Ode ao meio do caminho


Texto: Amanda Tracera

 

Demorei muito tempo para me tornar leitora. Ao contrário da grande maioria de pessoas que acompanho pelos canais literários que a internet proporciona, não tive muito incentivo quando era nova e não colecionei inúmeros quadrinhos e histórias infantis; na verdade, o hábito da leitura só se tornou real pra mim após muito esforço de uma professora específica, e mesmo depois de descobrir que eu adorava o ato de sentar e ler, a paixão incontrolável pela literatura demorou um bom tempo pra se manifestar.

Até que, quando fiz dez anos, Crepúsculo aconteceu e Edward Cullen se tornou o meu (e de tantas outras pessoas) único assunto possível. Foi durante os anos de lançamento dos livros e dos filmes que aprendi a ler de verdade, porque essa era a única coisa que eu queria fazer. Passei dias folheando páginas e mais páginas, procurando histórias paralelas em comunidades do Orkut, pensando em vampiros e lobisomens e querendo um pouco mais de algo que só existia dentro de um objeto de papel. Assim, quando a série acabou e o último livro (com mais de quinhentas páginas – uma verdadeira conquista pessoal!!!!) foi fechado, a minha única alternativa era procurar mais coisas para preencher o vazio deixado pelo fim inevitável do que era a melhor história do mundo (eu tinha onze anos na época, me deixa). Estava marcado o início da minha paixão absoluta pela literatura young adult.

Desse dia em diante, meus gostos literários não mudaram muito: segui lendo séries fantásticas e, de quando em quando, lia também romances adolescentes. Na maior parte do tempo, lia as duas coisas juntas. Mesmo quando os clássicos ganharam espaço na minha vida, ou quando eu me apaixonei por livros policiais, os YAs nunca foram deixados de lado; quando a ressaca literária chegava, primeiro de mansinho e depois destruindo qualquer perspectiva de conseguir concluir uma meta literária, eles eram os únicos que eu conseguia suportar ler; quando eu viajava ou queria algo para passar o tempo, eram eles que eu carregava comigo; etc.

Devido a essa relação construída ao longo dos anos com esse gênero, muito me entristece ver o quanto ele é desmerecido, especialmente dentro de ambientes onde a leitura deveria ser incentivada. Essa separação recorrente daquilo que é necessariamente Literatura – com éle maiúsculo, cabelo branco, bigodes e uma foto perto de alguma máquina de escrever – e daquilo que é, em palavras ditas por uma ex-professora, “o resto”, é absolutamente equivocada e, sejamos sinceros, esnobe. Considerar um gênero “menor” ou “pior” que outro só porque ele é direcionado para um público mais jovem e/ou porque possui uma linguagem e um formato que abrange o interesse da grande massa é fazer questão de colocar a literatura como algo que serve para agradar somente os adultos com muito estudo, pensamento que deveria ter deixado de existir no século XVI, quando Gutenberg inventou a prensa móvel e ter acesso ao livro se tornou muito mais fácil e barato.

Me parece ridículo apoiar esse imperialismo da leitura, esse pré-julgamento que acontece nos segundos entre a pergunta “o que você anda lendo?” e a resposta que, caso seja qualquer nome que não Um Dos Grandes Autores Mundiais, talvez não seja boa o suficiente. Como se ler Machado de Assis fizesse uma pessoa melhor do outra que lê John Green, quando na verdade isso não faz o menor sentido. Como se estar diante de um livro considerado “de gente grande” atribuísse a quem o lê a habilidade de se tornar um adulto pleno e que jamais teve que passar por um drama adolescente sequer, imune às inseguranças que a vida inevitavelmente oferece.

Os livros young adult narram situações e personagens com os quais qualquer jovem pode tranquilamente se relacionar. São pessoas em cenas cotidianas e absolutamente reais para todo mundo que um dia já teve qualquer idade entre os 15 e os 21 – o vestibular, as relações com os amigos, os relacionamentos, as primeiras experiências, a faculdade, os sentimentos confusos, a sensação de estar perdido, etc. –, vivendo vidas parecidas com as nossas (em maior ou menor escala) e cometendo erros que nós também cometemos. Talvez não haja nenhuma grande questão existencial a ser debatida, talvez ninguém entre num quarto e de repente tenha uma epifania sobre a existência humana, e talvez seja, de fato, uma literatura cheia de problemas, mas desde quando isso basta para categoriza-la como insignificante?

Existe essa cena de Liberal Arts (Histórias de Amor, na tradução do filme para o português) onde o personagem principal, Jesse, apaixonado por literatura, descobre que a menina com quem ele está começando a ter um relacionamento leu um livro de vampiros, e então decide que vai lê-lo também para que eles possam conversar sobre a história. No dia seguinte, quando eles se encontram, ele pergunta as opiniões dela sobre o livro e ela responde: “Eu gostei. Foi divertido e bobo, e passou o tempo, e não é Tolstoy mas também não é a televisão, e me fez feliz”. Ele, por sua vez, determina que aquele é o pior livro já escrito no mundo, simplesmente porque sim. Porque não é um clássico. Porque é simplista. E então começa essa discussão sobre os motivos que levam alguém a pegar um livro para ler, e o que caracteriza um bom livro, ou uma leitura válida. Jesse é a representação clara da mente academicista que só deixa passar o que for clássico e tiver peso; Zibby é todos nós e nossos amores literários ora bobos, ora ruins, mas amores em todo caso e, portanto, válidos como leitura.

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(TL: fale sobre o que você ama, e fique quieto sobre o resto.)

Para mim, ler é sentir-se. O YA é, como a Ariel Bissett pontua nesse vídeo maravilhoso (e infelizmente em inglês), além de um gênero com suas próprias questões, o atalho mais rápido para fazer um jovem se interessar pela literatura, porque ele se vê representado naquilo que tem em mãos; é uma forma de ajudar um grupo de pessoas que está entrando em uma fase conturbada a encontrar caminhos, respostas e um pouco de conforto; é oferecer uma mão e dizer que ninguém passa por isso tudo sozinho. São eles que discutem questões como sexualidade, relacionamentos tóxicos e autoafirmação nas fases iniciais da vida, e são eles que auxiliam a base da nossa formação como indivíduos.

Não se comparam gostos, não se comparam culturas, e definitivamente não se comparam gêneros literários. A quantidade de clássicos em uma estante não determina o nível de iluminação e sapiência de ninguém, da mesma forma que a falta deles não significa necessariamente que estamos lidando com um completo ignorante literário. Como estudante de Letras, é um pouco assustador perceber que grande parte dos meus objetos de estudo são autores que eu fiz questão de ignorar durante a maior parte da minha vida simplesmente por sentir que eles não falavam comigo, e sim com uma versão mais velha e madura de mim, mas isso não me faz inferior a uma das minhas amigas, que cita obras clássicas com tanta naturalidade que chega a ser um pouco espantoso – nem a ninguém, na verdade.

E, caso alguém cisme em usar esse discurso chato de que young adult é um tipo inferior de leitura, a gente pode sempre lembrar daquela vez em que o Faulkner acusou o Hemingway de não usar palavras que levassem os seus leitores ao dicionário e recebeu a seguinte resposta: “Pobre Faulker. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”. Os young adults foram os primeiros a me ensinar que não, justamente por serem, ao mesmo tempo, livros de gente grande e livros de criança; justamente por estarem na metade do caminho entre uma coisa e outra, assim como eu estou.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.