesse último episódio foi sensacional. Eu adorei essa parte dela, achei muito real, como a May disse. E ela falando que ainda tem pesadelos, mesmo depois de passar por terapias e remédios. Ugh.

Lore: Sabe outra personagem que eu acho legal? Legal assim no sentido de ser bem construída? A Melissa. Ela é bem mean girl e bem estereótipo de irmã mais velha chata da ficção, mas não conseguia não achar todos os arcos com ela ótimos.

May: Não gosto dela, mas ela é mesmo uma personagem bem consistente. Ela pra mim é aquela personagem que faz sentido, porque convenhamos que em PLL nem sempre os personagens fazem sentido, e ainda por cima se perdem no caminho e a Melissa é a mesma coisa em qualquer arco, então acho que ela é uma boa personagem, né?

Rovs: Confesso que queria que a Melissa fosse vilã. Eu sempre torci pra isso acontecer. Mas ela é uma ótima personagem. E acho que eu gosto de quase todas as mulheres de PLL. São poucas aquelas que me irritam profundamente, tipo uma  c e r t a  liar.

Lore: Falando nas Liars, vamos conversar mais sobre esse vínculo entre elas (especialmente as quatro). Nesse último episódio (o 6×11), elas mencionam que a ligação entre elas é porque elas passaram por coisas insanas juntas. Verdade, mas o que eu acho legal é que elas sejam até que bem diferentes entre si e consigam manter a amizade. Um ponto pela amizade feminina sem dramas clichês, PLL.

May: Eu gosto muito disso, eu acho tão genial como elas têm uma percepção no começo de que elas não eram amigas antes, elas só seguiam a Ali, mas ao longo da série elas realmente viraram as amigas que elas não eram antes. E nesse ultimo episódio é bom ver que isso ainda é algo forte entre elas, não só por tudo que elas passaram, mas porque elas aprenderam a se amar, né? Eu curto muito essa ideia de pessoas que são completamente diferentes e ainda assim conseguem viver em harmonia.

Rovs: Vocês falam tudo tão lindo :’) Eu amo a amizade delas e esso era uma coisa que me deixava bem chateada com os flashbacks, sabe? Porque elas estavam juntas, mas não exatamente juntas. E depois de tudo o que aconteceu, elas perceberam que podiam confiar, se amar e apoiar. E é lindo que elas tenham descoberto isso no meio de tanto problema. Eu fico imaginando se fosse comigo, não sei se conseguiria confiar nas pessoas do jeito que elas confiavam no grupo.

Lore: Tem algo de muito incrível nisso mesmo. Pretty Little Liars é uma série com histórias um pouco confusas, erros de continuidade e várias coisas problemáticas, mas se tem algo que eles acertaram muito e eu acho muito importante – só fui aprender bem mais tarde na vida – é que amizade entre mulheres vale muito. Claro que no caso delas a coisa é um pouco extrema, mas acho que a mensagem é muito válida em uma série pra meninas mais novas. Elas não estão competindo entre si, elas estão no mesmo time (ou será que não? DUN DUN DUN *ainda acredita que uma delas possa ser A porque né, PLL*)

Rovs: #AriaIsA

May: hahahahaha. Cara, pra falar a verdade, essa série é tão sem sentido que eu passei esses 8 anos achando que todo mundo era A. Elas, as mães, todo mundo que aparecia, até eu sou A nessa série, gente.

Lore: Pra ser sincera, se fosse uma das quatro, eu poria mais fé na Hanna. Mas né, do jeito que as coisas são em Rosewood, de repente alguém vai ter um primo de segundo grau perdido que na verdade é tio da outra e é a Big A. Não duvidaria nem um pouco.

Mudando de assunto, Alison. Pior pessoa ou pior pessoa?

 

May: PIOR PESSOA! Que criatura odiosa, meu deus! Eu não consigo parar de pensar que ela deveria ter morrido mesmo, porque ela era ruim antes, ruim morta, ruim agora. Não me conformo dela, depois de tudo que passou e que a irmã fez as outras passarem, ter a coragem de pedir pra elas ajudarem a soltar a moça porque ela merecia ter uma família. Só que ela não lembra que ela sempre teve uma família, mas ela era uma pessoa tão ruim com os pais e o irmão que acabou afastando todo mundo, né?

