Onde estão os pais?


Texto: Sofia Soter

Na infância, a orfandade de protagonistas de filmes da Disney me desesperava. Por que as princesas não tinham mães? Por que não tinham pais, ou tinham pais que não cuidavam delas? Por que eram deixadas à mercê de adultos que as tratavam mal? Meu eterno desejo de ser uma princesa se confundia com a correlação direta entre ser uma princesa e ser órfã, ou filha de pais péssimos ou ausentes. Minha mãe – afetuosa, cuidadosa, nada ausente – me ofereceu a explicação que de certa forma acalmou minha angústia: naquelas histórias, as personagens não podiam ter mães (ou pais presentes) porque, se tivessem, nenhum dos perigos e aventuras aconteceriam; o resultado da ausência dos pais não era o final feliz, o castelo, os vestidos – isso tudo era possível (e ainda mais fácil!) com pais por perto –, mas sim os medos e perigos e tribulações no meio do caminho, e eu nunca gostei de viver perigos e tribulações.

Mesmo já tendo aprendido que pais amorosos e carinhosos não resolvem todos os problemas de todo mundo e que muita gente não os tem e mesmo assim vive sua vida sem riscos horrorosos dignos de filmes de terror, essa explicação de mecanismos narrativos dada por minha mãe me acompanhou nas duas décadas de televisão, cinema e literatura seguintes (e nas ocasionais consequentes noites de insônia e pesadelo). Hoje, com um pouco mais de discernimento sobre narrativas, me pergunto se a opção de um escritor pela orfandade – ou por pais excepcionalmente ausentes e ruins – é preguiçosa, se é impossível contornar de outras formas o limite da segurança que pais carinhosos oferecem a uma história infantil ou adolescente. Me pergunto, também, até que ponto a humanidade desses pais é crível – quando começamos a gritar “cadê os pais dessa galera???” para a televisão, quando questionamos como é possível tantos órfãos jovens amigos, quando os pais (se vivos) se tornam vilões demais. De certa forma, o inverso também acontece muitas vezes em histórias focadas em adultos que têm filhos – os filhos desaparecem, sempre em outro lugar ou cuidados por outras pessoas, se tornam acessórios dispensáveis de uma narrativa que seria impedida se eles fossem levados em consideração, tornando, por consequência, esses adultos em pais como os das histórias infantis.

Gossip Girl, minha eterna favorita, chega a admitir essa situação no final do último episódio: “The Upper East Side was like something from Fitzgerald or Thackeray – teenagers acting like adults, adults acting like teenagers, guarding secrets, spreading gossip, all with the trappings of truly opulent wealth” (em português: “O Upper East Side era como algo saído de Fitzgerald ou Thackeray – adolescentes agindo como adultos, adultos agindo como adolescentes, guardando segredos, espalhando fofocas, com todas as armadilhas da riqueza verdadeiramente opulenta”). Para uma série adolescente, a participação do núcleo adulto era até bastante presente, mas servia para aumentar o drama e a intriga – os pais de todo mundo estavam envolvidos em situações ainda mais absurdas do que os jovens, que constantemente agiam como imaginavam que adultos deveriam agir.

Mesmo assim, Gossip Girl era mais realista no quesito familiar do que séries que precisam de mais tragédia, como Vampire Diaries – cuja protagonista é órfã no início da série, e cujo elenco inteiro deve ser também atualmente – ou meu outro xodó televisivo, Pretty Little Liars. O envolvimento das famílias nos dramas sórdidos é, como em Gossip Girl, também fundamental em PLL (muito fundamental, cada vez mais), mas mesmo os pais supostamente preocupados são surpreendentemente ausentes ao longo da maior parte da narrativa. Rosewood, a cidade em que se passa a história, parece ter uma alta taxa de assassinatos, sequestros e violência, especialmente direcionados a garotas adolescentes, e mesmo assim as protagonistas (garotas adolescentes!) estão constantemente sozinhas em casa, dirigindo seus carros para locais abandonados no meio da madrugada, sofrendo ameaças de morte, entrando em crises psicológicas traumáticas profundas. Seus pais só aparecem quando precisam parecer suspeitos, revelar segredos obscuros, ou se envolver em uma trama familiar com o objetivo de convencer o espectador que eles ainda existem; são constantes antagonistas ou geradores de tensão, nunca personagens que formam um núcleo familiar cuidadoso – é uma pena, porque uma cena envolvendo as mães das protagonistas bebendo vinho foi um dos pontos altos de um episódio recente.

Exemplos de bons pais (ou pelo menos pais humanos, afetuosos, e não radicalmente ausentes) em séries são quase sempre pais e mães solteiros – divorciados ou viúvos – quase como se fosse necessário uma ausência como justificativa para as dinâmicas e dificuldades familiares: Keith em Veronica Mars, Lorelai em Gilmore Girls, os pais de quase todo mundo em Teen Wolf, Joyce em Buffy (cuja importância e humanidade são tão bem construídas que “The Body”, episódio de sua morte, é um dos mais devastadores da série). Na prática, é possível que o que identifico como uma certa preguiça narrativa seja também um limite prático: é mais fácil e financeiramente viável ter elencos menores, menos personagens, com menos participação. Mesmo assim, o padrão não passa desapercebido ou sem incômodos.

Claro que pais ou mães solteiras não são piores do que pais casados – e a visibilidade de relações como a de Lorelai e Rory é super interessante e oferece um ponto de identificação forte para quem cresceu em uma família assim. E claro, também, que muitos adolescentes vivem em situações familiares difíceis, sofrem negligência ou abuso, têm pais que só geram mais problemas e dramas; é realista, afinal, demonstrar esse tipo de problema, e importante também. E, bem, é normal existir uma resistência à própria família durante a adolescência – mesmo que a família seja cuidadosa e carinhosa –, então essa distância natural dos focos dos adolescentes pode ser também uma possível justificativa para essas escolhas narrativas.

No entanto, quando vejo essas séries, a explicação da minha mãe é sempre a que vem à cabeça: esses personagens não têm pais (ou têm pais ausentes e negligentes) porque precisam sofrer e ter controle total sobre suas próprias vidas de um jeito que pais cuidadosos impediriam; e talvez, quem sabe, porque os escritores dessas histórias viram filmes da Disney demais, acreditaram demais na ideia que a existência de pais cuidadosos e afetuosos te protege de tudo, e não sabem dar liberdades a esses personagens de outro jeito.

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sotersofia@gmail.com'

Sobre Sofia

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora, tradutora e editora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.