Ômi & Libélula


Texto: Eduarda Vaz

Ômi

Engole esse seu gozo

Pois aqui só permitido

Seu derramado choro

Engole esse meu gozo

Que “tá” aqui pra calar

Seu insuportável choro.

Só é permitido a mim

Ser a voz que alto canta

Aumenta essa sua saia

Fica aí pagando de santa

Mas é puta safada

Procurando vantagem

No carro que vê na garagem.

Esconde essa sua cara Inventa uma outra.

Se conseguir. J

á que inteligência

Nisso, que você é,

É coisa muito rara

Aceita essa rosa vermelha

Por esse dia maldito que é seu

Mas lembra que o restante é meu.

Toma.

Cala a boca, engole teu nome

E vê se não me pentelha.

Libélula

Assim que da vida ganhei o sim

Dos daqui dessa vila ganhei o não

Foi o prenúncio do devir de repressão;

Mas já chega!

Eu começo o fim,

Pois meu corpo grita para mim:

Somos mulher! Vamos! Nos erga!

Já me mandaram tanto engolir

Tapas, gozos, cortes, chibatadas

Que de medo e de vergonha engordei

Sentia minhas mãos e pernas atadas.

Em guardar tanto de tantos engasguei:

Hoje decidi cuspir tudo.

Desengaiolar:

Destravei o botão do mudo

Vim aqui para me despertar.

Escute, eu que sei da minha hora

Eu que decido quando chegar

E quando sair ou ir embora.

Eu tenho voz para cantar,

Declamar, encantar e reclamar.

Escute, eu tenho talento

Faço! Invento! Crio-me!

Sou de aço e voo como vento,

Meus passos são largos

Mas ainda lentos.

Escute, tenho colo

Ninho e ventre

Minhas irmãs são meu alento.

Escute, fique atento!

Uso roupas de curta e longa-metragem

Ando nua e nunca crua

Encontrei minha cura

Depois de tanta chantagem.

Sou eu quem sei do meu prazer

Do que me faz amar e enrubescer

Preciso mesmo é de mim para o trazer.

Escute, eu levantei a coberta

Saí do esconderijo que me trancaram

Quase morta com face torta

E deixei a porta bem aberta!

Escute e entenda:

Sou livre, estou liberta Sou libélula.

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