Rovs: Olha, eu às vezes penso a mesma coisa que a May e me sinto um pouco mal, mas é só a Alison falar ou fazer alguma coisa que isso muda. Eu não aceito ela pedir pras meninas mentirem de novo. Elas fizeram isso uma vez e deu tudo errado. Elas quase morreram. E sim, ela também foi vítima de A, mas poxa, por isso mesmo que ela deveria saber como as amigas estavam em perigo.

Lore: A Alison é horrível, mas aí eu nem posso julgar as Liars, porque já fui a Hanna de uma Alison. Já tive uma amiga que era parecida comigo, mas “melhor” e mais popular e usava isso pra manipular as outras. Acho que todo mundo tem. É legal que eles mostrem como essa manipulação tem força mesmo depois que a Ali “morre”, porque esse é o tipo de coisa que destrói sua autoconfiança.

May: Nossa, sim! Todo mundo tem uma Ali. Eu também tive a minha e nesse ponto é algo bem representado porque quando somos adolescentes não percebemos que aquelas pessoas que são nossas “amigas” podem ser ruins para nós. Acho que a maior libertação dos 20 e poucos é se livrar dessas amizades ruins. Sempre penso que o confinamento de horas na escola faz a gente se sujeitar a ser amigo de pessoas que hoje em dia não seríamos. Pra tudo isso ser real elas teriam que perceber isso, sabe? Que a Ali na verdade nunca foi amiga delas.

Rovs: Acho que é por isso que a Alison é tão odiável, né? Justamente porque todas nós já tivemos uma Ali na vida. Então vemos o que ela fez/faz com as meninas e conseguimos nos identificar. E aquilo machuca demais.

Lore: Acho que o que aprendemos hoje é que PLL é uma série problemática em vários níveis, que tem muitos clichês, mas que também tem uma valorização de meninas que a gente vê pouco em outras séries. Ok, elas tem romance (inclusive amiga lésbica), mas não estão interessadas só nisso. Elas conseguem superar a ex-amiga-bully e se tornam mais fortes juntas, sem ficar disputando homem ou quem é mais popular ou o que seja. Isso já é um avanço, acho.

May: Concordo. Eu falo que PLL é uma série ruim e não consigo parar de ver, mas quando penso nisso que você falou até que faz sentido. Sororidade, mesmo que não tão declarada, é uma coisa bem importante na série; não colocar drama-adolescente-irreal no meio do que já é absolutamente confuso e sem sentido talvez me agrade mais do que eu imaginava. hahahaha

Rovs: Sim, gente. A amizade entre as meninas é o que me faz voltar pra série toda vez que falo que não vou mais. Porque quando comecei a acompanhar, eu não tinha um grupo tão forte e bonito de meninas e vi que isso era muito importante. Hoje, do mesmo jeito que elas, eu não sei o seria sem as minhas migas. É muito amor e apoio. É muito girl power e essa mensagem precisa ser espalhada.

Lore: Bom, elas são o ápice do #squadgoals. Tirando, claro, a morte iminente e várias ameaças, sequestros e tal. Também aprendemos que precisa rolar uma CPI em Rosewood e que deveriam colocar a Spencer no comando das coisas. E ah, que aposto que vou assistir até o fim, porque se arrependimento matasse, eu seria que nem as mortes dessa série: sempre de volta.

Rovs: HAHAHAHA.

May: Verdade! Acho que o destino mesmo é ver até o fim e xingar, mas continuar amando mesmo assim, porque se a gente não gostasse de verdade já teria largado, né?

SIM!

Rovs: Pois é. A gente reclama mas sempre volta. E você já sabem, né? Saberemos quem é esse tal de Uber A no final da sétima temporada. Até lá temos muito mistério ainda. E provavelmente muito Ezra para odiar. Ó, céus.

Lore: Ainda estaremos aqui. – A

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