Onde a magia acontece


Texto: Paulo V. Santana // Arte: Gabi Amorim

Sempre paro por alguns segundos quando me perguntam por que escolhi fazer faculdade em São Paulo em vez de continuar no Rio. Preciso respirar um pouco de coragem para conseguir dizer que eu simplesmente vi as vagas, minha mãe aceitou o desafio e me joguei. Do nada, sem nenhum grande plano traçado, saí da única casa em que vivi, do bairro que eu podia andar de olhos fechados, da cidade cujas ruas formam as linhas da minha história.

Eu quebrei as paredes que me sufocavam no conforto, e vim. Simples assim.

Exceto que não foi simples — não é simples.

Hoje, depois de ter passado um ano construindo uma nova vida, é quase como se o lado da bifurcação que escolhi fosse a única estrada possível, quando, na verdade, era a mais pedregosa. Só cheguei aqui porque eu acreditava que deveria abandonar a zona de conforto com a qual tinha me acostumado para encontrar uma posição verdadeiramente confortável; um passo em direção à felicidade, talvez? (desculpa pela breguice, gente).

Tudo isso parece um plot de uma série ou livro sobre um jovem adulto se encontrando, e talvez seja realmente daí que eu, inconscientemente, construí minha trajetória. Posso não lembrar a temporada ou sequer como a Hannah lida com isso, mas guardo na memória uma cena de Girls em que a personagem da Lena Dunham vê numa parede dois quadros: o retangular, tradicional, é onde fica a sua zona de conforto, o redondo, diferente, é onde a magia acontece. Já em Sergio Y. vai à América, do Alexandre Vidal Porto, o personagem-título encontra em Nova York a cidade onde pode construir sua felicidade e ser quem é.

São essas narrativas de busca, de superação de limites que permeiam o que consumimos hoje e, para alguns de nós, acende um letreiro neon com a pergunta “por que não fazer algo novo?”.

Mas há uma linha que separa ultrapassar a zona de conforto e mudar pelo mudar. Não há por que arriscar-se em algo novo apenas pelo risco; não valeria a pena, por exemplo, eu decidir fazer Letras em outra cidade que não São Paulo. Por mais súbita e não-planejada que tenha sido minha decisão, ela não foi aleatória. Eu respeitei meus limites e virei tudo do avesso dentro do que eu sabia que poderia me fazer bem.

De alguma forma, eu saí do conforto para um novo conforto, mais… confortável. É claro que houve muita dor, saudade e dias de silêncio na transição, e ainda não é completamente “tranquilo” todos dias — essa vida entre duas cidades é uma questão constante. No entanto, por seguir a ideia de inovar respeitando os próprios limites, fica cada vez mais claro para mim que “sair da zona de conforto” não significa partir em direção ao desconforto, e sim abandonar a comodidade. Eu durmo até em pé em ônibus e, se um dia eu for a sua casa e você me disser para dormir no cantinho do chão gelado, eu consigo me acomodar ali e dormir, mas nada disso quer dizer que eu não prefiro o conforto da minha cama.

Pensando melhor, talvez a imagem de Girls não seja a melhor ilustração do assunto. Talvez você não precise sair do conforto para encontrar a magia. Talvez seja, na verdade, uma questão de expandir a sua zona de conforto e transformá-la no lugar onde a magia acontece.

P.S.: Este texto ignora, não propositalmente, uma questão importante quando se fala de mudar de vida e sair da zona de conforto: privilégios. Eu sou privilegiado por ter tido o apoio — emocional e financeiro — que me permitiu galgar ao que eu queria. Esse tipo de mudança, ainda mais numa idade nova, depende de fatores alheios aos nossos desejos, mas fica aqui o meu apoio e um abracinho virtual para você que está tentando alcançar o que almeja.

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Sobre Paulo V. Santana

Paulo tem 19 anos, cursa Letras na USP e... o resto ele ainda está descobrindo. Enquanto isso, ele canta High School Musical nos karaokês da vida, lê uns livros, reclama da vida na sua newsletter e perde horas e mais horas assistindo coisas no youtube. No Twitter: @paulovsantana